Paulo Oom, Pediatra

Há seguramente muitas formas correctas de educar, tal como existem, sem dúvida, muitas formas erradas de o fazer.

Todos sabemos, pela nossa experiência e pelos relatos que ouvimos de familiares e amigos, que, perante uma mesma situação, muitos pais actuam de forma diferente. Algumas dessas formas estarão correctas, levam a criança a comportar-se bem e serão apenas isso: diferentes. Mas outras ninguém tem dúvidas que estarão incorrectas e em nada irão contribuir para a disciplina da criança. Pelo contrário, mesmo que possam resultar a curto prazo, terminando algum comportamento inadequado, irão no futuro aumentar na criança o seu desejo de vingança, promover lutas de poder com os pais, diminuir a sua auto- estima e impedi-la de se tornar uma criança preparada para as adversidades da vida.

Mesmo que pudéssemos reunir um grupo de especialistas, pediatras e psicólogos, dificilmente todos estariam de acordo sobre a melhor forma de exercer a disciplina sobre as crianças. Não tenho dúvidas de que não é um tema consensual. Mas, felizmente, acredito que muitos princípios são aceites como desejáveis.

Não há uma estratégia única e infalível. Há seguramente algumas regras básicas que a experiência nos mostra serem as mais correctas e eficazes mas, como cada adulto é único e cada criança diferente de todas as outras, qualquer regra deve ser adaptada à situação concreta que vivemos. Como? Com bom senso.

Cada um educa o melhor que sabe e pode, e não há que fazer comparações com outros pais ou outras crianças. A educação competitiva, que corresponde ao desejo dos nossos filhos serem melhores que os do vizinho, ou os colegas da escola, apenas consegue ser um factor de stress para a criança e para os pais.

A disciplina

Durante anos a disciplina foi encarada como uma forma de punição. A ideia subjacente a esta teoria é a de que a criança necessitava de sofrer (de “sentir na pele”) a autoridade dos pais pois, caso contrário, nunca iria aprender a comportar-se devidamente.

No entanto, a palavra “disciplina” deriva de “discípulo” e significa ensinar ou guiar. Nada tem a ver com punir, controlar ou humilhar. Desta forma, a disciplina, como a entendo, deverá concentrar-se fundamentalmente em ensinar à criança os comportamentos adequados e menos em punir os comportamentos indesejados ou incorrectos.

A forma como educamos os nossos filhos reflecte a nossa forma de ser e de estar no mundo e requer, para além de conhecimento, maturidade, experiência e confiança nas nossas capacidades e nas potencialidades de cada criança.

Será possível uma disciplina sem qualquer tipo de punição? Não acredito. Se é verdade que a criança aprende melhor pela positiva, também o é que o castigo faz parte do processo de aprendizagem. Mas apenas isso: faz parte. Para uma correcta disciplina são necessários 90% de prevenção e 10% de punição.

Exercer a autoridade não deve ser sinónimo de domínio, superioridade, força ou prepotência para com os nossos filhos. Pelo contrário, deve ser essencialmente um exercício de influência positiva sobre eles.

A disciplina não se ensina numa conversa “séria” com a criança. Nem num dia “especial”, como quando faz anos ou é Natal. Não é sequer uma tarefa de semanas ou meses. É de anos. É de uma vida. Não é uma corrida de cem metros, mas uma maratona. E é para isso que todos nós devemos estar preparados.

A persistência é um dos factores mais importantes para conseguirmos atingir os nossos objectivos. O processo de aprendizagem é feito de pequenos avanços e recuos, mas o mais importante é que, globalmente, os avanços sejam maiores do que os recuos, para que a direcção seja sempre a mesma, apesar das contrariedades que sempre surgem. Há por isso que não desanimar nem desistir, após as primeiras contrariedades. Cada um deve confiar nas suas capacidades e não se preocupar demasiado com pequenas imperfeições que, de resto, todos possuímos.

Sucessos e (algumas) frustrações

O que nos espera é assim um processo contínuo e demorado, cheio de sucessos e algumas frustrações, mas que a nossa persistência levará a bom porto. Apesar das dificuldades que possam surgir, o resultado final vai sempre valer a pena.

