Ana Kotowicz, Jornalista

Enquanto esperamos pelo desejado filho, o foco está em nós: nos nossos desejos, expectativas, na nossa espera, no nosso sofrimento. Mas nunca devemos esquecer que a adopção só existe por causa da criança e do seu superior interesse.

A minha gravidez foi a mais longa de que tenho memória. Esperei 777 dias desde que me disseram que podia ser mãe até àquela manhã de Inverno, fria, mas solarenga, em que as minhas duas filhas me pularam para o colo e fui chamada de mãe pela primeira vez. O número é bonito, 777, mas a espera não foi.

Tive a sorte de durante esses dois anos ter um livro para escrever, um manual sobre adopção em Portugal, e que me abriu a porta ao que hoje sei ter sido um luxo: o convívio com muitas famílias, todas construídas pela via da adopção, e que, por seguirem na mesma auto-estrada que eu, uns bons quilómetros mais à frente, me ajudaram a perceber ao que ia e a manter-me firme na navegação.

Duas mães, em dois momentos diferentes, deram-me os dois melhores conselhos que ainda hoje, dois anos cumpridos de ser mãe, me vêm à memória tantas e tantas vezes. A Rita disse-me que ia ser «bom, mas difícil», e já iremos falar das dificuldades. As palavras da Sofia foram sobre aquilo em que nos focamos: «A partir do momento em que há uma criança, é só ela que importa, tudo o resto desaparece.»

Foi preciso ser mãe, e haver duas crianças na equação, para perceber de uma ponta à outra o que a Sofia me quis dizer naquela conversa de esplanada. Antes de haver filhos, quando decidimos adoptar, estamos focados em nós. Dificilmente seria de outra maneira ainda não há uma criança de carne e osso na nossa vida. Há só um desejo, um filho potencial.

Quando tomamos a decisão, estamos inspirados pelas partes boas, a vontade de ser mãe, de ter um filho nos braços, de construir uma família, de viver a parentalidade. Dali para a frente, o processo endurece. Não porque seja excessivamente burocrático ou difícil, mas porque nada vai ser imediato, rápido ou simples como nós gostaríamos.

Para avançar e tornar a decisão real é preciso tratar da burocracia e nunca conheci alguém que gostasse de passar horas numa qualquer repartição de serviços públicos. Depois, a avaliação. São seis meses, assim diz a lei, para os serviços de adopção decidirem se estamos aptos ou não a receber uma criança que até então estava entregue ao Estado. E nesse meio ano somos vistos e revistos ao microscópio.

Quando se acende a desejada luz verde, e pisca a frase “aptos para serem pais”, segue- se a espera, o longo silêncio, a imensa gravidez invisível. É tão fácil, neste período em que não controlamos nada, que o foco se desvie para as nossas frustrações. A espera soa a injusta, a incompreensível, e é muito difícil gerir os dias a tornarem- -se semanas, meses e anos.

Em contrapartida, é fácil criticar tudo e todos, culpar o processo, a burocracia. Para atenuar os dias mais difíceis, procure- se na Constituição da República Portuguesa um artigo que preveja o direito a adoptar. Não existe. O que a lei prevê, isso sim, é o direito de a criança ter uma família. E se mudarmos o foco, se pensarmos só nela, o resto torna-se secundário.

O direito a ter uma família

A partir do momento em que as minhas filhas entraram em casa, nunca mais me lembrei das minhas frustrações passadas. Aqueles dois anos de espera tornaram-se num ponto quase invisível na minha linha cronológica. Dei por mim indignada com outras coisas: com o tempo que as crianças passam numa instituição, com o terem de lidar para o resto da vida com o afastamento da família biológica, com o terem direito à sua história pessoal que muitas vezes vem retalhada, com o terem o direito a que o Estado faça tudo para que as suas famílias de origem possam mantê-las consigo ou, em alternativa e quando tudo o resto falha, terem direito a ficar com a família alargada.

A frase “o superior interesse da criança” passa a fazer um novo sentido. O superior interesse das minhas filhas era terem tido pais biológicos capazes de educá-las. Isso seria sempre melhor do que terem passado pela separação, pela quebra do vínculo, pela institucionalização, por serem entregues a dois adultos estranhos que viriam a tornar-se seus pais. Não imagino a nossa vida sem elas, mas sei que para elas teria sido melhor terem tido uma família de origem capaz de evitar a adopção.

Ela, a adopção, tem tanto de bom como de mau. É maravilhosa porque criou a nossa família, mas é péssima porque na sua génesis está a quebra de outra família, a de origem, a biológica, aquela a que as minhas filhas tinham direito antes de qualquer outra.

