Se bem que uma alimentação saudável é importante em qualquer altura da vida, é nos primeiros anos que tem um papel fundamental, uma vez que afectará posteriormente a capacidade do sistema imunitário

Depois da amamentação, uma alimentação equilibrada, fresca, variada e feita em casa é praticamente tudo o que o bebé precisa para crescer forte e saudável. Nos últimos anos convencionou-se que a partir do momento em que um bebé começa a comer, basta abrir um pacote. A oferta de papas e produtos alimentares criados especialmente para bebés e crianças tem aumentado exponencialmente, baseando-se na ideia de falta de tempo dos pais para cozinharem, mas que no fundo se apoia numa grande lacuna de informação verosímil sobre as alternativas. Parece que não existem outras opções para além dos boiões e das papas empacotadas. Mas há. Uma alimentação natural!

O que é natural é bom

Também se foi alterando o significado de “natural”, que, em rótulos de produtos alimentares, por razões de marketing, aparece referido com pouca ou nenhuma propriedade. Mas, “natural” é algo que vem da natureza, por isso, fresco, energizado, puro, integral. Essa deve ser a base da alimentação, e não ingredientes altamente refinados, de proveniência desconhecida, com sabores e aromas artificiais, adoçados com vários tipos de açúcares refinados e que duram uma eternidade na prateleira.

As alternativas são fáceis, simples e rápidas. Cereais integrais em grão, fruta fresca e da estação, sopas frescas com legumes e feculentos da época, para iniciar o palato dos mais pequeninos é mais do que suficiente. Nas etapas seguintes, esta base mantém-se e acrescenta-se tudo o que a terra e o mar nos dão, de forma justa, integrada, sustentável e ética, se possível para o resto da vida e abrangendo toda a família. Os produtos animais são desnecessários, inclusive o leite de vaca. No reino vegetal encontrará a diversidade necessária para garantir que nutre e cuida da saúde do seu bebé, mas também da do resto do planeta, sem nunca perder sabor (muito pelo contrário), qualidade, praticidade e variedade.

Sinceramente, não há nada de mais gratificante para os pais do que ver os seus filhotes felizes, bem nutridos e saudáveis. E isso é fácil de fazer no dia-a-dia, o mais difícil é mesmo mudar o modo “automático” como gerimos as nossas rotinas. A seguir, algumas dicas que podem ajudar nesta mudança.

Regras fundamentais para uma alimentação e vida saudáveis

Pratos coloridos

Um prato colorido é sempre mais apelativo! Encontra todas as cores nos ingredientes naturais: roxo, verde, amarelo, vermelho, rosa, etc. Encha o prato de cores, texturas e sabores, prefira não ter um elemento principal e acompanhamento, mas vários elementos que componham o prato.

Ingredientes da estação

A natureza é perfeita e dá-nos tudo o que precisamos na altura certa. No Inverno, legumes e frutos mais densos, mais calóricos e que ficam bons cozinhados, sobretudo em estufados e sopas. No Verão, legumes e frutos mais frescos, com grande teor de água, bons para serem comidos crus e hidratarem. Os legumes e frutos da estação são também mais baratos.

De produção local

Raramente sabemos quem produz o que comemos. E nada se funde tanto em nós como a comida: transforma-se em células, em sangue, naquilo que somos. Conhecer as quintas e as pessoas que cuidam e plantam o que iremos comer é tão importante como a escolha do pediatra. Conhecer os produtores perto de si faz também diminuir ou eliminar a pegada da viagem dos alimentos, e ao produtor garante a obtenção da justa retribuição pelo seu trabalho. É também mais compensador para o produtor que prefere plantar e colher de acordo com a estação e a região.

Sem químicos nem pesticidas

Não se sabe qual o efeito nos humanos dos químicos usados na agricultura. Para um bebé tão pequeno e desprotegido as consequências podem ser muito prejudiciais. Procure produtores de agricultura biológica, permacultura ou agricultura biodinâmica.

