Uma das imagens mais comuns hoje em dia, quando se frequenta um restaurante, é ver as crianças literalmente agarradas a um ecrã de telemóvel ou tablet. O objectivo é que fiquem quietas, comam sem reclamar e não façam barulho. Mas será isto saudável? Para conseguirmos responder a esta e outras dúvidas relacionadas com a relação entre telemóveis e crianças, falámos com Maria Laureano, pedopsiquiatra da Unidade Psiquiátrica Privada de Coimbra.

De acordo com um estudo apresentado no Encontro Anual das Sociedades Académicas Pediátricas em San Diego, Estados Unidos, e desenvolvido no Centro Médico Einstein, um terço dos bebés com menos de um ano já utiliza dispositivos electrónicos. Que consequências tem este facto no desenvolvimento destas crianças?

Muitas e nefastas, do ponto de vista neurocerebral. O primeiro ano de vida é um período de conhecimento do mundo, onde o nosso cérebro vai aprender representações do mundo objectal e relacionais. O nosso cérebro é um cérebro social, isto é, aprende e é mais eficaz quando em relação social com outro. Pelas sensações, expressões faciais, conforto físico, comunicação não-verbal e pelo início das vocalizações (as chamadas “conversinhas” que os bebés têm com os pais), o bebé desenvolve-se, torna-se mais competente e desenvolve as suas capacidades sociais e afectivas. No primeiro ano de vida, os bebés dormem muito, faz parte desse processo de maturação. Então, se lhes retirarmos tempo de vigília para utilizar dispositivos tecnológicos digitais, estamos a diminuir o verdadeiro tempo de utilidade no crescimento e desenvolvimento de um bebé, para além de estarmos a dar estímulos para os quais o cérebro ainda não está plenamente desenvolvido para receber, intoxicando o cérebro com estímulos desadequados. Os danos serão mais visíveis no primeiro ano, sobretudo na dificuldade do bebé em acalmar-se, ser facilmente irritável, ter pouco interesse em estabelecer ciclos de comunicação com o outro e dificuldades no sono.

Qual a idade ideal para dar o primeiro telemóvel a uma criança?

Não existe uma recomendação oficial para a idade a partir da qual um menor possa ter ou ser responsável por um telemóvel. O meu parecer clínico é que, durante a infância, não existe nenhum benefício, mas sim muitos riscos. Desta forma, a questão só se deve colocar a partir da adolescência. O que não é o mesmo que dizer que a partir da adolescência todos os jovens o devem ou podem ter. Essa decisão é dos pais, mas deve ser fundamentada por alguns referenciais, nomeadamente o nível de maturidade do jovem, a sua capacidade de cumprir as regras de casa e da escola, assim como o seu sentido de responsabilidade.

Não estão os miúdos a interagir demasiado cedo com smartphones?

Eu penso que sim. Vejo isso diariamente no consultório ou em espaços sociais. É frequente crianças com meses serem acalmadas com um smartphone ou tablet, com recurso a vídeos de animação e música. Alguns pais chegam mesmo a dizer “eu não sei como ele/ /ela faz, mas já consegue colocar os vídeos que quer ver”, referindo-se a crianças de colo que ainda não sabem ler, nem escrever. A verdade é que estes dispositivos tecnológicos digitais são cada vez mais desenhados para um acesso fácil e rápido. Quanto mais cedo é o primeiro contacto, mais facilmente uma criança entende como utilizá-lo, embora não entenda a dimensão da realidade virtual.

Não poderão existir riscos associados à oferta de um telemóvel ou de um tablet, demasiado cedo?

A realidade virtual nos primeiros anos de vida e durante a infância não é entendida na sua total complexidade. Esta é vista, pela criança, como uma fonte de prazer imediato. No fundo, é uma “chupeta emocional” e, embora sejam realmente eficazes em manter as crianças calmas, não devem ser utilizados para esse fim. O desejável são crianças que interajam com o ambiente e estabeleçam relação com o outro. Todas as crianças ficam irrequietas, agitadas, choram e fazem birras, em determinado momento. É natural e desejável, pois ainda estão a aprender a interagir com o mundo e temos de lhes dar tempo e oportunidade para essa aprendizagem. As crianças precisam de ser ensinadas a identificar e a lidar com emoções fortes, aprender a controlar o tédio, acalmarem-se através da respiração, falar sobre resolução de problemas e encontrar outras estratégias para gerir emoções.

