Joana Barros, Jornalista e autora do livro “Nhom Nhom”

Assim, de todas as coisas para bebés que há disponíveis no mercado, qual treino de Krav Maga para futuras mães e pais, é muito escassa a informação sobre alimentação.

Postas a salvo as excepções de mães e pais opinativos e praticantes de regimes alimentares restritivos ou de exclusividade, a alimentação infantil é um mistério para os flexitarianos (o pessoal que come comida normal, tipo, todo o género de comida, crua, cozinhada, de raiz paleolítica ou futurista).

Quando é que o bebé deixa o aleitamento materno? Será que precisa de suplemento? Quanto é que ele bebe se a maminha não tem tracinhos com mililitros? São assim as questões mais comuns nos primeiros meses de vida, facilmente solucionadas com a ajuda do pediatra que segue os bebés. Mas, e quando começam as sopas? E as frutas? E as carnes? E os peixes?

Calma! Não precisa de entrar em pânico, é simples.

O “Nhom Nhom” surgiu muito naturalmente na minha cronologia de eventos: depois da primeira filha, o convívio com outras mães e amigas e amigas mães levou-me à conclusão de que a alimentação, tão importante para o crescimento magnífico dos nossos filhos, era uma dor de cabeça. Muito simplesmente porque, de alguma forma, as nossas vidas moderníssimas nos foram afastando cada vez mais das cozinhas em prol do “comer qualquer coisa” quando se sai do trabalho e antes de chegar a casa. O epíteto do afastamento de toda uma geração das cozinhas será ilustrado na série “Sexo e a Cidade”, pela personagem interpretada por Sarah Jessica Parker, a famosa Carrie Bradshaw, que utiliza o forno para guardar camisolas.

No meu caso, como gosto de cozinhar e sempre cozinhei, mesmo em adolescente, e que até tenho um banco de jardim na cozinha, onde o meu marido e os meus filhos se sentam enquanto preparo o que, às vezes, nem chega à mesa, cozinhar as primeiras sopas e papas não foi um terror. E só me fui apercebendo destas dificuldades alheias e só constatei que o “Nhom Nhom” seria um exercício de partilha pertinente com outras mães e pais, quando as minhas amigas começaram a perguntar o que é que fazia para a Mercedes comer, pelo WhatsApp, a partir aí das seis da tarde. Como eram as sopas, quanto tempo cozinhavam, se era preciso lavar os legumes todos, como se dava borrego a uma criança?

Nessa altura lembro-me de pensar “quando é que nos afastámos da cozinha e do comer?” e acho que o afastamento se deu quando saímos de casa dos pais e a gestão da comida é finalmente um assunto independente e sem regras, cujo papel é pouco importante no decorrer da vida de uma pessoa que acabou de sair de casa dos pais. Há um momento em que os jantares são mais importantes pela bebida à descrição, incluída no preço do menu, que se não é bitoque é carne assada, geralmente de má qualidade, porque por nove euros não há milagres. Depois, quando se começa a ganhar dinheiro, até se vai a uns restaurantes. Depois, quando se é parte de um relacionamento amoroso, não há nada melhor do que partilhar uma refeição onde podemos estar e ser só uma bolha, sem que nada nos incomode, em que seja possível viver a perfeição de uma comida que se escolhe e chega sem esforço. Depois quando os filhos nascem e a casa passa a ser o centro de operações, os tachos e as panelas, que as mães e as avós fizeram questão de nos oferecer, passam a fazer parte de um projecto de utilização. Só que a experiência do ponto de vista do utilizador não é, muitas vezes, intuitiva. Sem domínio de técnicas, com conhecimentos básicos, em jeito de remédio instantâneo, às vezes catastrófico. E só quando comecei a receber WhatsApps de amigas em desespero é que pensei que tudo o que escrevi antes desta frase condiciona a nossa forma de estar numa cozinha. E assim surgiu o “Nhom Nhom”.

Comer, o acto em si, é uma das muitas relações de confiança que estabelecemos com os nossos filhos, enquanto cuidadores. Fazer a comida que os nossos filhos comem é apenas mais uma das muitas formas de alimentar e fortalecer essa relação de confiança. Uma alimentação variada, rica em sabores e valores nutricionais e texturas, cores, experiências e formas, por exemplo, é apenas uma das mil formas de partilhar com os nossos filhos uma herança gastronómica que se torna imaterial, enquanto se funde com o nosso corpo. Comer é partilhar uma experiência em conjunto, é reforçar os laços da nossa comunidade.

As minhas regras

As minhas regras na concepção da comida, que alimenta a Mercedes e que agora começa a alimentar o Álvaro, são simples:

Provar sempre. Se eu não gosto, é normal que a criança também não queira comer, porque não gosta. Nunca mais me esqueço de uma criança que cuspia reiteradamente a pescada com milho. “Alguma vez provaste? Não, que horror! Peixe com milho?!” My point, exactly!…

Cozinhar utilizando os mesmos ingredientes e técnicas que utilizamos no dia-a-dia, para as nossas receitas, como se estivéssemos a fazer comida para toda a família. Há muita gente que suprime ingredientes porque acha que os bebés não vão gostar. É verdade, os bebés podem não gostar, mas se nunca provarem não vão saber. Como os adultos. É um bocado por tentativa e erro. A Mercedes até à data gosta de tudo. O Álvaro não gosta de papas de pacote.

Tirar o tempo necessário para cozinhar. Cozinhar não é difícil, nem é uma ciência impossível de dominar; é antes uma ferramenta óptima para operar todos os dias e torná-los magníficos. Há coisas que em meia hora ficam deliciosas e outras que precisam do carinho de quatro horas. Saber editar os menus é meio caminho andado para o sucesso.

Brilhar é simples. Verdade. Brilhar é muito simples. Todos temos medo dos açúcares e dos corantes, das comidas processadas e de todos esses bichos dos pacotes. Queremos os nossos filhos longe dessa malta o mais possível. A criança quer um gelado? Faça-o em casa e ofereça-o sem que a criança esteja à espera. Um puré de fruta numa forma com um pauzinho é um gelado. Uma banana esmigalhada com aveia, que vai ao forno, é uma bolacha. Alterar lógicas para criar momentos espectaculares é muito simples.

As horas extraordinárias. Os dias são muito curtos, o trabalho ocupa-nos mais de metade, as viagens de carro, as actividades. Eu sei. Há dias que são um catéter para a energia. Em vez de me esparramar no sofá, e enquanto arrumo a cozinha, a partir dos restos de hoje, faço o upcycling do que iremos comer no dia seguinte. Acordo mais cedo, faço as compras do supermercado online, penso no que iremos comer nessa semana. Planeio. É uma questão de treino. Chega-se lá muito rapidamente.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº2 de Novembro de 2017.