Integrais

Prefira os alimentos na sua forma integral, ou seja, sem qualquer tipo de refinação. Isso permitirá obter todo o poder nutricional, e controlar de forma perfeita a sua preparação, que implica cozedura e demolha. Os alimentos refinados não têm qualquer valor nutricional e devem ser evitados.

Fora dos super e hipermercados

Prefira mercearias de bairro para comprar os alimentos a granel, idealmente os cereais, leguminosas, algas, oleaginosas e sementes, que são produtos mais difíceis de comprar directamente a produtores. Desta maneira conhece o vendedor, apoia o comércio local e paga o preço justo pelos produtos. Se continuar a preferir ir às compras nos supermercados e hipermercados evite levar o seu filho – os produtos que deve evitar são aqueles que estão estrategicamente posicionados para chamar a atenção dos mais pequenos.

Leia os rótulos

Se optar por alimentos empacotados, leia sempre os ingredientes que os compõem. Tenha em atenção que estes se encontram por ordem de grandeza. Não confie na maior parte das informações dadas no rosto das embalagens, são geralmente enganosas. Por exemplo, mesmo que os cereais de pequeno-almoço tenham cereais integrais na sua composição, os níveis de açúcares fazem com que estes não sejam, em geral, uma boa opção de refeição.

Evite o desperdício

Evite comprar alimentos embalados, evitando assim o uso desnecessário de plástico e o papel, o desperdício de comida e de recursos. Faça as suas compras com sacos reutilizáveis, prefira comprar a granel, escolha o vidro para guardar as sobras de comida e as papas, sopas ou snacks do bebé e as da família. Prefira fraldas reutilizáveis ou biodegradáveis, as fraldas convencionais demoram entre 400 e 600 anos a decompor-se e são extremamente poluentes.

Cozinhe em casa

A comida feita em casa é a que nos cria memórias e enraíza. Quem não se recorda das especialidades da avó com carinho como um ponto marcante da infância? Os alimentos da estação, de produção local, plantados e colhidos no ponto certo, chegam no seu perfeito estado à sua cozinha e são os que, de facto, nutrem, depois de passarem pelo carinho das suas mãos. Cozinhe para o seu filho e faça da refeição um momento importante de convívio da família desde a primeira papa.

Deixe o seu filho participar

As crianças gostam muito de ajudar na cozinha. Deixe-as participar, preparando a refeição consigo. Quando ainda são pequeninas, sente-as na cadeirinha junto a si enquanto prepara as refeições e deixe-as tocar nos diferentes legumes e frutos e observá-los. A partir dos 2 anos e meio/3 anos já podem misturar, mexer, esticar massa e temperar – deixe-as pôr as mãos na massa.

Ar livre

Saia de casa com o seu filho. Deixe-o sujar-se na terra, rebolar na relva, contactar com diferentes animais – isso é fundamental para um sistema imunitário forte e resistente. Fomente actividades ao ar livre em família.

O exemplo dos pais

Para que os mais pequenos tenham prazer e optem pelas opções mais saudáveis, os pais têm de dar o exemplo e eles próprios terem uma alimentação saudável. Se obrigar o seu filho a comer sopa, enquanto devora uma pizza, ele terá dificuldade em querer comer a sopa, por melhor que esta seja. Seja o exemplo.

Crie uma boa relação com a comida

A comida, para além de prazerosa, deve nutrir-nos e alimentar-nos. Não deve ser uma recompensa ou compensação. Recompensar o seu filho com comida poderá fazer com que ele crie com ela uma má relação no futuro, sobretudo porque geralmente se trocam gulodices por bom comportamento.

Água como bebida principal

O seu filho tem sede? Dê-lhe água. Os refrigerantes, bebidas açucaradas e sumos de pacote não são uma opção saudável. Mesmo que não lhe peça água, tenha sempre água disponível e ofereça-a regularmente.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº4 de Junho de 2018.