Se tivesse de elencar os principais riscos, diria que são imaturidade emocional (dificuldade na leitura de estados emocionais e na gestão dos mesmos sem recurso a objectos externos ao próprio), atraso no desenvolvimento da linguagem e comportamento agressivo (crianças que não se conseguem expressar ficam mais facilmente frustradas, recorrendo mais ao corpo e ao agir para comunicar).

Por que motivos devo dar um telemóvel a uma criança?

Não conheço motivos que legitimem dar um telemóvel a uma criança (e aqui estou a excluir os adolescentes). Embora identifique que existem dois grandes motivos para que os pais o façam e tenho dificuldade em saber qual tem mais peso. Eles são a dificuldade que os pais sentem em gerir a persistência dos mais novos, perante o desejo incessante em conseguir algo, e, em segundo lugar, a utilização do telemóvel por parte dos pais como uma extensão do controlo parental, para poderem aceder sempre que desejam aos filhos (mesmo que não seja necessário). Este segundo ponto nem sempre é abordado e é de extrema importância falar dele. “O telemóvel ajuda-me a saber onde ele/ela está” ou “Para quando está com outra pessoa poder sempre falar comigo” são argumentos veiculados pelos pais. Ora durante o crescimento e no processo de socialização, as crianças progressivamente vão tendo espaços sociais em que se movimentam, para além do da família nuclear. É importante que a descoberta de como se relacionar com os outros e com os desafios que se colocam possa ser gerida de forma autónoma. Até porque as crianças (relembro que estou a excluir os adolescentes) nos espaços que frequentam fora de casa estão a cargo de um adulto de referência que é responsável pela criança (seja em contexto escola, ateliers de tempos livres, actividades desportivas). No caso de estarem com outros elementos da família alargada, nessas alturas o familiar em questão deve ser quem estabelece as regras e os limites, bem como quem gere as dificuldades que potencialmente existam. Durante o crescimento de uma criança, o seu processo de individualização e autonomização é um marco importante, para que na transição para a adolescência estejamos perante jovens seguros, autónomos, que interiorizaram os limites e são capazes de tomar decisões saudáveis.

Como podem os pais regular a utilização que a criança vai fazer do telemóvel?

Assumo que se refira aos adolescentes, pois volto a sublinhar que não existe nenhum benefício em uma criança ter um telemóvel. Então, junto dos adolescentes existem algumas formas práticas que devem ser assumidas como condição para a permissão da utilização do telemóvel, nomeadamente a não existência de códigos que impeçam a figura parental de aceder ao dispositivo e que a mesma poderá sempre que desejar verificar todos os registos de chamadas, mensagens e utilização de aplicações. Além disto, deve ser discutido com o jovem um sistema de regras claras sobre a sua utilização. Definir com o jovem os espaços em que é possível utilizar, a duração de tempo que deve ser despendido diariamente, regras de segurança de dados (nomes, moradas, contactos, rotinas, imagens pessoais/selfies/imagens que identifiquem locais frequentados pelos jovens) e limites na comunicação social através das redes sociais ou aplicações (respeito pelo outro e por si próprio; evitar comunicação ofensiva, comummente referida como cyberbullying; idealmente não comunicar com jovens que não conhecem ou que pelo menos não sejam conhecidos por outros amigos que conhecem pessoalmente, nem com adultos desconhecidos).

O primeiro telemóvel deve ter acesso à internet?

Quando se equaciona o primeiro telemóvel este deve ser pensado pelos pais e não por elementos que não as figuras parentais, como tios, padrinhos, avós ou irmãos mais velhos, e devem ter-se em mente algumas caraterísticas na escolha do telemóvel. Em particular, a possibilidade de aceder à internet.

Como é que poderemos controlar as suas comunicações?

Como se controla quando o jovem vai, por exemplo, com os amigos ao cinema. Não podemos saber todos os tópicos de conversa, mas sabemos que filme foram ver, com quem foram, quando foram e quando regressaram. Mais importante, ainda, como regressaram.

No controlo das comunicações digitais devemos saber que plataformas utilizam, com quem falam (devendo sempre ser pessoas que conheçam ou de quem tenham referências do mundo social não digital) e observar o comportamento dos jovens quando terminam as comunicações (se estão tranquilos, agitados, apreensivos – tudo isto são sinais importantes a aferir). Depois existem alguns truques práticos, no caso dos telemóveis, como optar por um serviço pré-pago, permitindo o controlo dos gastos a priori; no caso de jovens mais imaturos, optar por um modelo que não seja um smartphone (o vulgarmente conhecido como “telemóvel de teclas básico”); ou mesmo quando se pondera um smartphone, existem dispositivos e/ou aplicações que permitem definir restrições de conteúdo e de privacidade, onde é possível restringir o tempo de ecrã no dispositivo, com recurso a um código para desbloquear o ecrã quando esse tempo é atingido; impedir compras em algumas aplicações, restringir a utilização de aplicações ou funcionalidades integradas; impedir a reprodução de música/vídeos com conteúdos explícitos que podem ser configurados pelos pais.

