Isabel Gonzalez Duarte, Doutorada em Psicologia Clínica. Especialista em Psicoterapia Psicanalítica e em Psicologia Clínica e da Saúde

A família constitui-se como um eixo fundamental desde a infância, para o melhor crescimento e desenvolvimento de uma criança. Na adolescência a sua importância sobressai porque é neste momento do desenvolvimento que têm lugar importantes transformações físicas e psíquicas que antecedem a entrada na vida adulta.

Noutros tempos, a família alargada fazia parte da realidade da maioria das crianças e dos jovens. Hoje fica apenas na memória de muitos dos que recordam as longas férias de Verão passadas com os avós e com outros familiares ou cuidadores. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, já dizia o poeta, mas, afinal, qual a importância da família para um adolescente? Esta é uma questão da máxima importância, com a qual me deparo várias vezes e em diversos contextos na minha prática clínica.

A principal função da família de um adolescente é a de poder funcionar como um “espaço psíquico alargado”, ou seja, como um espaço que permite conter as tensões que se encontram directamente ligadas às transformações em curso durante este período do desenvolvimento. Quando existe um adolescente, isso significa que toda a família passa a estar envolvida no processo de tornar-se adolescente, ou seja, a adolescência também é um processo familiar.

Nos tempos que correm as famílias têm sofrido alterações profundas: as ditas tradicionais deram progressivamente lugar a pais isolados ou a famílias que se reorganizam de formas muito diversificadas. Apesar das diferenças, existem alguns aspectos que são transversais a todas as famílias: os conflitos relacionais entre pais e filhos, uma constante no decurso da adolescência. Nestes, o adolescente tende a opor-se aos seus pais como forma de consolidar a sua autonomia, podendo os pais apresentar algumas dificuldades em lidar com as tensões inerentes ao desenvolvimento. Acrescem ainda os comportamentos desviantes dos adolescentes, que, em muitas das situações, resultam de atitudes menos saudáveis dos pais, ao longo do crescimento dos filhos.

A nova família

A questão agudiza-se quando os pais voltam a (re)fazer as suas vidas, entrando em cena uma “madrasta” ou um “padrasto” com quem o adolescente passa a esgrimir o conflito de gerações, suscitando em algumas situações a necessidade de proteger o pai ou a mãe. Mas, nem sempre a nova família que se constitui permite ao adolescente ter um lugar onde se sinta tranquilo e seguro para poder realizar os processos que se encontram em curso durante este momento do seu crescimento.

Na adolescência ocorre a conquista da autonomia e da individualidade, embora os adolescentes ainda se encontrem profundamente dependentes da família. Quando o divórcio dos pais ocorre durante a adolescência pode levar a um movimento de procura fora da família de um modelo de identificação. O grupo dos pares surge como um outro lugar mediador da constituição da identidade e dos processos de identificação. Trata-se de um espaço onde os adolescentes podem exteriorizar as suas inquietações e em conjunto podem aprender novas estratégias para lidar com o novo e com o desconhecido.

Sempre unidos

Independentemente do momento em que ocorreu a separação dos pais constitui-se como fundamental que estes possam preservar uma relação conjunta para com os filhos, mantendo-se unidos e em uníssono, em todas as decisões que dizem respeito à educação dos seus filhos, para que estes se possam sentir seguros e protegidos, o que se constitui da máxima importância em termos da estruturação dos processos psíquicos durante a adolescência e como um bom prognóstico de saúde mental.

corpo no adolescente apresenta profundas modificações, as quais apresentam importantes repercussões psicológicas. Com o aparecimento dos caracteres secundários, o corpo sofre profundas alterações não só para o próprio, mas também para os que o olham, levando em muitas situações a que o corpo seja investido de uma representação simbólica, podendo ser amado ou odiado. Apesar da transformação, é também o corpo que traduz as tensões e os conflitos que ainda não foram elaborados mentalmente, pelo que é normal que as perturbações da primeira infância possam reaparecer durante a adolescência, por exemplo, sob a forma de perturbações do comportamento alimentar, traduzindo uma luta interna entre a avidez e a escassez, numa batalha de forças contraditórias, entre o permanecer criança e o vir a ser um jovem adulto. As perturbações da imagem do corpo podem surgir ligadas a uma inquietante estranheza, ou seja, trata-se de uma sensação inquietante de não reconhecer o corpo, o que, por vezes, surge acompanhado de uma forte angústia, podendo acordar comportamentos autodestrutivos, bizarros e incompreensíveis para os familiares, que mais não são do que a exteriorização de uma forte angústia.

Dar a mão e compreender

Independentemente do tipo de comportamentos que os adolescentes possam escolher para manifestar o seu sentir, o papel da família é o de ajudar a tornar consciente o que podem estar a sentir de uma forma inconsciente. Nestes contextos, mais importante do que punir, é prevenir e esclarecer, dar um sentido ao que os filhos estão a viver, porque esse movimento é contentor das ansiedades e libertador das tensões. As famílias são sistemas complexos, não são perfeitas e, como bem sabemos, não existem manuais para pais e filhos, pelo que se constitui como fundamental, por um lado, desmistificar e desdramatizar o turbilhão que os adolescentes sentem, e, por outro, ajudar as famílias a desenvolver as estratégias mais adequadas para lidar com as problemáticas específicas dos seus filhos.

O processo de tornar-se um adolescente inscreve-se por excelência num contexto familiar, no qual é fundamental existir uma boa distância entre os pais e os filhos, permitindo uma fluidez da comunicação e promovendo um bom desenvolvimento da autonomia. Para o melhor desenvolvimento destes processos é essencial que não se anule a diferença de gerações, ou seja, os pais devem manter-se pais, sob perigo de serem confundidos com amigos e gerarem distorções no crescimento dos filhos.

A família apresenta uma grande importância na função de criar pontes, entre a infância e a vida adulta, entre o hoje e o amanhã, entre o saber e o não saber; em tudo o que é inerente ao processo de tornar-se um adolescente, num caminho que vai da infância até à vida adulta, onde o adulto de amanhã irá construir a sua própria família.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº5 de Setembro de 2018.