Maria Raul Lobo Xavier, Professora auxiliar da Faculdade de Educação e Psicologia da Católica no Porto; Investigadora no Centro de Investigação para o Desenvolvimento Humano (CEDH)

A adolescência corresponde a um período de intenso crescimento. Marcado por mudanças profundas, é sentido como um período de confusão, difícil, não só para os próprios adolescentes, mas também para as suas famílias.

Os adolescentes são bruscos, mas, muitas vezes, atenciosos e idealistas, adoram passar o dia no sofá, mas, muitas vezes, estão cheios de energia, parecem viver “na lua”, mas revelam um profundo interesse em perceber o que é justo e correcto. Assim, apesar das percepções negativas de alguns adultos sobre os adolescentes e embora este período possa ser de maiores dificuldades entre pais e filhos, os anos da adolescência também são um tempo para ajudar as nossas crianças a tornarem-se indivíduos únicos e autónomos, capazes de enfrentar os desafios da vida futura.

Bem, quanto ao início e o final da adolescência – não há dias marcados… Todas as situações são diferentes: em alguns casos começa mais cedo, noutros mais tarde, em alguns adolescentes as mudanças são mais rápidas e notórias, para outros o processo é mais lento… Por outras palavras: há um amplo leque do que é considerado normal. Um dos domínios das mudanças que estão a ocorrer tem a ver com o corpo. Referimo-nos à puberdade como o conjunto de alterações que transformam o corpo infantil num corpo adulto, integrando o que é designado por surto de crescimento pubertário e a maturação sexual. Embora comum a ambos os sexos, apresenta características diferentes em cada um, que merecem a devida atenção, nomeadamente na vigilância de saúde.

Normalmente apontamos o início da puberdade como marca da entrada na adolescência, mas se considerarmos que até há pouco tempo descrevíamos o seu final associado ao atingir da independência económica, já vemos como isto dos limites é difícil… Porque é um período de tempo marcado por tantas variações individuais e socioculturais, compreende- -se como se torna ingrata a tarefa de estabelecer idades limite.

Como pensam eles

Outro domínio do desenvolvimento tem a ver com o funcionamento cognitivo – a forma como os adolescentes pensam. Quanto a este aspecto, as alterações vividas na adolescência podem ser até mais dramáticas que as mudanças óbvias no domínio físico. O pensador concreto, das coisas brancas ou pretas, interessado nas regras, quase de um dia para a noite transforma-se em alguém com um pensamento abstracto, capaz de descobrir muitas das tonalidades do cinzento. O adolescente passa a utilizar um tipo de pensamento lógico, analisando causas e efeitos, considerando situações hipotéticas e recorrendo a metáforas. Este nível superior de raciocínio permitirá pensar sobre o futuro, analisar diferentes alternativas e estabelecer objectivos pessoais. Estas novidades permitem ao adolescente um tipo de introspecção e de tomada de decisão que não se identifica nas crianças mais novas.

Mudança constante

Tudo isto não aparece de um dia para o outro. Vai-se desenvolvendo. Alguns estudos sobre desenvolvimento do cérebro na adolescência mostram que, enquanto os adultos conseguem utilizar processos racionais quando têm que lidar com decisões emocionais, os adolescentes não estão logo suficientemente equipados para funcionar da mesma maneira. Nestas situações, os seus cérebros têm um tipo de actividade diferente, com os processos envolvendo outras áreas cerebrais que, por exemplo, dão maior predomínio às emoções.

Muitas crianças anunciam o início da adolescência com uma mudança dramática nas relações com a família, nomeadamente com os pais. Estão a começar uma “separação” quanto aos pais, tornando-se mais independentes. Ao mesmo tempo, estão também cada vez mais conscientes do que os outros, em especial os seus pares, os observam e analisam e são especialmente sensíveis em relação a isto. A integração nos grupos vira primordial. Muitas vezes parece que os colegas e amigos se tornaram muito mais importantes que os pais, nas horas em que têm que tomar decisões. É o tempo de algumas “experiências” com diferentes aparências, gostos musicais, etc., o que pode resultar em episódios de conflito com os pais e algum sofrimento.

Mas atenção: se um dos estereótipos mais comuns sobre a adolescência é o adolescente rebelde, selvagem e sempre em desacordo com os pais, há que ter em conta que isto não ocorre em todos os casos. Embora possa acontecer em certas situações e existir turbulência emocional, este estereótipo dramático não é representativo da maioria dos adolescentes.