De que forma se pode garantir que a criança não utiliza o telemóvel durante as aulas?

A única forma absoluta de o garantir é não permitir que o leve para a escola. Caso contrário, a não utilização do telemóvel durante as aulas vai ficar na exclusiva dependência da decisão do jovem em escolher cumprir as regras da escola. Um jovem é capaz de respeitar limites e regras sociais quando consegue conter-se, e colocar o princípio do dever acima do princípio do prazer. Jovens que têm dificuldade marcada em ceder à satisfação imediata dos desejos, são jovens que terão maior dificuldade, em contexto de sala de aula, em respeitar a não utilização dos telemóveis.

Devem os pais permitir que a criança tenha o telemóvel no quarto durante a noite?

A resposta é um simples não. Embora os mais novos sejam hábeis em dar motivos que justifiquem a permanência do telemóvel no quarto à noite, não existe nenhum motivo funcional para isso. Na prática clínica, assisto muitas vezes a jovens que tentam negociar este ponto com os pais, utilizando para isso motivos como: “é o meu despertador”, “preciso dele para adormecer”, “oiço música antes de dormir”, entre outros. Aproveito para relembrar que, ao aproximar-se a hora de deitar, se deve interromper a utilização de dispositivos tecnológicos digitais 30 a 60 minutos antes de deitar, de forma a diminuir a activação cerebral que os mesmos provocam e que é o contrário do que desejamos nessa altura do dia.

O que fazer quando há uma birra dos mais pequenos que desejam mexer no telemóvel para ver vídeos ou jogar jogos?

As birras devem ser todas geridas de igual forma, independentemente do desencadeante. Por norma, as birras surgem quando a criança não consegue lidar com uma frustração que lhe provoca uma desregulação emocional e que não consegue gerir. É função dos pais ajudar a criança a regular-se, utilizando para isso técnicas de relaxamento, junto da criança, mas mantendo uma postura consistente e firme em relação ao interdito que provocou a birra. É importante lembrar que nesses momentos também os pais não devem fazer “birras”. Isto é, devem regular-se eles próprios de forma a estarem calmos e tranquilos ao lidar com a birra do filho, uma vez que, por diversos motivos, os pais também podem estar eles mesmos menos tolerantes e cansados.

Serão as crianças maduras o suficiente para usar as ferramentas de texto e imagem com responsabilidade, e não para fins como envergonhar ou incomodar outras pessoas?

No caso de crianças pequenas, a minha resposta é um claro não. Não conseguem ter um entendimento pleno das implicações e proporções que essas ferramentas podem ter no mundo digital. Até podem saber referir os riscos potenciais e quais as regras de conduta, mas não os têm interiorizados, havendo dificuldade em projectar as consequências de determinados comportamentos, como, por exemplo, a vitimização, através de ferramentas digitais. Além de ser mais difícil empatizar com a pessoa que está a ser vitimizada, uma vez que não está à minha frente e tenho de recorrer a estruturas do pensamento abstracto para conseguir elaborar essa identificação. Só por volta dos 11-12 anos é que os jovens começam a ter um pensamento abstracto realmente funcional. No caso dos adolescentes, dependendo do seu nível de maturação psicoafectiva e cognitiva, estes por norma serão mais capazes de manejar estas ferramentas e ter percepção do impacto que determinados comportamentos digitais podem ter no outro. Mas, tal como no mundo social não digital, é função dos pais aferirem os códigos de conduta dos filhos (por exemplo, se são respeitadores do outro, se cumprem as normas sociais, entre outros comportamentos), também o comportamento social digital deve ser monitorizado pelos pais. Não deve ser tolerado nenhum comportamento de vitimização digital, nem do próprio nem de terceiros, por parte dos pais, uma vez que os danos podem ser tão grandes ou até superiores em indivíduos vulneráveis quando comparados à vitimização social não digital.

Nas crianças obesas, qual a relação com o uso do telemóvel?