O grande trabalho da disciplina consiste na prevenção. Todos podemos conseguir maravilhas dos nossos filhos se lhes conseguirmos proporcionar um ambiente familiar carinhoso, agradável, respeitador, coerente e consistente. Se a tudo isto soubermos juntar algumas formas básicas de estimular a criança a desenvolver comportamentos adequados, mais de 90% do nosso trabalho disciplinador estará realizado. Os restantes 10% serão utilizados ajudando a criança a perceber, quando as suas atitudes ou acções não foram correctas, que na vida tudo o que fazemos tem consequências, sejam boas ou más.

A disciplina exige assim um equilíbrio entre o ensino e o castigo, com um predomínio do primeiro e doses pontuais do segundo. Terminar um comportamento inadequado é geralmente mais fácil do que estimular comportamentos adequados, mas é também o que tem um efeito mais passageiro. É quando a criança aceita e toma como seus os limites e as regras dos seus pais que a parte mais difícil da disciplina está realizada.

Não há crianças perfeitas, tal como não há pais ou mães perfeitos. Esta percepção é fundamental quando lidamos com os nossos filhos. Conhecer o temperamento daquela criança, o seu grau de desenvolvimento e a sua maturidade são aspectos fundamentais a ter em conta. A fasquia não pode estar demasiado alta, pois apenas vai conseguir provocar frustração na criança e dissabores aos pais. Mas não deve estar demasiado baixa, pois uma criança sem estímulos e sem objectivos não vai conseguir estar preparada correctamente para a vida.

Conhecermos as nossas próprias limitações é também um aspecto importante. É fundamental sabermos quais os nossos pontos fortes e fracos, os aspectos com os quais sabemos lidar melhor ou pior e quais os momentos em que podemos ou devemos evitar actuar. Muita paciência, repetição e coerência fazem parte deste processo.

Muitos vão encontrar neste texto conselhos que vão contra o que habitualmente fazem ou indicações que chocam com a forma como têm procurado educar os seus filhos. Aquilo que lhes peço é que analisem o que possa estar errado, o corrijam e o façam correctamente a partir de agora. Uma coisa é certa: quanto mais velha a criança, mais difícil vai ser mudar o que está mal, e, por isso, o melhor é começar já.

A nossa finalidade não deve ser o de termos a viver connosco uma criança permanentemente feliz. Isso é irrealista. Todas as crianças passam por frustrações. O nosso papel é ensiná-las a lidar com essas frustrações, não a evitá-las. Vou mesmo mais longe: faz parte do papel de ser pai ou mãe frustrar os seus filhos de vez em quando. Porque eles não podem ter tudo o querem, ou comportar-se sempre da forma que desejam. Não tem qualquer mal estabelecer limites, muito pelo contrário: as crianças precisam de limites e sentem-se seguras com eles.

O verdadeiro objectivo, como veremos mais adiante, não é uma criança obediente, mas uma criança capaz de estabelecer os seus próprios limites e as suas próprias regras, uma criança emocionalmente estável, possuidora dos valores fundamentais que lhe queremos transmitir. Em última análise, uma criança capaz de vir a educar os seus próprios filhos e de ser um adulto feliz, integrado na sua família e na comunidade.

Um mundo de dúvidas

É cada vez maior o número de casais que me procuram com dúvidas sobre a melhor forma de educar os seus filhos. Os meus pais educaram nove filhos com bom senso, disponibilidade e o conselho ocasional de algum familiar, mas hoje parece que isso não é possível. O bom senso parece ter ido para lugar incerto e a disponibilidade dos pais para educar não é muita. Cada vez mais os pais chegam tarde e a más horas a casa, trabalham ao fim-de-semana ou por turnos e pretendem, naqueles poucos minutos que estão com os seus filhos, operar verdadeiros milagres de educação infantil. Mas super-heróis só existem no cinema ou no Carnaval. Educar exige tempo. E tempo de qualidade. Não dá para resumir ou condensar. Não resulta um curso intensivo do género “senta-te aqui ao pé de mim que eu vou dizer-te como te deves comportar”. Educar significa ensinar e transmitir valores e isto só se consegue pela palavra calma e o exemplo contínuo do dia-a-dia. Não existem fórmulas mágicas ou truques milagrosos que transformem instantaneamente qualquer pestinha num anjo celestial.

