A pele serve de barreira e de meio de interacção com o mundo. Comunicamos através dela, reconhecemos a temperatura e a dor, identificamos texturas e damos carícias. É por isso que é tão importante cuidar dela adequadamente.

Tal como o resto do corpo, a pele vai mudando no decurso das diferentes fases da vida: nos bebés é delicada e sensível, nas crianças vai adquirindo maior resistência e na adolescência, devido à revolução hormonal, é muitas vezes acompanhada pelo aparecimento da acne. Como explicam os especialistas dos Laboratórios Leti, a acne vulgar, conhecida simplesmente como acne, é uma das condições dermatológicas mais comuns na consulta da especialidade. Embora geralmente considerada uma condição de adolescentes e jovens (entre os 12 e os 24 anos), afectando 70 a 87% deles, também pode ocorrer tanto em crianças mais jovens como em adultos. A acne pode ter um impacto psicológico significativo, afectando a percepção da imagem pessoal e prejudicando a auto-estima do adolescente. Como tal, torna-se essencial conhecê-la e saber como actuar perante a sua ocorrência.

A que nos referimos quando falamos de acne?

A acne é uma condição inflamatória de origem multifactorial que afecta a unidade pilossebácea (que inclui o pêlo, a glândula pilossebácea e o canal folicular) e que se apresenta com maior frequência na face, nas costas e no tórax, áreas onde a actividade desta unidade é maior. As manifestações clínicas incluem um amplo espectro de lesões, desde a leve aparição de comedões até à versão fulminante sistémica.

Por que aparece a acne?

As causas do aparecimento desta condição não foram ainda claramente esclarecidas, mas conhecemos muitos dos factores que a influenciam. Sabemos que há uma tendência familiar para o aparecimento da acne; o número, tamanho e a actividade das glândulas sebáceas são hereditários, mas a predisposição genética ainda está por determinar. Da mesma forma, a relação entre a acne e a dieta é controversa. O chocolate, as gorduras, o açúcar, a cafeína e o picante são alguns dos alimentos associados a surtos de acne, mas a verdade é que, de um modo geral, não há provas científicas desse vínculo. Aprender a identificar os alimentos ou situações que potenciam os surtos é essencial.

Como surge a acne?

A patogénese, ou os elementos que desencadeiam o surgimento da acne, abrange quatro factores:

  • A hiperplasia sebácea (aumento da produção de sebo em resposta a diversos estímulos androgénicos);
  • Hiperqueratinização (alterações no crescimento folicular e na sua maturação);
  • A presença e actividade de uma bactéria chamada Propionibacterium acnes no folículo pilossebáceo;
  • Resposta imune e inflamação associada.

A actividade glandular sebácea está sob controlo primário de hormonas androgénicas. O aumento do número de células que descamam no interior do folícolo piloso (hiperqueratose), em conjunto com o aumento de sebo, obstruem a saída do folículo, formando um comedão fechado (mais conhecido como ponto branco). Se o orifício for maior, a acumulação de queratina confere-lhe uma cor escura (vulgarmente conhecida como ponto negro ou espinha). A colonização do folículo pela bactéria Propionibacterium acnes e a sua acção originam uma reacção inflamatória, que eventualmente leva à formação de pápulas e pústulas (erupções cutâneas e borbulhas).

Como observamos a acne?

As lesões da acne são observadas principalmente na face e tronco superior, onde a densidade de glândulas sebáceas maduras é maior. Embora não haja evidência de inflamação nas lesões iniciais, morfologicamente, elas dividem-se em lesões não-inflamatórias e lesões inflamatórias.

Acne não-inflamatória: de acordo com a evolução natural da lesão, a obstrução do folículo provoca comedões fechados e abertos (pontos brancos e negros). Os comedões fechados são apenas clinicamente visíveis, sendo melhor detectados por apalpação, como pequenos nódulos elevados cerca de 1 mm, sem vermelhidão. Pelo contrário, os comedões abertos têm uma abertura folicular evidente, onde se observa a acumulação de queratina, que escurece através da acumulação de melanina e oxidação (pontos negros ou espinhas).

Acne inflamatória: é caracterizada por pápulas, pústulas e nódulos de gravidade variável. As pápulas são lesões elevadas (borbulhas) de um a cinco mm de diâmetro, de tom avermelhado. As pústulas tendem a ter tamanhos semelhantes, com conteúdo purulento. À medida que as lesões progridem em gravidade, formam-se nódulos inflamados, endurecidos e sensíveis. Podem observar-se ainda pseudoquistos, mais profundos e de conteúdo purulento e serosanguinolento.

Muitas vezes, as lesões apresentam vermelhidão e hiperpigmentação, as quais permanecem mesmo depois de sanadas e cicatrizadas, e demoram muito tempo a desaparecer, podendo até permanecer. Todas estas lesões podem coexistir na mesma pessoa no mesmo momento, em diferentes momentos da evolução, juntamente com a presença de cicatrizes de gravidade e idade diferentes.