A infância e a adolescência são as fases do desenvolvimento em que se estruturam e adquirem hábitos de vida saudáveis. Os hábitos que promovam o sedentarismo e reduzam a actividade física nesta idade têm consequências no imediato e a longo prazo, uma vez que serão factores de risco para a obesidade infantil e na idade adulta, bem como para as doenças que estão intimamente ligadas à obesidade. Por outro lado, é também reconhecido que a qualidade do sono interfere com o metabolismo e é um factor de risco para a obesidade. Como os dispositivos tecnológicos digitais muitas vezes comprometem a qualidade do sono, quando não é garantida uma boa higiene do mesmo, podem por esta via também ter impacto negativo sobre o peso dos mais novos.

Problemas de depressão e ansiedade podem ser um efeito do tempo que as crianças passam em frente aos dispositivos electrónicos?

Há dois aspectos a ter em conta, por um lado, a utilização como forma de atenuar/ /anestesiar o sofrimento psicológico, alienando a atenção do promotor de ansiedade; e, por outro, os sintomas depressivos e/ou ansiosos como resultado de utilização exagerada e desregrada dos dispositivos tecnológicos digitais.

Em relação ao primeiro, os smartphones têm assumido uma função de “controlador de ansiedade”, bem, na verdade, de falso controlador de ansiedade. É comum observarmos que as pessoas, independentemente da idade, recorrem ao ecrã táctil em momentos que interpretam de desconforto ou constrangimento social, como quando são os primeiros a chegar a um encontro, se estão num local com outras pessoas que não conhecem (como, por exemplo, uma sala de espera ou uma paragem de autocarro), entre outros.

Em relação ao segundo, várias investigações clínicas têm encontrado associação entre sintomatologia ansiosa e depressiva em jovens, com uso desregrado dos dispositivos tecnológicos digitais. Estes jovens tendem a ser caracterizados como tendo menores competências sociais e maiores dificuldades a interagir com o outro. Na clínica, o que observo, muitas vezes, é que há jovens que recorrem à realidade digital, quando a realidade social não digital é ansiogénica ou promotora de sintomas depressivos. Por outro lado, encontro também jovens que começaram a apresentar sintomas ansiosos e/ou depressivos após a utilização exagerada e desregrada dos dispositivos tecnológicos digitais. Convém, contudo, relembrar que cada indivíduo é um indivíduo e generalizações simplistas devem ser evitadas.

Como devem os pais supervisionar e limitar o tempo passado com o telemóvel?

Sempre que damos permissão aos dispositivos tecnológicos digitais no nosso núcleo familiar em momentos que são de família e onde o foco deve ser a relação entre as pessoas, na troca de pensamentos e afectos, estamos a reduzir o número de oportunidades que os mais novos têm para treinar e aprender connosco a complexidade das relações humanas, dos sentimentos e dos afectos que as ligam. Não têm de ser expulsos de casa os dispositivos tecnológicos digitais, têm só de ter o seu espaço e tempo definido em cada família.

É importante os pais darem o exemplo?

É fundamental. Os nossos filhos aprendem sobretudo com o que nos vêem fazer, mais do que com o que lhes dizemos para fazer. Assim, se as crianças e jovens nos virem a respeitar contextos, irão interiorizar esse comportamento como o mais adequado e facilmente o reproduzem.

Também aqui a confiança e a comunicação são factores-chave?

Em todas as relações que estabelecemos com o outro, a comunicação e a confiança são premissas essenciais para as relações sociais saudáveis. Estas premissas devem ser treinadas desde muito cedo e o contexto onde, por excelência, devem ser trabalhadas é junto do seio da família nuclear. Desde cedo, a comunicação deve ser clara e explícita, de forma a que a criança entenda o que é esperado de si, e quais as consequências positivas e negativas de determinadas atitudes e comportamentos. Em relação à confiança, esta deve ser trabalhada de forma progressiva, atribuindo-se à criança ou jovem tarefas e responsabilidades que permitam ao ser em crescimento sentir-se confiante em si mesmo e observar, espelhado no pai/mãe, a confiança que depositam nele. Convém não esquecer que uma criança não é um adulto, é um ser em construção. Como tal, as tarefas ou comportamentos que esperamos delas devem ser ajustados ao seu desenvolvimento. Caso contrário, podemos estar a solicitar-lhe comportamentos para os quais ainda não exista maturidade psicoafectiva, cognitiva ou comportamental suficiente. Assim, confiar que o filho irá cumprir algo para o qual ele não tem capacidade é, à partida, colocá-lo numa posição vulnerável, onde, provavelmente, a confiança irá sair defraudada, mas por responsabilidade do adulto.

Texto da autoria de Sandra M. Pinto publicada na edição impressa da Kids Marketeer nº9.