Por Isabel Gonzalez Duarte | Doutorada em Psicologia Clínica. Especialista em Psicoterapia Psicanalítica e em Psicologia Clínica e da Saúde

A adolescência é muitas vezes conhecida por ser um período conturbado do desenvolvimento, que se caracteriza pelo aparecimento de comportamentos tensos e intensos, levando a que os adolescentes sejam, desde há alguns anos a esta parte, alvo de fortes críticas

No processo de tornar-se adolescente, a caminho de vir a ser adulto, a maior dificuldade prende-se com o jogo entre o desejo de vir a ser autónomo e o ainda não o ser, o que se joga em simultâneo com a necessidade de construção da identidade do próprio, o que é indissociável dos processos de identificação que se constroem na relação com o(s) Outro(s).

No meu doutoramento em Psicologia Clínica, foi possível pensar as transformações psíquicas do Eu e da relação Eu- -Outro que se encontram em construção durante este período do desenvolvimento, mas, após a sua conclusão, fui desafiada a pensar nas inibições que podem estar presentes durante este período do desenvolvimento. Foi um desafio que aceitei com agrado e que aqui partilho, dada a pertinência deste tema na sociedade actual, onde a inibição se encontra presente de uma forma constante e permanente, sendo essencial saber reconhecer os seus perigos, para melhor poder actuar junto dos adolescentes.

O que é inibição?

Por inibição entende-se uma função que fica limitada, pelo que pode estar presente nos pensamentos e/ou nos comportamentos, sendo facilmente identificada nos adolescentes pelo isolamento e pela retirada da relação. Mas nem sempre a inibição é problemática ou patológica, uma vez que se trata de uma forma saudável para lidar com os conflitos inconscientes, funcionando como uma defesa para o que de angustiante invade o mundo interno e se manifesta na realidade externa.

Nos tempos actuais, a fronteira entre o que é normal e o que é patológico assume contornos muito ténues, pelo que se constitui como essencial pensar como é que têm lugar os movimentos de inibição presentes durante o processo de desenvolvimento adolescente, de modo a permitir uma leitura mais directa dos movimentos psíquicos por parte dos pais e/ou dos cuidadores, construindo ferramentas mais ajustadas às práticas de ensino e promovendo a realização de novas formas de acompanhamento centradas nos processos psíquicos em construção, durante o processo que é tornar-se adolescente.

É fundamental distinguir a inibição que diz respeito ao próprio, que designei por Primordial, das inibições que se encontram relacionadas com a dinâmica da relação Eu-Outro, a que chamei Pseudo-Inibição e Retro-Inibição, atendendo ao tipo de movimento que está na base da inibição e que apresenta características diferentes no masculino e no feminino. Esta conceptualização é apenas uma forma de organização que permite separar, para melhor compreender e pensar, a complexidade dos movimentos que se encontram presentes durante o crescimento dos adolescentes.

Inibição Primordial

A Inibição Primordial é aquela que traduz a incapacidade do adolescente em dar uma resposta, verificando-se uma dificuldade em lidar com as situações que lhe suscitam angústia, de as transformar, uma vez que a sua capacidade de dar uma resposta é nula, o que denota uma grande falha ao nível da sua criatividade. É vulgar ouvir os pais dizerem: “Agora só querem é estar no telemóvel…” Ligados fora, desligados dentro, no acesso ao seu mundo interno, ao turbilhão que é ser adolescente.

Para as raparigas a maior dificuldade a este nível reporta aos primórdios do desenvolvimento, ou seja, à integração das características do feminino na sua identidade, não sendo possível fazer uso das mesmas, o que suscita uma inquietação perante a necessidade de dar resposta, em termos pragmáticos, da realidade. Já os rapazes, no senso comum, são muitas vezes apontados pelo seu amadurecimento mais tardio, argumento que, por vezes, visa desculpabilizar a maior dificuldade de integração das dimensões da sua identidade, gerando um maior retraimento.

Na sociedade actual, a evolução pôs em marcha uma relação privilegiada com o Ter, o que suscita a criação de novos grupos sociais, económicos e culturais, geradores de mudanças profundas ao nível da(s) família(s), da(s) escola(s) e de noções como a de justiça, o que apresenta implicações directas no desenvolvimento dos adolescentes, que sofrem o impacto da urgência que domina nos tempos do presente, onde a inibição surge, também ela, como uma reacção às novas formas de estar em grupo, naqueles que são os contextos emergentes na sociedade actual.

