Carlos Neto, Faculdade de Motricidade Humana

As crianças e os seus ambientes não são angelicais. As crianças são impertinentes, curiosas, cheias de energias para despender (energias naturais) e predispostas para errar para poderem aprender.

Essa necessidade de jogo e actividade física atinge o nível mais elevado por volta dos 3 aos 8 anos no desenvolvimento humano. É, portanto, um momento crucial de conquistas e experiências que devem ser vividas para darem e terem sentido no desenvolvimento ao longo da vida.

Nas primeiras idades, o processo de desenvolvimento é complexo e de difícil compreensão, mas simples na forma natural como ocorrem essas aquisições no tempo e no espaço: a formação de padrões motores básicos, a gestualidade, a linguagem, a formação e estruturação do pensamento, a importância do brincar, o corpo e o espaço físico, as emoções e a estruturação do pensamento lógico, o sentido da comunicação verbal e não-verbal nas relações sociais, etc.

A procura de autonomia (distanciação) e de segurança (proximidade) é uma boa estratégia para perceber o sentido da evolução humana e o processo de aquisição de autonomia e independência motora nas primeiras etapas de desenvolvimento. Aprender a mover o corpo no confronto com o desconhecido, o incerto e o imprevisível, e mover o corpo através do ensaio e erro para aprender a adaptar-se é a maneira como a criança vai estruturando, de forma progressiva, as aquisições necessárias ao seu crescimento.

Este é um fenómeno que acontece em todas as espécies animais. Trata-se de uma questão de sobrevivência e aquisição de ferramentas para se tornar adulto. Este mecanismo adaptativo é ainda mais particular no ser humano, por ter uma infância relativamente longa e necessitar de assegurar a sua sobrevivência através de uma relação muito complexa entre mudanças que ocorrem no seu corpo e no seu ambiente. O corpo serve de mediador nesta aprendizagem de diversas competências e saberes. O jogo e a motricidade (corpo em movimento) são o segredo quase mágico que as crianças, naturalmente, utilizam para adquirir essas aprendizagens internas e externas.

O jogo e a motricidade são um instrumento poderoso, e, se bem utilizado, possibilita a promoção e a aquisição de um conjunto de aprendizagens fundamentais no desenvolvimento psicológico, emocional e social das crianças.

Brincar com a gravidade

Brincar é a verdadeira matriz do desenvolvimento humano, quer individual, quer colectivo. Um dos primeiros problemas da criança em termos de desenvolvimento motor é o desafio da gravidade. A conquista da posição de pé implica um grande conjunto de aquisições motoras, sensoriais e perceptivas. Da quadrupedia à bipedia o percurso é lento, mas evolutivamente rápido considerando a complexidade do processo. A aquisição da marcha e depois da corrida (transporte do corpo no espaço) exige múltiplas experiências e cuidados com o corpo. Este domínio dos movimentos de locomoção é uma referência básica e estruturante da motricidade humana. Qualquer criança transporta este desejo ancestral e espontâneo de se libertar da gravidade. De forma paralela, as experiências com objectos são essenciais para as aquisições de natureza manipulativa. Brincar com as mãos (materiais naturais ou construídos) é um desafio fascinante para as crianças aprenderem a ter curiosidade e capacidade de resolver problemas. Este investimento na infância é decisivo para o desenvolvimento do cérebro e para a capacidade de adaptação motora, perceptiva, emocional, cognitiva e social no futuro. O desenvolvimento e ajustamento postural (boa colocação dos apoios, cintura pélvica, cintura escapular, coluna vertebral e posicionamento da cabeça) devem ser considerados como um factor educável da motricidade da maior importância. A estruturação da direccionalidade e da lateralidade corporal constitui uma das mais complexas aquisições motoras na infância. Como situar o corpo no espaço? Como aprender a movimentar o corpo segundo objectivos bem definidos e necessários para uma movimentação com significado e externo? Um bom ajustamento postural é um bom indicador do estado emocional e afectivo da criança. Uma boa postura implica um domínio do equilíbrio corporal em termos estáticos e dinâmicos. Também a relação com objectos (movimentos manipulativos e preensivos) implica operações perceptivo-motoras mais sofisticadas. Lançar, agarrar, pontapear, cabecear, driblar e preensões de pequenos objectos são aquisições motoras com grande relevância na vida quotidiana e em futuras aprendizagens mais complexas. O domínio dos movimentos manipulativos (objectos e materiais), através da utilização da periferia corporal (mãos, pés e cabeça), constitui uma das maiores conquistas da humanidade. A ligação destes elementos fundamentais e estruturantes da motricidade na infância traduz o nível de coordenação motora global e segmentar nas primeiras idades. Estas aquisições motoras individuais (psicomotoras) acontecem de forma muito diversa entre as crianças, considerando a influência de variáveis genéticas e ambientais. Estas aquisições e experiências motoras e perceptivas (locomotoras, posturais e manipulativas), partilhadas em brincadeiras em pares ou em grupo, permitem a evolução da maturação cognitiva e social, que é fundamental para a aquisição de linguagens mais abstractas e sofisticadas. A interacção parental é um factor decisivo neste processo. Colocar as crianças perante situações novas e de risco (situações problema) é um passo decisivo para a conquista de mais autonomia e auto- estima. Não será bom para as crianças que os adultos manifestem uma excessiva protecção, uma cultura de medo em relação ao risco físico e não promovam actividades em espaços exteriores (naturais ou construídos). A estimulação em casa e fora dela (brincar com os filhos) é tão importante como a estimulação regular sistemática e intencional operada no contexto escolar. A Creche e a Pré-Escola são contextos em que é possível criar situações desafiantes para o brincar livre e actividades motoras capazes de criar narrativas simbólicas (jogo criativo, de imaginação e fantasia), fundamentais a um desenvolvimento equilibrado e harmonioso.