Para além destes aspectos existe, ao mesmo tempo, ou talvez por isso mesmo, uma enorme sobrevalorização das supostas “necessidades” da criança. Para muitos pais o lema é “não traumatizar”! Como se a educação de uma criança pudesse ser feita sem proibições, sem regras ou sem restrições, do tipo “eu sou o teu melhor amigo e por isso tu vais fazer o que eu te digo, certo”? Errado. A criança precisa de regras e de limites, da mesma forma que necessita de valores e de objectivos. Muitos pais e mães têm enorme dificuldade em estabelecer esses limites ou em definir algumas regras, “para não traumatizar a criança”, dizem. Mas a disciplina, se aplicada de forma correcta, não representa uma ameaça à personalidade da criança. Pelo contrário, ajuda-a a crescer e a conhecer-se a si mesma. Lembro- -me de tanta coisa que eu quis fazer em pequeno e os meus pais não me deixaram (andar de bicicleta na estrada, por entre os automóveis, era um desafio de perícia essencial, fazer alguma batota para ganhar ao Monopólio uma tentação irresistível…). Não me parece ter ficado grande trauma por não o ter podido fazer e ensino também o mesmo aos meus filhos.

Existe hoje grande insegurança na educação infantil. Muitos pais e mães têm medo que a criança deixe de gostar deles em resultado dos limites que estes lhe impõem (e, no caso de pais separados, esse medo chega a tornar-se pânico…). Mas as crianças gostam dos seus pais por muitas coisas que nada têm a ver com os limites e as regras. Gostam de pais que os amam, que se divertem com eles, que sabem ouvir, que sabem falar, que sabem actuar, que são coerentes.

O maior obstáculo a uma disciplina eficaz não são as crianças, com o seu temperamento difícil ou os seus caprichos, nem os amigos ou familiares, nem mesmo as avós. O maior obstáculo são geralmente os pais, principalmente quando são inseguros, possuem um estilo educativo inadequado, estabelecem limites pouco precisos e exageram nas mensagens negativas que transmitem aos seus filhos.

É um erro o que muitos casais pensam, que a escola se vai encarregar de educar os seus filhos. A escola vai ajudar, mas os pais são os modelos privilegiados dos seus filhos e ninguém como eles pode ter tanta influência no desenvolvimento da personalidade da criança. Há que perder o medo. Até lá continuarei a conversar com muitos casais para lhes explicar que, nos últimos 40 anos, não foram as crianças que mudaram, mas a mentalidade daqueles que em tempos também foram crianças e hoje se viram transformados em pais.

A coerência

A coerência é outro aspecto fundamental. Podemos considerá-la como o “cimento” que une todas as nossas acções e torna a disciplina entendida e mais facilmente aceite pela criança. As únicas pessoas que acham que é fácil educar uma criança são as que não têm nenhuma. Ninguém nasce ensinado. Os pais sabem muito bem que nenhuma criança é naturalmente bem comportada. Faz parte do seu processo de aprendizagem o estar sempre a testar os limites, a desafiar as regras, a perceber onde termina a sua liberdade e começa a autoridade dos pais. É desta forma que as crianças descobrem o mundo, percebem até onde pode ir a sua liberdade e criam valores que as vão acompanhar durante toda a vida.

Mas se isto é verdade para a criança também o é para os pais. Antes de ser pai ou mãe nenhum de nós soube verdadeiramente o que era educar outra pessoa. Ninguém tem o conhecimento inato de como disciplinar uma criança. Podemos conhecer alguma teoria, e textos como este ajudam, mas essa teoria terá de passar no exame da prática, sem o qual de nada serve. Pais e mães cedo se apercebem que aquele ser inofensivo, que geraram e que querem criar, necessita de ser amado, mas que isso não chega para que venha, um dia, a ser uma criança, um adolescente e um adulto feliz. Aquele mesmo ser necessita de limites, de regras, de incentivos, inclusive de algumas punições, para compreender o verdadeiro significado do que é ser um homem ou mulher completo e estar melhor preparado para o que a vida lhe poderá reservar.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº2 de Novembro de 2017.