Carla Azevedo, Psicopedagoga, especialista em Intervenções Assistidas por Animais no Centro para o Conhecimento Animal

A nossa afinidade com os animais é inata, costumo referir muitas vezes que neste  campo todos nós deveríamos permanecer crianças.

A nossa cultura também programa esta relação. Veja-se que, desde que a criança tem idade suficiente para acompanhar uma história, os protagonistas dos seus livros, dos desenhos animados, dos filmes, são quase sempre animais. De entre as primeiras 50 palavras que uma criança pronuncia, pelo menos sete são nomes de animais. Muitas vezes, e falo por experiência própria, até mesmo antes de aprenderem a dizer “pai” e “mãe”. Existem factos muito interessantes nesta relação animal-criança, os quais muitas vezes desvalorizamos.

Os pesquisadores Aline H. Kidd e Robert M. Kidd, da Universidade da Califórnia, observaram um grupo de crianças com idades compreendidas entre os seis meses e os dois anos e meio a interagirem com um cão ou um gato a pilhas (brinquedo) e com um cão ou um gato verdadeiros. Constataram que as crianças emitiam mais ruídos, seguravam mais e seguiam mais os animais verdadeiros em detrimento dos brinquedos.

Observaram também a reacção de bebés de 9 meses às suas mães. Numa sala, primeiro com uma mulher desconhecida, depois com um coelho pequeno e posteriormente com uma tartaruga de madeira, constataram que as crianças demonstram um interesse muito maior pelo coelho, verificando que a maioria preferiu mesmo o coelho à própria mãe, gatinhando pela sala no seu encalce para o tentar apanhar.

A atracção natural pela interacção com os animais tem efeitos positivos no desenvolvimento mental das crianças. Robert Poresky, professor de Desenvolvimento Humano e Estudos da Família, da Universidade do Kansas, entrevistou 88 crianças em idade escolar e suas famílias. Robert pretendia determinar até que ponto os animais de estimação influenciavam o desenvolvimento infantil. Descobriu que as crianças de famílias que possuíam animais de estimação tinham um nível superior de desenvolvimento cognitivo, social e motor.

Segurança e confiança

Os animais proporcionam um acentuado sentido de segurança às crianças. Estas confiam no mundo para lhes proporcionar alimento, agasalho, afeição. As necessidades básicas das crianças não podem ser satisfeitas por um companheiro animal, mas a coerência das reacções que recebem dos animais de estimação (em tudo o resto?) é capaz de aumentar a expectativa da criança de que será amada a apreciada ao longo da sua vida, fomentando a sua segurança e auto-estima. A ligação afectiva é assim outra das vantagens que encontramos neste relacionamento. As crianças formam com eles ligações fortíssimas, que, em muitos casos, podem ser tão fortes quanto as que têm com os pais, referindo-se a eles como membros da família. Conexões emocionais feitas com animais podem ser mais facilmente transferidas para relações entre humanos, através do aumento de atitudes empáticas. Ao contactarem com os animais, as crianças aprendem mais facilmente sobre a vida, reprodução, nascimento, morte e acidentes, sendo também fomentada uma aprendizagem de condutas sociais positivas.

Todas as crianças recorrem aos seus animais de estimação em momentos de tensão emocional. As crianças destacam a capacidade do animal de escutar, tranquilizar, demonstrar aprovação e proporcionar companheirismo, sendo assim o animal o seu melhor amigo, o seu melhor confidente e a sua maior fonte de conforto.

O desenvolvimento do senso positivo do Eu é impulsionado pelas interacções que fazem com que nos sintamos reconhecidos, aceites e admirados, e pelas experiências que demonstram que os outros estão atentos ao que fazemos e a como nos sentimos. Os animais de estimação oferecem tudo isso num espaço de tempo ilimitado.

Enquanto profissional e mãe, noto que vivemos muito absorvidos pelas tarefas sociais, deixando muitas vezes para segundo plano os nossos filhos, não por sermos maus pais, mas porque a vida quotidiana exige demasiado de nós. Acabamos, sem querer, por não dar aos nossos filhos a segurança que necessitam e neste ponto temos um concorrente que nos “bate” aos pontos. O animal de estimação! Este dá-lhes sempre atenção e tem todo o tempo do mundo para brincar com eles. Não substituem os pais, mas preenchem os vazios que deixamos enquanto andamos na nossa luta diária.

Incutir responsabilidades

Normalmente, as crianças estão habituadas a que cuidem delas, mas quando têm animais de estimação e quando lhes é incutida essa responsabilidade, os papéis invertem-se e há uma aprendizagem que é feita, há um sentido de responsabilidade que lhes é incutido.

O acto de alimentar e cuidar de um animal de estimação, colocar as necessidades de outro ser à frente das suas, é uma lição que deve ser aprendida desde cedo. Esta competência vital na infância aprofunda o vínculo e consequentemente a interdependência emocional. A criança e o animal de estimação criam o seu “mundo de segredos” que nunca será traído, existindo uma grande cumplicidade entre eles. Quando esta cumplicidade existe, pode ser uma fonte de estabilidade emocional e autoconfiança para as crianças, e torna-se também a base para um carácter mais maduro. Em estudos realizados no Japão e na Austrália, professores relataram que as crianças que tinham mais intimidade com animais de estimação apresentavam índices mais elevados de liderança e altruísmo.

Nos últimos anos, tem sido muito debatido (e comprovado) que a presença de um animal em casa pode actuar directamente na prevenção e tratamento de doenças e que proporciona uma rotina bem mais saudável para a criança. Uma pesquisa feita na Finlândia, na Universidade de Kuopio, atestou que a convivência entre cães e crianças favorece o fortalecimento do sistema imunitário, reduzindo significativamente o risco de desenvolvimento de doenças respiratórias e infecciosas. Pesquisas realizadas pela Associação Americana do Coração comprovaram que ter um animal de estimação reduz significativamente o risco cardíaco, inclusive nas crianças. O resultado é explicado pelo facto de o companheiro animal estimular a actividade física e, directamente, o trabalho cardiovascular. Claro que, em alguns casos, as coisas não são assim tão simples, mas colocando nos dois pratos da balança os malefícios e os benefícios da convivência das crianças com os animais, digo, sem sombra de dúvidas, que os benefícios são muito superiores.

Um elemento da família

Ao apresentar este tema, não posso deixar de alertar para o facto de que o animal de estimação não é a solução para todos os males físicos e morais. Para que tudo isto resulte, o animal de estimação tem que ser um ente querido e desejado por todos os elementos da família. Caso isto não se verifique, o animal, que tantos benefícios traz a uma família, passa, ao invés disso, a ser o motivo de discórdias no seio da mesma.

A decisão de ter um animal de estimação tem que ser tomada de forma ponderada, onde se deve analisar toda a dinâmica familiar e onde se devem debater todos os prós e contras. Não é uma decisão para ser tomada de forma impensada e por impulso. Deve ser tomada de forma responsável e consciente, ponderando se a família está ou não disposta a assumir essa responsabilidade, para que nenhum dos membros da família sofra, incluindo o animal.

Numa sociedade cada vez mais desumanizada, penso que devemos passar valores morais aos nossos filhos e educandos, e nada mais fácil do que fazê-lo com a ajuda de um animal, que faz parte dos elementos da nossa família.

Não nos podemos esquecer, tal como o moralista e filósofo francês, François La Rochefoucauld, referiu: “Nada é tão contagioso como o exemplo”, sendo que aqui os educadores têm um papel fulcral nesta relação.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº6 de Dezembro de 2018.