Teresa Carvalho | Nutricionista, Associação Portuguesa de Nutrição (www.apn.org.pt)

Desde o primeiro dia de vida que a alimentação representa um papel crucial para o desenvolvimento, não só físico, mas também emocional.

Desde o primeiro momento na primeira instância, a alimentação através do acto de amamentar liga o recém-nascido à mãe. Para além desta ligação do recém-nascido com a mãe, a partir do processo de amamentação, a verdade é que a alimentação tem uma forte conexão na vida social. Na medida que é a partir deste acto que o ser humano, além de satisfazer as suas necessidades biológicas e energéticas, promove os seus eixos de socialização, adquire e transmite a sua cultura.

E é nos primeiros anos de vida que são experienciados novos alimentos, texturas, sabores, cores e cheiros. Como tal, este processo de aprendizagem, que se inicia na diversificação alimentar e se prolonga até ao início da alimentação em contexto familiar, permite que a criança apreenda hábitos alimentares com impacto positivo no presente e futuro. A par da família, a escola e os pares exercem um efeito modulador sobre as crianças, porque proporcionam o contacto desta com novas rotinas, nomeadamente alimentares.

Também na escola se deve fomentar o ensino dos conceitos relacionados com uma alimentação saudável, dando a conhecer novos alimentos, particularmente os que são fundamentais para uma alimentação e crescimento saudável, e as proporções/funções de cada grupo de alimentos. Portanto, um estilo de vida activo, uma alimentação completa, variada e equilibrada, acompanhada de regras alimentares (por exemplo, esquema de refeições, refeições em família, não acompanhadas por aparelhos tecnológicos de entretenimento como o tablet, televisão e telemóvel) devem figurar desde tenra idade nos mais novos, de forma a se prevenir um conjunto de doenças inter-relacionadas com a alimentação.

Educação alimentar

Na verdade, a presença de doenças como, por exemplo, a obesidade, a diabetes e a hipertensão, pode ser prevenida, ou atenuada a sua presença, se as escolhas alimentares forem mais apropriadas nutricionalmente. E, deste modo, a promoção de hábitos alimentares saudáveis em idade pediátrica é uma estratégia de prevenção basilar para a diminuição da incidência e prevalência de doenças crónicas não transmissíveis, como as anteriormente citadas. Desta forma, a educação alimentar deve corresponder a uma das preocupações major por parte dos educadores (pais, professores, avós, entre os demais). Para tal, a sensibilização com recurso a práticas criativas de estímulo à adopção de uma alimentação saudável permitirá que os adultos de amanhã sejam mais instruídos em matéria alimentar, de maneira a poderem realizar as suas opções alimentares com autonomia e correctamente.

Aliás, durante o processo de educação alimentar é de especial importância que se valorizem as escolhas alimentares e de actividade física que se ajustem a um estilo de vida promotor de saúde. Não punindo a criança no caso da sua escolha ser menos apropriada, do ponto de vista nutricional. Nesse momento, é essencial que o educador(a) informe a criança para a escolha que está a fazer, demonstrando a importância dos vários grupos de alimentos, as suas funções e consequências positivas ou negativas no organismo. Pois, é essencial que as crianças apreendam esta informação para realizar melhores escolhas, muito particularmente, quando tiverem liberdade de escolha para o fazer. Sendo que o processo de aprendizagem nas crianças é influenciado, em boa parte, pela observação que estas têm do ambiente familiar. Como tal, é indispensável que os pais também pratiquem uma alimentação em concertação com a sua mensagem de educação alimentar e que estimulem a criança para o contacto directo com os alimentos, através de aspectos tão simples como ajudar a preparar a refeição ou o lanche da escola.

A importância da Roda da Alimentação

Ao longo da idade pediátrica as necessidades nutricionais e energéticas, de um modo geral, são variáveis e dependentes da actividade física, contudo, é imprescindível que a alimentação diária disponha de todos os grupos de alimentos presentes na Roda da Alimentação Mediterrânica e que se privilegie a água enquanto bebida de eleição para todos os momentos do dia. É recomendável, ainda, o consumo de um esquema de refeições coeso para serem definidos horários para as refeições, incutindo a prática de cinco refeições diárias (três principais e duas intercalares) para o controlo do apetite e manutenção dos níveis de energia para que, deste modo, sejam evitados jejuns longos que comprometem o rendimento escolar e levam à presença de sintomas como, por exemplo, a fadiga, a perda de atenção e a irritabilidade. É importante referir que as refeições devem ser iniciadas por sopa de hortícolas ou hortícolas cozinhados/crus, posteriormente o prato deve ser sempre constituído por hortícolas, os quais fornecem minerais e vitaminas, uma fonte de proteína, como, por exemplo, carne ou peixe magro/gordo ou ovo e uma fonte de hidratos de carbono, responsáveis por facultarem energia, como, por exemplo, o arroz e a batata. Já as refeições intercalares devem ser compostas por alimentos com qualidade nutricional (por exemplo, leite meio-gordo simples, iogurte natural, pão de cereais integrais, fruta, frutos oleaginosos, hortícolas crus como a cenoura e o pepino), ao invés de opções nutricionalmente pobres (por exemplo, refrigerantes, bolachas de chocolate, pão branco, cremes de barrar, produtos de pastelaria).

No âmbito de uma alimentação saudável são de evitar, ainda, os alimentos e bebidas açucaradas, processados e salgados. Tal como alimentos ricos em gordura, em especial a saturada, não só pelo seu contributo energético, mas, principalmente, pelo impacto que podem ocasionar a nível do sistema cardiovascular. Deste modo, é essencial que os métodos de confecção sejam simples, tal como preconizado pela Roda da Alimentação Mediterrânica, não se recorrendo à fritura, assados e estufados com gordura adicionada. Mas, optando por métodos que recorrem a pouca (ou nenhuma) gordura de adição para a sua preparação, como a cozedura em água ou a vapor, o grelhado e o estufado em “cru”.

Claramente que as crianças necessitam de consumir gordura, em média cerca de 30% por dia, de forma a garantir o aporte de vitaminas lipossolúveis (A, E, D, K) e o desenvolvimento do sistema nervoso e outras estruturas. No entanto, a gordura a privilegiar no consumo diário é a insaturada, presente em alimentos como, por exemplo, o peixe gordo, como a cavala, o atum, a sardinha ou o salmão, o qual deve ser consumido cerca de duas a três vezes por semana, os frutos oleaginosos e o azeite.

Palavra de ordem: educar

Assim, é de capital importância que seja estimulada a educação alimentar em casa, no ciclo de amigos e no meio escolar, para que a criança desperte para a adopção de hábitos alimentares saudáveis, os quais são importantes para assegurar o bem-estar físico, emocional e social da criança. Por isso, incentive os seus filhos, netos, sobrinhos ou alunos a brincarem muito ao ar livre para se manterem activos, em comunhão com a natureza e com as outras crianças, oferecendo no meio da brincadeira refeições compostas por alimentos cheios de cor, sabores frescos e repletos de nutrientes que os tornam saudáveis e felizes.

Refira-se que a Associação Portuguesa de Nutrição, enquanto associação técnico-científica, entre outras actividades, promove programas comunitários de sensibilização e divulga/dissemina informação de interesse público e profissional, sendo a alimentação em idade pediátrica um dos assuntos partilhados. 

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº3 de Março de 2018.