Este reportório motor básico (saber fundamental) é muito importante no desenvolvimento das relações sociais entre as crianças. O desenvolvimento da motricidade permite uma conquista progressiva de autonomia do homem através de referências biológicas e culturais. A comunicação motora através do contacto físico (luta e perseguição) e interacção com objectos (brincadeiras e jogos) completa a fascinante linguagem do corpo numa perspectiva evolutiva. Estas aquisições motoras em grupo (sociomotoras) permitem criar uma identidade própria nas culturas de infância. Jogo e motricidade na infância são inseparáveis. As crianças quando se movimentam fazem-no com um sentido lúdico (prazer, descoberta, risco, fantasia e adaptação). Mover-se é procura de prazer e autonomia (distanciamento progressivo). Educar é distanciar. Estes factores básicos do comportamento motor infantil podem ser educáveis e a sua observação regular é um excelente instrumento de diagnóstico pedagógico e terapêutico. Aprender a movimentar-se implicará uma complexa rede de factores internos e externos.

Se a actividade lúdica e motora no espaço escolar é fundamental no desenvolvimento da criança (estimulação organizada, sistemática e intencional) do mesmo modo as oportunidades de jogo livre fora da escola são absolutamente indispensáveis na estruturação do desenvolvimento perceptivo-motor (estimulação ocasional). No entanto, são preocupantes as condições actuais de vida das crianças na sociedade contemporânea.

Os constrangimentos à mobilidade e ao brincar na infância

Nas últimas décadas temos vindo a observar uma tendência em institucionalizar o tempo livre da criança através de actividades estruturadas de âmbito educativo, artístico, desportivo e cultural. O que está em causa é a diminuição trágica de estimulação lúdica e motora em situações informais. A inactividade física e a falta de contacto com amigos de proximidade (rua) e relação com a natureza aumentaram significativamente, colocando em perigo a estruturação do jogo e da motricidade infantil (coordenação motora, capacidades perceptivas, decisionais e físicas) exigíveis num mundo moderno cheio de novos desafios e incerteza. Hoje a vida na cidade é desesperadamente adulta e racional. Não podemos deixar de considerar que a nossa constatação é a de que está a aumentar a iliteracia motora, ou um analfabetismo motor crescente nas crianças do nosso tempo. Esta violência simbólica marca definitivamente os percursos de vida na infância em termos de construção de imaginários, fantasia e aprendizagem social. É absolutamente fundamental que as crianças tenham uma infância feliz. Não uma infância inventada pelos adultos. Importa criar contextos de participação das crianças de acordo com as suas motivações e necessidades próprias desta etapa da evolução humana. A adaptação ao espaço físico, electrónico, de jogo e aventura e de amigos são elementos fundamentais no desenvolvimento ao longo da vida (“life span”). Esta ideia de experimentação e exploração livre (jogo) pode ser colocada também em termos das aquisições intelectuais. O corpo é só um, podendo esperar-se que as aprendizagens na infância aconteçam através de um corpo activo que tem necessidade de se identificar nas suas estruturas e forma de funcionamento (linguagens concretas) e estimular mecanismos de auto-organização e regulação no percurso de aquisição de competências cognitivas (linguagens abstractas). Em contextos educativos, as aprendizagens escolares devem fazer apelo a modelos não lineares de apreensão do conhecimento. As crianças devem aprender a pensar e saber interrogar-se sobre os fenómenos da vida humana e do funcionamento da natureza.