Um mundo de mudanças

Claro que há mudanças que estão a suceder. Elas terão alguma repercussão na forma como as coisas funcionam lá em casa. À medida que o adolescente amadurece, que começa a pensar de maneira mais abstracta e racional, o seu próprio código moral está também a consolidar- -se. Os pais podem agora descobrir que os seus filhos, que até aqui estavam dispostos a se conformarem e que procuravam agradar-lhes, de repente começam a afirmar-se, defendendo fortemente as suas opiniões e reclamando contra o controlo dos pais. Também a nova possibilidade de pensar criticamente encoraja-os a encontrar discrepâncias, contradições no que (principalmente) os adultos dizem e fazem. A argumentação em que se tornaram exímios permite explorar tudo isto. Ficam mesmo fascinados com as suas novas competências. Para os adolescentes, o exercer das novas capacidades é emocionante e eles precisam de oportunidades para experimentar essas novidades. Que melhor contexto, mais protegido e seguro, que a família?

Adolescência e seus objectivos

O principal objectivo da adolescência é, provavelmente, a construção da identidade. Há três aspectos importantes envolvidos: as escolhas vocacionais que implicam decisões sobre percurso escolar e futura profissão, a adopção de crenças e valores próprios e o desenvolvimento de uma identidade sexual satisfatória. A construção da identidade está relacionada com o desenvolvimento da confiança em si próprio e a independência – características que os pais com certeza querem para os seus filhos, para que estes consigam enfrentar os desafios de vida que surgirão daqui para a frente. Ora, para fazer isso, os adolescentes começam a afastar-se dos seus pais. Mas isto não deve ser visto como um corte dos laços que tinham até aí. É como se fosse necessário fazer algumas alterações ao que eram as vivências no contexto familiar para poder haver espaço/ tempo/motivação para fazer uma manobra de alargamento, criando relações significativas (nomeadamente com colegas/ amigos) fora da família e em direcção ao mundo. Este é o caminho da construção da independência/autonomia.

Os pais continuam a ter uma influência decisiva na vida dos adolescentes, mesmo que, muitas vezes, sintam que esta desapareceu. Não se esqueçam que há muitas formas de influenciar as escolhas que os filhos fazem: os pais são modelos de actuação dando o exemplo, partilhando conhecimentos e experiências, inspirando e motivando, não desistindo face às dificuldades – seja intencionalmente ou não. Somos modelos positivos, mas também podemos ser modelos negativos.

Adolescência não é simplesmente independência. É uma revolução. E é nos momentos revolucionários que se podem construir as grandes oportunidades, ou não… Por isso, queridos pais, respirem fundo e nunca desistam!

Dicas para os pais

Converse com o seu filho

Habituem-se a conversar desde cedo (é um hábito familiar que deve ser estimulado desde que os filhos são pequenos) e frequentemente – sobre os mais diversos assuntos. Construir este hábito implica tempo, persistência, compreensão e actualização quanto aos temas que interessam aos adolescentes. É verdade que, por vezes, os temas não deixam os adultos à vontade, pelo que prepare-se e responda às dúvidas e questões, pensando sempre em respostas adequadas para a idade.

Uma criança mais pequena não integrará uma sobrecarga de informação ou um adolescente poderá precisar de dados mais estruturados e de informação mais rica. Por exemplo, pode ser útil recorrer a um livro organizado para responder às dúvidas das crianças na transição para a adolescência e uma ida ao pediatra pode ser um bom pretexto para se explorar o tema das mudanças corporais (ainda por cima com a colaboração de um especialista!).

Quanto mais cedo abrir canais de comunicação (sim! Isto é uma tarefa importante para os pais!!), maior será a oportunidade de manter esses canais durante a adolescência. Compartilhe memórias da sua própria adolescência, assumindo as necessárias diferenças. Os anos da adolescência são um tempo de experimentação e, algumas vezes, isso inclui comportamentos de risco. Não ignore temas como drogas ou sexo. Conversar abertamente sobre temas “difíceis” com as crianças, antes que estas sejam expostas a essas situações, torna mais provável que estas actuem com mais responsabilidade quando chegar o momento de tomar decisões e fazer escolhas. Partilhe com os filhos os seus valores familiares, explicando no que acredita que é correcto ou errado e porquê.

Conheça os amigos dos seus filhos

Envolva-se nas actividades em que participam, seja porque os vai levar a um treino ou permitindo que organizem um lanche de grupo lá em casa. Os momentos de contacto que estas situações possibilitam trazem um conjunto de informações importantes para a relação pais-filhos. Conheça também os pais dos amigos dos seus filhos. A comunicação regular entre pais pode ser um importante contributo, ao criar um ambiente seguro para todos os adolescentes de um grupo de pares. Os contactos entre pais provavelmente abrirão caminho para uma teia de interajuda no acompanhamento das actividades dos filhos, permitindo a monitorização, sem que os adolescentes se sintam policiados. Esteja a par do que os seus filhos vêem na TV e como utilizam a internet. Claro que cada família tem as suas próprias regras sobre isto… Este aspecto tem a ver com a privacidade e o estabelecimento de regras – dois elementos tão importantes na adolescência.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº6 de Dezembro de 2018.