António Sacavém, Partner, formador e coach na António Sacavém Communication Academy

Para começar, é importante que os nossos filhos percebam que o “não” e o “sim” são duas faces da mesma moeda e que o “sim” nem sempre é a melhor opção.

Neste aspecto, uma das coisas mais importantes que partilhei com os meus filhos foi o “efeito marshmallow”. Este efeito ensina-nos que é a gratificação adiada, que envolve a capacidade de saber esperar por aquilo que se deseja, que nos aproxima do sucesso. Nos estudos de gratificação adiada, conduzidos nos anos 70 pelo psicólogo Walter Mischel, da Universidade de Standford, era oferecida à criança a possibilidade de ter uma pequena recompensa no momento, uma goma por exemplo, ou a possibilidade de receber uma recompensa melhor, por exemplo duas gomas, se estivesse disposta a esperar algum tempo, por exemplo 15 minutos. Sinteticamente, os investigadores concluíram que adiar a gratificação, ou seja, dizer “não agora”, para dizer “sim a algo maior amanhã”, pode ter um grande impacto no sucesso ao longo da vida e no bem-estar geral.

Vivemos numa sociedade que apela, insistentemente, à gratificação imediata. Quero o gelado, agora. Quero o tablet, agora. Quero a nova playStation agora. Neste contexto, é crucial os pais apoiarem, progressivamente, os seus filhos, na construção do nível de confiança e maturidade que lhes permita desenvolver, de forma equilibrada, a competência de dizerem “não” ao acessório e à necessidade de quererem ter tudo “para já”.

O não faz parte

Na vida, as grandes conquistas implicam trabalho árduo, espírito de sacrifício, resiliência, humildade e saber esperar pelo que se deseja. O “não” faz parte do processo. É claro que o sucesso também envolve entusiasmo, criatividade e optimismo, daí ser tão importante os nossos filhos conhecerem o valor do “não” e do “sim”. Outro exemplo que dou frequentemente aos meus filhos é o jogo das escondidas. Que gozo poderá advir de estarmos de olhos tapados a contar até 20 e, quando por fim olhamos em redor, preparando-nos para começar a procurar os nossos amigos, nenhum deles se escondeu, estão todos à nossa frente? O jogo torna-se desinteressante e aborrecido. Na segunda ou terceira vez que isso aconteça, deixamos de querer jogar. No jogo da vida, esta dinâmica também existe. Quando queremos tudo para agora e nos é dado de mão beijada, evitando assim o esforço, a aprendizagem daí decorrente e a imprevisibilidade da conquista, as coisas deixam de ter interesse. Investigação relativa à “Geração Z”, as pessoas nascidas a partir de 1995, e que começam agora a integrar o mercado de trabalho, aponta para níveis de ansiedade elevados. A felicidade, ou bem- -estar subjectivo, também se encontra a decrescer em comparação com gerações anteriores. A possibilidade de os jovens terem tudo “para agora”, numa sociedade que estimula o consumo imediato, pode estar a contribuir para este efeito, pois existe uma associação cada vez menor entre esforço e conquista. Daí ser tão importante que os pais estimulem os filhos a associar recompensa a esforço, a perseverança, a curiosidade por descobrir coisas novas, a aprendizagem e, claro está, incentivá-los a interagirem face a face e a divertirem-se pelo caminho.

Conquista implica luta

É relevante explicarmos aos nossos filhos que dá mais gozo conquistarmos algo quando lutámos por isso. Mais, é importante partilharmos com eles que a felicidade duradoura está, sobretudo, relacionada com o caminho, com a forma como encaramos os desafios com que somos confrontados e como nos transformamos para melhor. A conquista do objectivo é, frequentemente, uma consequência natural de um processo conduzido de forma consciente e eficaz. É importante, por isso, dizermos que “não” com competência aos nossos filhos. quando esta é a melhor opção, acompanhando-o dos bons motivos que lhe estão associados. Desta forma, ao longo da vida, eles estarão mais aptos a encarar o “não” como um estímulo à melhoria e não tanto como um motivo gerador de frustração. Isto não significa que tudo tem que ser um sacrifício e que o “não” se deve tornar uma palavra de ordem. Sobretudo, o “não” e o “sim” devem ser exercidos com equilíbrio, bom senso e no momento adequado.

Por outro lado, é importante os pais terem consciência de que esta palavra pequenina, que tem apenas três letras, pode assumir várias faces. Refiro-me, concretamente, aos três tipos de “não” de que falo no meu livro: o “assertivo”, o “negativo” e o “positivo”.

O “não-assertivo” cria limites claros e evita grandes explicações. Para além disso, é eficaz a lidar com a manipulação logo desde o início. O “não-negativo” afasta-nos dos nossos sonhos e dos desafios que nos podem tornar melhores pessoas, ou então, na sua forma acusatória, confunde a pessoa com o seu comportamento. Por fim, o “não-positivo” convida-nos a focarmo-nos naquilo que é mais importante para nós, enquanto mantemos uma boa relação com os outros. O nosso exemplo enquanto pais, a forma como recebemos e utilizamos os diferentes tipos de “não” na interacção com os outros vai, naturalmente, influenciar os nossos filhos.