Na verdade, as crianças aprendem a conhecer o mundo através de um corpo activo e perante problemas para resolver. Entretanto, o mundo mudou e as crianças também. O que é difícil não é sentá-las, mas levantá-las e serem activas. Não servirá de nada domesticá-las. Interessará dinamizar a curiosidade, a espontaneidade e o entusiasmo pela descoberta de si próprias e o envolvimento que as rodeia. Educar através do jogo e da motricidade implica em primeiro lugar saber observar as crianças e depois organizar os contextos de acção e fornecer os instrumentos necessários para sistematizarem e desenvolver o que já conhecem.

Esta é uma questão da maior actualidade na abordagem do estudo do desenvolvimento infantil. Que padrões de sedentarismo e stress caracterizam o perfil dos quotidianos das crianças que vivem hoje nas grandes cidades? Como evoluem, decrescem ou se mantêm os padrões de actividade física ao longo da vida, através de actividades formais e informais? Qual o papel da família, da escola e da comunidade no incentivo de crianças mais activas e consequentemente mais saudáveis? Que tempo e espaço são disponibilizados no dia-a-dia às crianças e jovens (e também aos pais) para exercitarem esta função biológica e social, como se observa em todas as outras espécies animais? Como conciliar o nível de segurança e a margem de risco corporal nas actividades de jogo informal? Parece deduzir-se, pelos estudos já realizados, que se torna urgente fomentar estilos de vida activos desde a infância (educação para a saúde), criando condições de estimulação oferecidas pela intervenção directa dos pais (interacção parental), pelas escolas (espaços de recreio e educação física) e pela comunidade (ruas livres de trânsito, espaços verdes, espaços e equipamentos de jogo e recreio). Não se trata apenas de assegurar condições para uma saúde física em crianças e jovens, mas principalmente a sua saúde mental. A actividade de brincar na infância é, com efeito, um problema essencial nas sociedades contemporâneas ou pós-industriais, nas quais o assunto do espaço disponível e tempo de lazer deve ser reconsiderado de acordo com as mudanças sociais e a mobilidade populacional existente nas cidades, vilas e aldeias. Nas últimas décadas assiste-se a uma progressiva sensibilidade política e social sobre o significado dos quotidianos de vida e culturas específicas de infância e também a defesa do direito da criança ao jogo, embora não exista de forma satisfatória uma legislação capaz de ultrapassar a dicotomia entre o espaço habitacional e social, de acordo com o crescimento populacional e os problemas relacionados com as dimensões da rede urbana.

Conclusão

A interpretação das disposições aprovadas na Convenção dos Direitos da Criança (ONU), bem como a Declaração da Associação Internacional para o Direito de Brincar (Viena, IPA, 1982) , exigem a necessidade de pensar sobre este tema numa perspectiva universal, bem como especificar a diversidade das suas realidades sociais e culturais. Um olhar atento sobre a defesa destes direitos não pode conviver com soluções corporativas ou conservadoras. A necessidade de espaço e tempo para a criança brincar, de forma livre e espontânea, depende em larga medida da necessidade de tempo e espaço para a família. As características da Sociedade Pós-Industrial (padrões de vida sedentária, “stress” emocional, maus hábitos de vida e inactividade física) e o nascimento de uma Sociedade de Informação implicam uma estratégia nova na visualização das diferentes estruturas sociais (a família, a escola, o trabalho e a comunidade), a partir de políticas integradas e procurando a harmonização possível, visando a qualidade de vida de todos os cidadãos. O espaço para brincar com autonomia pessoal em casa, na escola e na cidade do futuro inclui a reabilitação da rua como lugar de encontro, a reorganização dos locais de transição com qualidade ambiental e a renovação do espaço de recreio na escola numa perspectiva diferente da actual. Em todas estas situações, é impossível pensar num tempo e espaço padrão como a única alternativa. O futuro é plural e não vejo possível a existência de práticas lúdicas/corporais e espaços de acção com uma formatação excessivamente padronizada e obsessiva. É urgente procurar novas linguagens e modelos de referência apropriados ao mundo actual da infância, para compreendermos as necessidades de brincar e jogar ao longo da vida do homem.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº1 de Junho de 2017.