Cristina Leite Pincho, Consultora de Lactação (IBCLC), Doula, instrutora de massagem para bebés, educadora perinatal e consultora de Babywearing

Este é um assunto que necessita de ser tratado com alguma delicadeza. Se, por um lado, é algo absolutamente natural, a racionalização deste processo biológico tornou-se, por vezes, algo mais difícil e desafiante.

São muitas as mães que se sentem sozinhas, frustradas ou desamparadas, com muito medo ou culpa quando tentam dar de mamar e não conseguem, ou passam por muitas dores e dificuldades. Por várias razões, históricas e sociais, muitos mitos foram crescendo à volta do tema, enraizando-se e afastando cada vez mais as mães da sua natureza, minando a sua intuição e a sua confiança.

É preciso ajudar as mães, e as famílias, a recuperar esta confiança e esta intuição. É importante dar às mães informação para que possam tomar as suas próprias decisões de forma consciente e informada. Dar de mamar nem sempre parece fácil (aliás, por várias razões, muitas vezes não começa por ser). Mas o que acontece em muitos casos é que, com informação e o apoio certo, a amamentação deixa de ser o bicho-de-sete-cabeças que parecia ser e torna-se aquilo que realmente é: um processo natural, gratificante e bonito para a mãe e para o seu bebé.

A amamentação como um caminho

Defendo a amamentação como um caminho. Um caminho que poderá levar as mães a sentirem-se mais confiantes e mais seguras, os pais mais envolvidos e informados, as famílias mais capazes de apoiar a mãe: todos ficam mais livres para olhar para o bebé e para as suas necessidades, colmatando-as.

Este caminho começa por nos sensibilizar acerca da bagagem que temos ao dar início à caminhada pelo mundo da maternidade e da parentalidade, e a contextualizar a amamentação dentro da nossa cultura. Quais os personagens que estão envolvidos nesse projecto: a mãe e o bebé, claro, o pai, a família, os amigos, os prestadores de cuidados, os apoios mais formais ou informais que se podem ter. Todas estas pessoas podem ter um papel determinante na forma como vemos e perspectivamos a amamentação. Quer queiramos ou não, quer nos apercebamos ou não, fazem parte da bagagem que trazemos e que, por isso mesmo, podem ser facilitadores desse processo, ou, pelo contrário, podem dificultá-lo.

O caminho começa com a gravidez e termina com o desmame, mas vai tendo diversas estações no seu percurso. É na gravidez que o corpo se começa a preparar para que a amamentação venha a ser possível após o nascimento do bebé. E é durante a gravidez que a maioria das mulheres decide a forma como vai alimentar o seu bebé. É por isso fundamental falar com as mães sobre a amamentação nesta fase: dando informação fundamentada sobre a importância da amamentação exclusiva até aos seis meses, os riscos do leite artificial, os aspectos básicos dos procedimentos da amamentação, esclarecendo a importância do alojamento conjunto, como manter uma boa produção de leite, a importância da alimentação em livre demanda, o posicionamento, entre outros. Simultaneamente é importante ajudá-la a compreender o processo de amamentação, tanto emocional como físico.

O parto é a ponte entre a gestação e a vida extra-uterina e podemos ver a amamentação como o fio que liga estas duas fases distintas. O que se passa no parto poderá influenciar significativamente a amamentação. Para muitos autores o parto só termina depois da primeira mamada e, como tal, os bebés não deveriam ser separados das mães até que a primeira mamada estivesse terminada. Essa é a “hora mágica”. É maravilhoso ver como os bebés vêm equipados para conseguirem mamar após o parto, quando lhes proporcionamos um ambiente natural – que é estarem em cima do corpo da mãe – e lhes damos o tempo que precisam para que no seu próprio ritmo, sem pressas, consigam chegar à mama e começar a mamar.

