Sara de Almeida Leite, Doutorada em Estudos Portugueses, especialidade de Ensino do Português, mestre em Estudos Anglo-Portugueses e licenciada em Línguas e Literaturas Modernas

O que é que os pais podem fazer para melhorar as competências de escrita dos seus filhos?

A partir do advento dos telemóveis e da generalização do uso da internet, os adultos começaram a preocupar-se com a linguagem “simplificada” que os jovens desenvolveram para comunicar por escrito: desde as abreviaturas ao uso e abuso de emojis, passando pela troca de letras e pela indiferença com que os erros ortográficos são encarados, o estilo de escrita dos jovens tem sido sentido como um problema sério, que provavelmente terá consequências desastrosas na vida futura destas gerações. Haverá formas de incentivar os jovens a melhorarem as suas competências ortográficas, sintácticas e estilísticas, de maneira a que consigam escrever com rigor e requinte?

Ler é fundamental!

O primeiro aspecto a ter em conta é que ninguém escreve bem sem ler textos bem escritos. É claro que não estamos a falar de qualquer tipo de texto, nem mesmo de frequência ou quantidade, dado que muitas leituras não nos ajudam a escrever melhor, pelo contrário. Os textos disponibilizados de forma imediata, sobretudo online, são normalmente os que não passaram por um crivo que garantisse a sua correcção linguística (publicações e comentários nas redes sociais estão muitas vezes pejados de erros de ortografia e construção frásica…), com a agravante de que esses são precisamente os que suscitam mais interesse por parte dos leitores “de ecrã”. Para além disso, passar os olhos por um texto, do princípio ao fim, não garante a sua compreensão. Ler “a sério” implica prestar atenção à mensagem e à forma como é transmitida, analisar, reflectir, questionar, comparar, elaborar, etc., actividades cognitivas que só realiza quem foi ensinado e incentivado a isso.

O papel das famílias e dos educadores e professores é crucial, mas não é obrigando a ler X obras por ano lectivo que se consegue motivar para a leitura… O melhor que nós, adultos, podemos fazer é sermos um modelo: lermos com frequência e com entusiasmo, partilhando com os nossos filhos os motivos concretos do encanto e da relevância que os livros têm para nós. Se não lermos, e principalmente se não comunicarmos a razão de lermos com gosto, dificilmente conseguiremos contagiá-los.

É certo que, mesmo quando têm bons exemplos em casa e na escola, muitas crianças e jovens não se interessam pela literatura “de fôlego”, em larga medida porque já nasceram na era digital, rodeados por uma série de estímulos audiovisuais, que tornam a leitura de livros muito pouco apelativa. Ainda assim, convém olharmos para a questão da falta de leitura como um problema transversal: basta considerar o número de livrarias que têm fechado nos últimos tempos para perceber que muitos adultos não estão a dar o melhor exemplo. Se os pais, tios, avós e outros familiares lerem com gosto romances, poesia, teatro, ensaios, crónicas, biografias, etc., e partilharem com os jovens os seus livros preferidos, será maior a probabilidade de estes se virem a envolver com obras que os enriqueçam linguística, cultural e espiritualmente.

Porém, quando os jovens manifestam, de facto, vontade de ler “livros inteiros”, o mais certo é a sua escolha recair sobre os que são actuais, escritos num estilo simples, de fácil compreensão, sobre temas directamente relacionados com interesses e experiências pessoais. Nesse sentido, muitos dos livros que cada um selecciona podem não constituir os melhores exemplos de escrita sofisticada, mas se forem textos já com alguma extensão, que exijam um nível de literacia considerável, a sua leitura deve ser valorizada, mesmo que não seja considerada “ideal” por pais e professores.

