Por Renato Paiva | Formador, consultor pedagógico e director da Clínica da Educação e da Academia de Alto Rendimento Escolar WOWSTUDY

A alegria de ser mãe ou pai é deveras preenchedora de um espaço que se desconhece existir até ao momento em que temos os nossos filhos nos braços

Sensações de conforto que nos fazem transbordar de uma alegria que se vê a léguas. O encanto de ter um filho só conhece quem tem um, ou vários! Ser mãe vai além das metáforas poéticas, é um prazer divino. É ser paciente, amar, educar, corrigir, disciplinar e, acima de tudo, estar disposta a sofrer, a suportar, doar sem pedir nada, procurar apenas o bem-estar e a segurança de um prolongamento de si, o filho.

Todo este encanto e alegria incorpora também um permanente estado de vigília e alerta. Preocupações parentais existem desde o momento que se sabe que a parentalidade é uma realidade e que existe um bebé a caminho. Cuidados com a gestação, ecografias de controlo para saber se está tudo bem, se o desenvolvimento é normal, se está num bom percentil, se nasce com os dedos das mãos e dos pés todos, se chora logo, se mama bem, se o intestino funciona bem, etc. É uma lista que não acaba e que será, certamente, similar na descrição da maior parte dos pais e das mães.

Será que é inteligente?

Certamente que nessa lista encontraríamos a preocupação em ter um(a) filho(a) que seja inteligente. Saber que tem “boa cabeça” para a escola é um porto seguro que tranquiliza. Mas importa perceber que ser inteligente é mais vasto do que se imagina. De facto, importa perceber que há mais do que uma inteligência e que as inteligências podem ser melhoradas e desenvolvidas, assim como as capacidades de atenção, de concentração, de raciocínio, de memória, de empatia, de resiliência e de gratidão, as quais podem fazer de nós pessoas mais eficientes no trabalho, nas amizades e na sociedade, interferindo num sentimento maior de felicidade.

Cada criança possui uma personalidade e uma mistura de talentos única, não encontrada em mais lado nenhum. Algumas são intelectualmente capazes, outras são abençoadas emocionalmente, enquanto muitas nascem com uma criatividade artística incrível e outras com um dom natural para a música ou grandes habilidades físicas. Cada criança possui a sua própria colecção e combinação exclusiva de inteligências e capacidades. Importa perceber que limitar as mais desenvolvidas para estimular as mais fracas não é um caminho que promova bem-estar.

Estimular não é competir

A ideia de olhar para a estimulação das diferentes inteligências dos seus filhos não é para promover nenhuma competição. Nas actividades e brincadeiras não se pretende haver vencedores nem vencidos, não há quem ganha nem quem perde. Há, sim, quem aprende e se diverte. A diversão e a cooperação devem andar de braço dado com a aprendizagem. Ao estarmos divertidos libertamos hormonas que nos dão uma sensação de bem-estar, mas que também fortalecem a aprendizagem e a memória. Brincar para aprender. Enquanto brincamos, mudamos de registo e de frequência. Nós, os objectos e os lugares deixam de ser o que normalmente são e passam a ser outra coisa. A intensidade do momento, a experiência de estar a viver o presente, fazem-nos perder a noção do tempo, deixam-nos em pleno prazer, curiosidade, liberdade e alegria. E isso traz-nos saúde.

Para brincar não precisa ir ao melhor parque infantil, ao melhor centro de actividades para crianças da cidade, ou ter os jogos mais recentes e modernos em casa. Podemos, e devemos, brincar sempre que possível na rua, nas praças da cidade, nos pátios com os vizinhos, onde a vida das pessoas acontece, não em redomas para crianças ou lugares artificiais despidos de significado. As crianças devem poder brincar na terra, descalçarem-se e trazerem os sapatos e os bolsos carregados de areia para casa, ou de pedras que encontraram no passeio. Sim, isso vai sujar a casa, sim, o tapete poderá ficar uma lástima, mas nesses dias não o deixe chegar ao tapete e leve-o de imediato para dentro da banheira!

É expectável existirem brincadeiras onde o seu filho tenha mais facilidade e outras onde sinta maiores dificuldades. Algumas serão mais difíceis e outras mais fáceis. Deveremos sempre “puxar” pelas áreas mais fracas através das mais fortes! Umas não limitam as outras, mas antes puxam por elas. Por isso, é importante que as actividades sejam diversificadas, para que as diferentes inteligências interajam, se entreajudem e se desenvolvam.

Mas o que é a inteligência?