A relação com o bebé

Os primeiros dias após o parto são fundamentais para uma amamentação o mais eficiente possível, por isso é muito importante que as mães e os bebés possam estar sempre juntos. Este aspecto é fundamental, pois a proximidade com o bebé permite que, desde logo, se comece a conhecer melhor e se responda aos primeiros sinais de fome do bebé, por muito incipientes que sejam, aproveitando assim todas as oportunidades para amamentar. A relação com o bebé começa aqui e é muito importante conhecer as suas características e necessidades nos primeiros dias após o parto, quando ainda se estão a adaptar ao seu novo meio ambiente. É um período muito específico e característico onde acontecem, muitas vezes, interferências que poderão começar a comprometer a amamentação logo no início, por isso deve ser dada uma atenção especial aos dois nos dias após o parto. O regresso a casa, principalmente num primeiro filho, é muitas vezes visto com muita ansiedade, sobretudo porque hoje em dia não são raros os casais que vivem sozinhos, longe do resto da sua família e da sua rede de apoio.

O regresso a casa

É importante saber o que esperar e onde procurar ajuda se ou quando necessário. Muitas vezes é necessário desconstruir as coisas que não correram tão bem no processo do parto e durante a estadia no hospital. A realidade e as exigências de um bebé são quase sempre muito diferentes do que foi imaginado e muitas vezes as coisas não correram como planeadas. A muita contra-informação existente cria nas mães muitas dúvidas e ideias pré- -concebidas, que é preciso ir desmontando (porque na prática não funcionam), sendo que podem surgir também pequenas culpas ou desilusões difíceis de gerir e o regresso a casa pode parecer avassalador.

Entender a amamentação como um processo simbiótico entre a mãe e o bebé bem como o processo biológico podem ajudar a ganhar confiança e a conseguir discernir a informação que interessa daquela que só vem causar problemas. Conhecer técnicas, posições, saber o que esperar em relação ao peso do bebé, saber quais os sinais que nos levam a entender se o bebé está satisfeito, ter ideia do que pode interferir negativamente no processo, saber onde procurar ajuda quando necessário, tudo isto são informações que ajudam a cimentar o processo de amamentação mas, acima de tudo, se a amamentação se tornar numa forma de conhecer e comunicar com o bebé, as mães tornam-se as verdadeiras especialistas dos seus bebés. Os bebés crescem e as suas necessidades estão sempre a mudar, por isso a amamentação é um processo dinâmico e em constante mutação, mas estando as mães atentas aos bebés e às suas necessidades tudo se vai tornando mais fácil.

Depois dos seis meses

Por volta dos seis meses surge a necessidade de começar a diversificar a alimentação do bebé. Esta é uma nova etapa cheia de novas descobertas, tanto para o bebé como para os pais. Até o bebé fazer um ano deve-se manter o leite como a fonte principal de alimento até porque – respeitando o ritmo do bebé enquanto descobre estes novos alimentos – é normal que ele demore tempo até que coma uma quantidade que permita satisfazer as suas necessidades. Nesta fase a ideia não é substituir a amamentação por outros alimentos, mas sim complementá-la com outros alimentos, permitindo que o bebé, ao seu ritmo e conforme as suas necessidades, comece a ser introduzido à alimentação da família.

Em determinada altura deste caminho para muitas mães chega inevitavelmente o momento de regressar ao trabalho, uma altura desafiante para as mães e para as famílias, pois não é fácil ter de deixar o bebé para ir trabalhar. Do ponto de vista prático e também emocional há várias readaptações que têm de ser feitas. A idade do bebé, o tempo de ausência da mãe, quem vai ficar com o bebé, são factores que deverão ser levados em conta para que as adaptações a esta fase possam correr da melhor maneira.

O desmame

Esta caminhada de amamentação, mais cedo ou mais tarde, chegará ao fim, passando sempre por diferentes fases e adaptações às necessidades do bebé e da mãe. Também o desmame, mais do que um momento específico, é um processo, e é também em si um caminho. É uma mudança, como tantas que existem ao longo desta caminhada, e é uma nova fase que faz parte da vida do bebé e da mãe, da sua relação e que marcará uma evolução na sua forma de comunicar, que até esta altura se baseia muito através do vínculo estabelecido com a amamentação. O desmame é uma decisão absolutamente individual, que deve respeitar os desejos e as necessidades da mãe e do bebé.

A amamentação é um caminho e uma relação. É preciso que as mães, os pais e as famílias descubram o prazer da relação da amamentação, quer esta seja ou não prolongada, pois, tal como a infância dos nossos filhos, acaba sempre por passar depressa de mais.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº5 de Setembro de 2018.