Lisa Joanes | Homeopata e Terapeuta de Desenvolvimento Pessoal

Neste último século temos vivido baseados na ideia de que sem medicamentos químicos não haveria “saúde”, nem uma grande esperança média de vida, pelo que as nossas crianças têm sido “bombardeadas” com antibióticos, anti-histamínicos, anti-inflamatórios e outros tantos medicamentos “anti”, muitas das vezes desnecessariamente.

Se espreitarmos os livros de história, verificamos que mesmo nos tempos da Grécia Antiga o homem vivia com saúde até aos 80 anos e sem qualquer destes remédios convencionais. A verdade é que o nosso corpo está preparado para viver com saúde, principalmente quando a palavra de ordem, e que tanto se fala hoje em dia, é a da prevenção. Porém, “prevenir” não é sinónimo de “aliviar sintomas” através do uso recorrente de medicamentos químicos (que em nada previnem nem estimulam as nossas próprias capacidades imunitárias). Prevenir significa antes redefinir caminhos mais saudáveis, escolhas mais naturais, que fortaleçam e equilibrem o nosso sistema imunitário e o dos nossos filhos.

Felizmente, diria que o panorama da saúde está a mudar, a melhorar, a ganhar uma nova consciência, e os pais de hoje também. São cada vez mais os que procuram a homeopatia, entre outras opções naturais e terapêuticas não convencionais, para dar resposta aos problemas de saúde dos seus filhos, respostas que não assentem num mero “alívio de sintomas”, mas que foquem a saúde no seu todo e fortaleçam as capacidades naturais do corpo. É neste sentido que a homeopatia é, sem dúvida, uma excelente opção. Ao estimular e fortalecer o sistema imunitário das crianças, esta terapêutica contribui para reduzir a frequência com que as crianças adoecem (reduzindo o uso de medicamentos químicos).

Mas o que é a homeopatia? Como é que ela funciona? Como é que ela pode ajudar numa abordagem à criança?

A homeopatia é um sistema de medicina com mais de 200 anos, descoberto pelo médico alemão, Samuel Hahnemann. Tem uma filosofia própria e olha para o ser humano como um todo, não apenas como um mero conjunto de partes, órgãos ou sistemas (nós também temos emoções, pensamentos, energia, e todas essas partes devem ser respeitadas quando se procura verdadeiramente trabalhar no sentido da cura). A homeopatia tem igualmente uma maneira distinta de recorrer à medicação, baseando-se no princípio de Similia Similibus Curentur (cura pelo semelhante), pelo que, em vez de usar substâncias que funcionem de modo “anti”, recorre a substâncias naturais que tenham a capacidade de produzir no corpo humano sintomas semelhantes aos que a pessoa experiencia em determinada complicação. Ou seja, induz sintomas artificiais (através do medicamento) semelhantes aos sintomas naturais (experienciados na doença em si) e, exactamente por isso, estimula a resposta imunitária do corpo, levando-o a agir e a readquirir os seus poderes inerentes de autocura. É um pouco como a ideia associada à vacinação, mas neste caso falamos de substâncias naturais, dadas numa dose infinitesimal.

Assim, qualquer remédio homeopático seleccionado de modo adequado e de acordo com o estado e sintomas da criança, consegue produzir resultados extraordinários, estimulando a imunidade dos nossos pequenos, reduzindo a intensidade dos sintomas e evitando recorrências. Deixem-me dar-vos um exemplo para ser mais fácil de perceber. Por exemplo, a planta Belladonna tem a capacidade de produzir no nosso corpo certos sintomas como face e corpo muito vermelhos, quente no geral, olhos vidrados, pupilas dilatadas, etc. Quando uma pessoa apresenta este quadro sintomatológico, seja numa febre ou noutro quadro inflamatório, o remédio Belladonna poderá ser o mais indicado pois, precisamente por produzir um estado e sintomas semelhantes, estimulará o nosso sistema imunológico a detectar e a reagir a esses sintomas. De igual modo, tantas outras substâncias (sejam plantas, minerais, animais, etc.) são convertidas em substâncias medicamentosas capazes de curar com excelentes resultados, através deste estímulo imunitário que produzem.

Pode a homeopatia ajudar em situações agudas?

A homeopatia pode ser (e é) usada em quadros agudos ou mesmo de SOS, com muita eficácia, como em casos de febres, amigdalites, otites, vómitos, diarreias, mesmo varicela, entre outros. Por exemplo, eu própria enquanto mãe vi otites, em dois dos meus filhos, serem solucionadas em minutos apenas com umas “bolinhas” de Belladonna, sendo que na manhã seguinte nem havia um rasto de dor. Enquanto homeopata, também assisti a febres de crianças, que acompanhei voluntariamente na Índia, melhoraram literalmente da noite para o dia, com uns simples grânulos homeopáticos e descanso.