Há também uma maneira de classificar a acne com base na gravidade da expressão clínica. Esta classificação tem em conta o número e tipo de lesões, dividindo-as em leves, moderadas e graves. Para além disso, existem variantes menos comuns de acne, como o subtipo de acne pós-adolescente, que é mais frequente em mulheres com mais de 25 anos e está relacionada com níveis elevados de stress; a acne fulminante, uma forma sistémica de início rápido com lesões nodulares e supurativas muito avermelhadas; ou a acne neonatal, que surge nas primeiras semanas de vida e frequentemente desaparece espontaneamente nos primeiros meses.

Como se lida com a acne?

A avaliação do adolescente com acne deve incluir tanto as lesões como os efeitos psicossociais que possa provocar, considerando a necessidade de um tratamento multidisciplinar quando necessário. O objectivo terapêutico é tratar o maior número de factores causadores, reduzindo a produção de sebo, prevenindo a formação de microcomedões, suprimindo o Propionibacterium acnes e reduzindo a inflamação para prevenir a cicatrização.

O primeiro passo na presença de acne é consultar um especialista, que ajudará a definir a rotina diária de cuidados a ter com a pele e indicará, se necessário, um tratamento médico. No entanto, existem algumas medidas que podem ajudar a prevenir ou a retardar os surtos, favorecendo a eficácia do tratamento indicado.

Há que ter em conta que a pele acneica é uma pele sensível e inflamada, e que a devemos tratar como tal. Nunca se deve manipular as lesões e todos os cuidados devem ser realizados com as mãos limpas. Na medida do possível, deve evitar- -se sempre os factores conhecidos que desencadeiam as erupções.

Nas medidas básicas de cuidado da pele acneica deve estar incluída uma rotina de higiene e cuidados diários. Um mito comum e errado é que a aparição da acne está associada a uma higiene má ou incorrecta. O fundamento da limpeza facial é eliminar a maquilhagem, as impurezas e o excesso de gordura da pele. O uso de produtos demasiado abrasivos ou com demasiada frequência pode alterar o equilíbrio da pele, modificando o pH e favorecendo a colonização de bactérias, o que agrava a situação. Recomenda-se a limpeza do rosto e zonas afectadas duas vezes por dia com produtos formulados especificamente para este tipo de pele, suaves e com um pH equilibrado adequado. Os tónicos faciais fazem muitas vezes parte de kits de limpeza para o cuidado da pele acneica, mas não devem ser usados em excesso, para não irritar a pele.

Após a limpeza, o ideal é realizar a hidratação com produtos não-comedogénicos. Durante o dia, a hidratação deve ser leve e com protecção solar, é importante que não obstrua os folículos e que não contenha gorduras. À noite, podemos usar produtos mais densos, especialmente em zonas irritadas.

Ainda que se creia que o sol tende a melhorar a pele acneica, a exposição prolongada pode provocar a hiperpigmentação de cicatrizes. Para além disso, alguns tratamentos médicos podem ser fotossensibilizantes, pelo que se deve ter o máximo cuidado.

Outro erro frequente é julgar que a maquilhagem agrava a condição. O essencial, neste caso, é encontrar a maquilhagem correcta. Na verdade, a maquilhagem não-comedogénica e não oleosa pode até ser benéfica para melhorar a qualidade de vida, melhorando a auto-estima, no caso das adolescentes. Lembre-se sempre da importância de ensinar a remover suavemente a maquilhagem ao final do dia.

Seguir hábitos saudáveis melhora qualquer condição. Embora haja controvérsias sobre alguns alimentos e sua relação com a acne, não há qualquer associação científica directa. Uma dieta equilibrada, com uma boa hidratação e rotinas de sono correctas melhoram o estado geral e favorecem a saúde da pele.

Há vários produtos disponíveis em venda livre para cuidados com a pele acneica. Não existe um tratamento ideal aplicável a todos os casos. O melhor é consultar um especialista, que ajudará a escolher os produtos adequados para cada caso e avaliará a necessidade de tratamentos tópicos ou sistémicos específicos.

Caso o dermatologista receite uma medicação tópica, é importante seguir certos passos para que a aplicação seja eficaz:

  • Aplicar todos os produtos sobre a pele limpa e seca.
  • Aplicar sobre toda a área de pele afectada e não apenas sobre as lesões.
  • Ocasionalmente, combinar um ou mais produtos para que o tratamento seja eficaz.
  • Seguir as indicações do especialista, não deixando de usar a medicação, mesmo que as lesões tenham desaparecido.

É importante saber que o tratamento correcto e eficaz da acne requer tempo, não existem soluções mágicas. A consistência é essencial!

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº5 de Setembro de 2018.