O grupo dos pares constitui-se como essencial para a partilha e para o crescimento dos adolescentes. Mas, cada vez mais, nos tempos actuais, este grupo passa de real a virtual, encontrando-se à distância de um clique nas redes sociais, nos jogos online, onde todos juntos formam uma grande teia, que comunica com as suas particularidades e especificidades. É no emaranhado desta teia que se tecem as inibições da relação Eu-Outro.

Pseudo-Inibição

A Pseudo-Inibição, na relação Eu-Outro, traduz a falta dos limites e a consequente leitura distorcida dos processos psíquicos, o que podemos associar aos comportamentos auto e hétero agudos, como as mutilações ou as passagens ao acto, agudas na velocidade, no consumo de estupefacientes ou na vivência desmesurada da sexualidade. Nas raparigas, a Pseudo-Inibição está mais presente na entrada da adolescência, dissipando-se no final deste momento do desenvolvimento. Nos rapazes, o movimento psíquico é vago e denota maior imprecisão, traduzindo a sua permanência uma resistência em estruturar o Ser, de modo a poder agir de acordo com as regras sociais, sem necessitar do desafio constante dos limites.

Retro-Inibição

A outra inibição da relação Eu-Outro é a Retro-Inibição, cujo nome foi inspirado na moda, na imitação de um estilo passado, que volta ciclicamente no tempo. Também os comportamentos dos adolescentes são de modas, aparecem como ondas virais, agilizados pelas redes sociais, que aproximam o outro lado do mundo e introduzem realidades virtuais onde são construídos novos personagens, que se movem num espaço sideral, onde se confunde o real e o imaginário.

O jogo é um medidor do crescimento presente no desenvolvimento desde a infância, mas na adolescência traduz uma certa inibição, atendendo às suas particularidades, em especial o refúgio que suscita atrás de um computador, de um telemóvel ou de qualquer outro aparelho que viabilize a comunicação entre Un(s) e Outro(s). Num passado recente muito associado aos rapazes, no presente igualando- se em género, diferenciando-se nas temáticas dos jogos, em especial no grau de violência.

Desta forma, a Retro-Inibição não é mais do que a expressão de um estado mental caótico, que evidencia a oscilação entre a organização e a desorganização, dois movimentos psíquicos que caracterizam e descrevem o processo de tornar-se adolescente no caminho que é vir a ser um adulto. A impossibilidade de criar um espaço interno, no qual possa ser integrado o novo e o desconhecido, gera a inibição e leva-o para um outro lugar, no qual lhe é possível (re)criar-se, criando um espaço intermediário, de jogo na relação com o(s) Outro(s).

Este espaço funciona como um cenário, no qual podem ser encenados os conflitos subjacentes ao crescimento, estruturando uma co-construção do Ser, que se pode ir progressivamente organizando, dando lugar ao aparecimento de diferentes transformações psíquicas, que têm lugar entre o início e o fim do processo de desenvolvimento adolescente.

Comunicação sem estigmatizar ou rotular

A presença de um movimento mais desorganizado nos adolescentes traduz uma inibição do seu processo criativo, sendo importante que todos os que os rodeiam estejam atentos e alertas, para poderem incentivar a criação de novas lógicas, instalando um movimento mais organizador, onde a inibição faz parte da construção de uma intimidade, sem ser impeditiva do acesso a uma dinâmica intrapsíquica, que permite o acesso à intersubjectividade presente nas dinâmicas relacionais e afectivas, com os amigos, os pais/familiares e com todo o ciclo social.

A compreensão e a descrição dos processos psíquicos em construção durante a adolescência, em particular das inibições, constituem-se como uma mais-valia para todos os que, directa ou indirectamente, trabalham com os adolescentes: pais, professores, técnicos de psicologia e/ou de outras especialidades, que podem criar estratégias preventivas mais eficientes e construir ferramentas mais eficazes para a comunicação, sem estigmatizar ou rotular os comportamentos que caracterizam este período do desenvolvimento.

O contexto clínico é um lugar de comunicação por excelência. Aqui, a inibição deve ser compreendida e aceite de modo a possibilitar o acesso ao mundo interno do adolescente, pelo que o trabalho psicoterapêutico deverá incidir numa (re)construção interna do Ser, aliada a uma dinâmica externa do Ter, em particular no Ter uma família, que funcione como um espaço relacional transformador e mediador da passagem do Ser criança para o vir a Ser um jovem adulto, algo que só por si é suficientemente assustador e inibidor.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº4 de Junho de 2018.