Infelizmente, estes quadros de situações agudas ainda deixam muitos pais num excesso de preocupação ou ansiedade e, na verdade, são precisamente estes pais que acabam por “medicar” os seus próprios filhos. No entanto, note-se que estas falsas e aparentes “curas” momentâneas não só impedem que o sistema imunitário dos nossos filhos encontre um mecanismo próprio para se autodesenvolver de forma normal e natural, como contribuem para afectar outras partes dos seus organismos!

E em casos crónicos, de que forma pode a homeopatia ajudar a criança?

Eu diria que é precisamente nas doenças crónicas que a homeopatia revela ainda maior evidência, tanto em crianças como em adultos. É sabido que a medicina convencional não oferece cura para estas condições e que a criança acaba por ficar envolvida numa dependência medicamentosa, tendo de recorrer diária ou frequentemente a certa medicação para controlar ou aliviar os seus sintomas. Tal não só se torna pesado financeiramente como também fisicamente (enfraquecendo o seu jovem sistema imunitário e estabelecendo efeitos e complicações laterais no seu corpo pequenino). A homeopatia, no entanto, apresenta excelentes resultados clínicos em tantas doenças crónicas: alergias, bronquite asmática, asma, eczema, otites recorrentes, entre tantas outras. Deixem-me dar-vos o exemplo da Maria, uma criança com episódios recorrentes de otite, que recebi em consulta quando ela tinha seis anos. Ela já vinha com operação marcada, mas após breves meses de medicação homeopática, em que a Maria apenas apresentou um episódio de otite, a médica cancelou a intervenção.

Há que compreender que de nada resolve aliviar os sintomas com medicamentos químicos se, na verdade, o problema crónico permanece, e outros secundários tornam-se uma possibilidade. Além do mais, habituamos os nossos filhos a conviverem com estas medicações e sintomas como se fossem algo “normal”, mas não é, e pode ser corrigido. Olhemos por exemplo para a alergia, uma das doenças crónicas que mais afectam as crianças, muitas vezes desde os primeiros meses de vida. Várias são as doenças alérgicas, desde dermatites atópicas, eczemas, bronquite asmática, asma, alergia a certas substâncias ou alimentos, etc. O foco da medicação convencional tem andado no alívio dos sintomas, através do uso de anti-histamínicos, no entanto, o verdadeiro problema verifica-se no sistema imunitário da criança alérgica. Este sistema, após determinada desregulação, passou a ser hipersensível a determinadas substâncias (como o pó, o pólen, o leite, etc.) e, agora, em vez de responder de modo adequado a essas substâncias (chamadas de alérgenos), passa a reagir de um modo exacerbado e descontrolado, libertando um excesso de histamina e originando uma série de sintomas. Porém, estes alérgenos, apesar de despoletarem uma crise alérgica em alguns, são, na verdade, substâncias inofensivas para a maioria das pessoas, cujo sistema imunitário funciona correctamente. Na homeopatia, não só visamos cobrir o caso com um medicamento que possa atenuar os sintomas, mas, acima de tudo, o foco consiste em corrigir a causa que levou à desregulação deste sistema imunitário, reparando-o deste modo (muitas vezes a origem está associada a situações emocionais).

Homeopatia versus emoção e comportamento

Mas a homeopatia não é somente benéfica para complicações físicas, agudas ou crónicas, ou para evitar que a criança recorra constantemente a antibióticos ou fármacos químicos. Esta medicina é igualmente incrível no que toca a condições emocionais e de comportamento, ansiedade, medos, hiperactividade e depressões, ajudando a criança a ultrapassar as suas questões e a encontrar uma nova compreensão, atitude e energia dentro de si. A consulta é sempre profunda e tem a duração de cerca de uma hora e meia de modo a permitir uma boa anamnese, pois cada criança é única, diferente das outras, com a sua própria maneira de ser, de sentir, de experienciar a vida. Tem a sua própria natureza, as suas próprias sensações e percepções do mundo, tem os seus medos, necessidades, gostos, interesses, vontades, brincadeiras, sonhos, preferências, as suas peculiaridades, a sua energia. Tudo isto revela-se importante para compreender o seu mecanismo de reacção e comportamento. Por isso, este todo deve ser respeitado, seleccionando depois o medicamento que mais se assemelhe, aquele que é o mais semelhante possível aos sintomas e sensações que a criança expressa. Além disso, quando a consulta em si oferece tal tempo e espaço, o paciente ganha a oportunidade de se conhecer melhor, de compreender o fundo das suas questões, de ganhar uma nova consciência, uma nova energia e atitude para passar a fazer algo diferente por si, que ainda não tinha sentido antes, não assim! Claro que há traços que ficam, que são da criança (e que se devem respeitar), mas há tantos outros que se alteraram. O mais bonito para mim é poder registar essas diferenças de comportamento e de postura face à vida: que a criança acalmou, que está mais capacitada para focar e que está a ir bem na escola, que está mais consciente, matura e se preocupa mais com a sua própria saúde e alimentação, etc. Tudo isto muitas vezes em questão de três a seis meses e sem recorrer uma única vez a qualquer medicamento convencional.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº3 de Março de 2018.