Susana Inês Carvalho | Enfermeira obstetra, conselheira em aleitamento materno

É costume dizer-se que os bebés não vêm com manual de instruções, este perde-se dentro da barriga das suas mamãs. Isto porque ter um bebé com todas as suas peculiaridades pode parecer à primeira vista um trabalho árduo, digno apenas dos mais letrados.

No sentido de responder a esta falta de experiência e desorientação no mundo da puericultura, começaram a surgir vários projectos que pretendiam dar apoio ou orientar os futuros pais, de forma a conseguirem lidar com a avalancha de desafios que se avizinhava, entre eles a amamentação.

Mas mais do que um manual é preciso que os pais compreendam que não existe nenhuma receita mágica capaz de dar resposta a todas as exigências que o vosso bebé vos vai propor, mas uma coisa vos garanto, vocês (o pai e a mãe) têm capacidade para redigir o vosso próprio manual de instruções, direccionado única e exclusivamente para o vosso bebé. Sim, é verdade, as respostas não vêm com o vosso bebé mas estão nele, na maneira como se comporta, como vos responde, como vos desafia, agora é só treinar a leitura!

Provavelmente já não se lembra como foi na primeira classe aprender a ler, não era fácil saber as letras todas, nem as várias fonias existentes para cada uma delas, juntá-las era ainda mais complexo, e agora olhe para si, lê este texto com uma facilidade tremenda, só precisou de tempo e treino!

Com os bebés passa-se mais ou menos de forma idêntica. Isto é, existem alguns princípios básicos que devem ser tidos em consideração, mas depois a forma de chegar ao resultado pretendido pode ser de várias maneiras, tal como um problema de matemática, em que podem ser utilizadas várias formas de raciocínio para se chegar a uma mesma solução. Apenas necessita de tempo, disponibilidade e paciência. Não duvide que é a pessoa mais apta a responder às necessidades do seu bebé, não sou eu, profissional de saúde.

Já é hora de mamar?

Não existem receitas, existem bebés e famílias únicas e especiais, com características diferentes e muito provavelmente leites maternos diferentes. Sabia que um bebé é capaz de identificar a sua progenitora através do odor do leite materno? Então quem sou eu para saber se já são horas de mamar? O seu bebé dir-lhe-á. Ele começará a fazer gestos com a boca e a língua de forma a tentar encontrar a mama da mãe, ao início provavelmente não passará de um pequeno som para tentar chamar-lhe a atenção, mas se não o atender rapidamente, ele escalará até ao choro de quem só se cala quando tem o que quer.

Claro que um bebé recém-nascido (até aos 28 dias de vida) não deve estar mais de quatro horas sem mamar, pelo risco de hipoglicémia (baixa de açúcar no sangue), mas dentro de intervalos de uma a quatro horas tudo é viável. Não se pode esquecer que o leite materno tem determinados componentes que o tornam fácil de digerir e fácil de absorver pelas vilosidades intestinais.

Não há bebés iguais

Cada bebé tem a sua própria velocidade de extracção moderada pela eficácia do seu reflexo de sucção e pelo número de canais do mamilo, que diferem de mulher para mulher e na mesma mulher entre mamilos, por isso é que há sempre uma mama favorita, normalmente a que drena melhor e é mais fácil, mas não diga a ninguém, é um segredo de bebés. Por estas razões é impossível balizar o tempo de mamada de um bebé, até porque ele se vai alterando conforme o bebé vai crescendo e sendo cada vez mais eficaz e rápido a extrair o leite, há recém-nascidos que chegam a estar uma hora à mama e lactentes que mamam durante 10 minutos e fazem um intervalo de quatro horas, tudo depende da consistência do leite, da capacidade de extracção do bebé, da sua fome, enfim são diferentes variáveis que entram em jogo todos os dias.

A satisfação do bebé deve ser outra componente a ter em atenção. Mas se não nos regemos por tempo e não temos mamas graduadas, por enquanto, como sabemos que o bebé comeu o suficiente?

Vamos então ao nosso manual de instruções: adormeceu na mama? Continua a fazer movimentos de procura e quando a encontra mama verdadeiramente?

Um bebé que mamou o suficiente será à partida um bebé que fica num estado de tranquilidade, pode ficar alerta ou a dormir, mas calmo e sereno. Um bebé que fica irrequieto e chora pode ser porque tem fome. E agora? Se for muito frequente este tipo de situações é preciso pedir ajuda a uma conselheira em aleitamento materno, como é o meu caso. Aqui cada situação precisa de ser analisada caso a caso.

O problema será da pega do bebé? Do seu posicionamento? Do estado emocional materno? Da drenagem do leite? Como vê, eu apenas levantei o véu da amamentação, numa perspectiva um pouco diferente, não a minha, mas a sua. O seu bebé, pela convivência que tem consigo, será sempre lido de forma mais eloquente através dos olhos mais habilitados para o fazer: os seus. Agora é só treinar!

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº3 de Março de 2018.