A força do não

No meu livro, conto a história do André (nome fictício), um adolescente de 14 anos, que explica bem como um jovem pode utilizar eficazmente o “não-positivo” e o “não-assertivo”. O André é um rapaz activo, pratica desporto desde muito jovem e, sempre que pode, foge para a praia para fazer surf. É um bom aluno, tem tido sucesso escolar, os pais estão divorciados, mas conta com uma boa relação com ambos. O André participa regularmente em acções de solidariedade, de cariz ambiental, e quer entrar na universidade em arquitectura, pois acredita num tipo de construção que venha a estar ainda mais integrada, de modo harmonioso, com a natureza. A certa altura, o André foi convidado pela primeira vez, como muitos jovens, a consumir uma droga ilegal. A competência com que o André lidou com uma situação desafiante e que poderia, em pouco tempo, ter mudado a sua vida para pior, foi surpreendente: no momento em que foi questionado pelo colega, respondeu o seguinte: “Obrigado, companheiro, mas a minha droga é o mar. Quando estou a surfar, sinto-me unido ao que me rodeia. Sei o que quero. Vou desenhar edifícios que vão custar duas vezes menos e onde as pessoas se vão sentir unidas àquilo que as rodeia, e também umas às outras. Compreendo que queres oferecer-me uma coisa que te faz sentir bem e, ao mesmo tempo, partilhar o risco. Eu já escolhi a vida, companheiro. Quando quiseres experimentar a minha droga, que só tem efeitos secundários do melhor, sei que não te vais arrepender.”

Vamos rever o processo do “não-positivo” através da resposta do André:

  • Foco no que é realmente importante para si, ao serviço de um bem maior (acolhimento e partilha): “Obrigado, companheiro, mas a minha droga é o mar. Quando estou a surfar, sinto-me unido ao que me rodeia. Sei o que quero. Vou desenhar edifícios que vão custar duas vezes menos e onde as pessoas se vão sentir unidas àquilo que as rodeia, e também umas às outras.”
  • Respeito pela realidade emocional e as necessidades do outro (compreensão expressa): “Compreendo que queres oferecer-me uma coisa que te faz sentir bem e, ao mesmo tempo, partilhar o risco.”
  • Proactividade na procura de uma solução habilitadora (desfecho empático): “Eu já escolhi a vida, companheiro. Quando quiseres experimentar a minha droga, que só tem efeitos secundários do melhor, sei que não te vais arrepender.”

É clara a presença das três etapas do “não-positivo” na resposta que o André deu ao seu colega, e que pôs fim à interacção entre ambos. O “não-positivo”, contudo, não deve ser encarado como uma fórmula predeterminada para o sucesso de uma interacção. É, isso sim, um processo que deve ser aplicado de forma flexível, consciente, observando o contexto e a pessoa com quem estamos a interagir.

Imaginemos, porém, que o interlocutor do André continuava a insistir. Nesse caso o “não-assertivo”, que clarifica a nossa posição sem que tenhamos forçosamente de explicar os motivos que justificam um determinado comportamento da nossa parte, poderia ser utilizado. Aliás, poderia ter sido usado desde o início, dadas as características da interacção e, em especial, se foi abordado com um discurso manipulador.

Imagine que o colega do André lhe tinha dito o seguinte: André, és um tipo muito especial, sei que, por vezes, te sentes incompreendido e tu mereces o melhor (o que está a ser dito nas entrelinhas: até agora não tens tido o tratamento que mereces por parte daqueles que te amam, mas eu sou diferente). Tenho aqui uma coisa brutal para te sentires sempre no topo (o que está a ser dito nas entrelinhas: existe uma solução milagrosa que vai curar o teu mal-estar para sempre e sou eu que ta vai conceder). Experimenta, só uma vez, pois quero saber a tua opinião (o que está a ser dito nas entrelinhas: basta que experimentes uma vez, pois eu sei que o teu corpo vai querer experimentar provavelmente a segunda e muitas mais).

Esta abordagem está repleta de elementos manipuladores potencialmente perigosos para o André, se ele não tiver os recursos para responder à altura. Neste caso, o “não-assertivo»” pode ser a melhor escolha, dado que ajudaria o André a neutralizar a manipulação de que estaria a ser alvo. A forma como o André vai responder a esta questão é fundamental. Qualquer tentativa dele para explicar os motivos subjacentes à sua tomada de posição seriam uma oportunidade de ouro para o colega, através da manipulação, influenciar abusivamente o André a consumir. Consciente do processo, o André poderia responder, com assertividade, tendo em conta exclusivamente os factos: “André: Não existe qualquer razão ou motivo. Decidi, simplesmente, que não consumo droga.” O “não-assertivo»” é, por isso, um modo simples e eficaz de se lidar com a manipulação, quando esta se encontra numa fase inicial.

A prática consciente é a mãe da competência. Quanto mais exercitar o “não-positivo” e o “não-assertivo” com os seus filhos, mais confiantes eles se sentirão. Por fim, vale a pena recordar, o “não-competente” de hoje pode ser o caminho para um “sim-maior” amanhã.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº5 de Setembro de 2018.