É por isso que quando nos queixamos do processo, da burocracia, da avaliação, vale a pena ter isto em mente: aquelas crianças já passaram por tanto na sua vida que o Estado tem a obrigação de garantir que nada parecido volta a acontecer. Os candidatos têm de ser avaliados e preparados até ao limite, para que não aconteçam novas separações e não se oiça falar de crianças devolvidas porque os adoptantes desistiram delas – depois do falhanço da família biológica, também eles não foram capazes de cuidá-las.

É por isso que é tão importante ser sincero quando desenhamos o perfil da criança que queremos adoptar. Nem todos somos capazes de lidar com doenças debilitantes, atrasos de desenvolvimento, famílias numerosas ou multirraciais. Mesmo que a espera seja maior, não devemos esconder os nossos desejos. Haverá um momento em que uma criança estará presente. E nesse momento não há espaço para arrependimentos.

É também por isso que o matching entre criança e adoptantes tem de ser tão perfeito quanto possível e é por isso que estarmos na lista de espera não é sinónimo de que um dia nos tornemos pais. A realidade é esta: há três vezes mais candidatos do que crianças à espera de família, e os serviços de adopção têm como objectivo procurar os melhores pais para a criança e nunca a melhor criança para aqueles pais.

E um dia rebentam as águas

Passamos a vida a fazer analogias entre adopção e maternidade biológica, talvez porque o que melhor conhecemos é a gravidez tradicional. É como quando nas notícias se fala de muitas dezenas de hectares, reduzidas a um qualquer número de estádios de futebol, para melhor se perceber a grandeza.

Dito isto, depois de rebentarem as águas, o tão esperado telefonema dos serviços de adopção, o parto é uma espécie de versão 4.0 da maternidade tradicional. Não dói, não é preciso epidural, nem fazer força, e as crianças correm para nós pelo seu próprio pé, capazes de nos chamar mãe, pai ou o que fizer sentido naquele momento.

E é aqui que entram as palavras da Rita. «Vai ser bom, mas muito difícil.» Foi o melhor que alguém me disse. Não é que a picada de uma agulha doa menos se soubermos que ela aí vem, mas estarmos preparados para a dor ajuda-nos a lidar melhor com ela, a não sermos apanhados despercebidos.

Foi o que nos aconteceu. Ao longo dos seis meses de avaliação fomos percebendo que as crianças institucionalizadas trazem com elas muitos desafios, que tendem a ser problemáticas, a ter atrasos de desenvolvimento e problemas de comportamento. Acima de tudo, são menores a quem um dia dizem que estão ali os seus novos pais, dois estranhos. E que, mais uma vez, têm de abandonar tudo o que conhecem para se ligar e vincular a estas novas pessoas.

No nosso caso, depois do telefonema, houve duas reuniões. Primeiro, com a nossa equipa, que nos contou tudo o que sabia sobre as nossas filhas e quis saber se era para avançar – dissemos que sim e vimos pela primeira vez uma fotografia delas, um dos momentos de maior emoção na minha vida, depois, num segundo encontro, estava também a equipa que procura pais para as crianças e ainda duas técnicas da instituição onde elas se encontram. É a altura de fazer todas as perguntas.

A seguir vem o grande momento, o dia em que conhecemos as nossas filhas. Não há duas histórias iguais. Cada situação é única e as emoções estão à flor da pele. É o tempo da sedução, sete dias de visitas diárias à instituição para nos conhecermos. Mas esse tempo também acaba e é chegado o dia de ir para casa.

Essa é a fase de pré-adopção. Tudo pode acontecer e o processo pode ser interrompido pelos candidatos ou pelos serviços de adopção. É uma fase dura, em que as crianças testam as novas regras e limites, mostram o que têm de pior e de melhor numa alternância de nanossegundos. E cá em casa não nos escapámos a isso.

Um dia, tudo passa. Sem sabermos exactamente como ou quando deixamos de ser um grupo de pessoas a querer construir uma família e passamos a ser um pai, uma mãe, duas filhas. O amor acontece.

Hoje somos uma família quase como as outras. Com rotinas, regras, dias bons e dias maus. Mas nunca seremos exatamente iguais aos outros, porque a nossa história a quatro não começou na página zero, nunca começa numa história de adopção. Todos trazíamos uma mochila, carregada de passado e de momentos- -chave de que os outros não fizeram parte. E é nisso que somos diferentes dos outros. Volta e meia, o passado entra por nós adentro. Umas vezes é alegre, outras é triste. Mas é sempre bom sentir que no final crescemos todos juntos mais um bocadinho. Como família.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº6 de Dezembro de 2018.