Escritas há muitas…

Relativamente ao estilo de escrita dos jovens, é bom reconhecer que o facto de se usarem abreviaturas e formas simplificadas ou mesmo adulteradas (como “tou”, “pra”, “krida”, “mto”, “pk”, “tb”, “bj” e tantas outras) não implica, necessariamente, que quem o faça regularmente deixe de saber escrever com rigor. As pessoas que lêem boa literatura com frequência e que estão habituadas a compreender e a utilizar um registo cuidado e/ou literário não se baralham: sabem que a escrita desleixada e “simplex” é para situações informais e que nas de maior formalidade devem alterar o registo de língua a empregar, na oralidade e na escrita.

Mais uma vez, o exemplo é crucial. As crianças e os jovens têm de se habituar a alternar diferentes níveis de linguagem, através do contacto com discursos e textos de tipos e estilos distintos. Aqui, naturalmente, regressamos à importância da leitura. Mas não só, pois o registo mais cuidado ou formal também pode ser ouvido, por exemplo, em programas de rádio e TV. Muitos professores procuram melhorar as competências orais dos seus alunos, pedindo-lhes que façam apresentações nas aulas com frequência e regularidade. Nessas ocasiões, os jovens têm a oportunidade de discorrer sobre um tema usando um vocabulário mais erudito e variado, frases com estrutura mais complexa e até uma dicção mais cuidada, seguindo o exemplo dos bons oradores. É de promover, portanto, esse tipo de exercício, em paralelo com a prática da escrita de textos formais, como os requerimentos, as cartas de reclamação, os comentários, as composições e as recensões críticas.

Para além do exemplo, é conveniente que crianças e jovens disponham de ferramentas – como dicionários, prontuários, guias de uso da língua e, claro, o incontornável “Ciberdúvidas da Língua Portuguesa” (www.ciberduvidas.pt) –, que os ajudem a chegar mais longe, a saber fazer melhor e a solucionar as dúvidas que vão surgindo. Actualmente, existem muitos recursos de consulta fácil e prática, sejam impressos, sejam virtuais, que ajudam a eliminar erros e a resolver hesitações e orientam na escrita de tipos específicos de textos e no uso de uma linguagem o mais cuidada e rigorosa possível. Nesse sentido, não só é bom que estejam ao alcance dos jovens, mas que haja por perto quem valorize esses instrumentos e mostre como podem ser eficazmente utilizados.

A motivação é o segredo

É verdade que as propostas de escrita costumam ser encaradas com muita resistência, não só por parte das crianças e dos jovens, como de adultos. No entanto, para os entusiasmar neste tipo de actividades, por vezes basta usar estratégias mais dinâmicas, lúdicas e interactivas, que os incentivem através da descoberta (adivinhar qual dos familiares ou colegas escreveu um poema sobre si), da estranheza (escrever uma receita para manter os amigos hoje em dia, com ingredientes e preparação), da diversão (tentar escrever num suporte difícil ou com a mão que não se usa normalmente) e da confiança nas suas capacidades (por exemplo, se o adulto reutilizar um texto escrito pelo(a) jovem, valorizando as qualidades que apresenta, para criar uma nova actividade de escrita ou de consolidação de vocabulário).

É importante que pais e professores se manifestem convictos de que os jovens são capazes de escrever cada vez melhor, que elogiem o seu desempenho sempre que possível e que se mostrem orgulhosos das suas capacidades de expressão e comunicação – sobretudo em situações mais formais e desafiantes. Devem ainda tentar mostrar-lhes, através de exemplos concretos, que escrever bem não só causa boa impressão nos outros, contribuindo para o bem-estar de cada um a nível social e pessoal, como abre portas e janelas de oportunidade, no meio escolar, académico e profissional.

Mesmo que utilizem formas desviantes para comunicar uns com os outros, os jovens podem desenvolver competências de escrita formal rigorosa sem dificuldade, desde que se empenhem nisso. O que é preciso, sem dúvida, é que eles próprios sintam a vontade necessária para desenvolverem essa capacidade.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº6 de Dezembro de 2018.