Howard Gardner, professor de Psicologia do Desenvolvimento da Universidade de Harvard, foi convidado a integrar uma equipa de investigação de Harvard, que se dedicou a estudar o potencial hu-mano. Opondo-se à tradicional teoria do QI (Quociente de Inteligência) de Alfred Binet, e partindo do princípio que esta era uma forma muito limitada de conceber a inteligência, que se baseava apenas no raciocínio lógico, Gardner propõe, no seu livro “Frames of Mind” (Estruturas da Mente), em 1983, uma visão que veio transformar profundamente o conceito de inteligência.

De acordo com a sua teoria das Inteligências Múltiplas, cada um de nós possui uma vasta gama de potencialidades que podem ser agrupadas em sete inteligências. São elas: a Inteligência Linguística, a Inteligência Lógico-Matemática, a Inteligência Visuo-Espacial, a Inteligência Corporal-Cinestésica, a Inteligência Musical, a Inteligência Intrapessoal e a Inteligência  Interpessoal. Uma oitava inteligência foi mais tarde acrescentada ao leque inicial: a Inteligência Naturalista. Mantém-se em aberto a possibilidade de integrar ainda a Inteligência Existencial e mais recentemente investiga-se sobre a possibilidade da Inteligência Pedagógica.

Na actualidade parece que a inteligência e a rapidez de execução de tarefas parecem andar de braço dado. A velocidade do processamento cognitivo é algo muito valorizado socialmente e os alunos, para terem sucesso, parecem necessitar de ser rápidos: ter um bom ritmo a escrever, a ler o maior número possível de palavras por minuto, a fazer cálculos mentais, a passar rápido os trabalhos do quadro, a entregar o teste… Martim Seligman refere que existe uma relação surpreendentemente forte entre o QI e o tempo de resposta, mas o modo automático com que conseguimos realizar as tarefas, apesar de importante, está longe de ser tudo. A velocidade confere apenas um período de tempo extra para podermos fazer as partes não automáticas das tarefas. Para além disso, a investigação refere que a vontade de ser rápido está também de braço dado com a ansiedade, e isso traz-nos sérios custos adicionais, ao nível do desempenho individual, das relações sociais e da saúde. A leitura rápida de um texto permite-nos apanhar as ideias principais, as informações genéricas mas não o sentido do texto. Escapa-nos a profundidade da reflexão. O planeamento, a tomada de decisão e criatividade são processos lentos, que implicam tempo para paragens, retrocessos, reavaliações e melhoramentos. Os detalhes são importantes, fazem diferença e só podem ser apreendidos com tempo, com a atenção necessária, com a concentração na tarefa. A impulsividade puxa-nos para a frente, faz-nos encurtar caminho, criar atalhos. Já a calma traz-nos ao momento presente, à reflexão, à introspecção. Nós e as nossas crianças precisamos aprender a abrandar o ritmo, a desenvolver a competência da paciência, que parece estar fora de moda.

Não se cresce a correr

Rubem Alves, no seu livro “Pedagogia dos Caracóis”, afirma: «A vida é vagarosa. Os processos vitais são vagarosos. Quando a vida se apressa, é porque algo não vai bem. Adrenalina no sangue, o coração disparado em fibrilação, diarreia.» Precisamos de aprender a investir tempo em boas conversas com os nossos filhos. Não se cresce a correr, não se aprende de forma apressada, mas sim dedicada. Os processos que se constroem de forma rápida são geralmente fugazes, com tendência a não perdurarem no tempo. O que perdura, por norma, necessitou de tempo, a história assim o diz. Uma peça artística, um poema, uma obra literária, ficampara a eternidade, resistem e necessitaram de tempo. Com tempo, sem pressa para atingir o que quer que seja. Apenas o convívio, a interacção, a boa disposição e a diversão devem ser imediatos e abundantes. Referiram-me um comentário de uma mãe que tinha proferido uma frase muito curiosa, «não sou mãe de corrida, não tenho filhos de corrida».

Parar para crescer

Somos uma geração de pais difícil, sim. Com preocupação e dedicação a carreiras profissionais absorventes. A maioria pais de um filho só: aquela pedra preciosa que demorou, para muitos, bastante tempo a vir. Mas somos também pais que dedicamos muito do nosso tempo de folga a actividades com os nossos filhos. Somos uma geração de pais que se informa mais do que nunca, que lê artigos e compra revistas e livros de educação e parentalidade. Somos pais que procuram ajuda, que estão atentos e envolvidos. Pais que desejam muito para os seus filhos. E que esperam muito deles. Às vezes esperam de mais, anseiam, e também aceleram de mais. Com o excesso de actividades de estimulação muito intelectual, a alfabetização precoce, a competição desenfreada, privamos as crianças de condições essenciais ao crescimento saudável. Sem querer, restinguem-se as relações sociais, cimenta-se o empobrecimento da imaginação, promove-se a ansiedade e até mesmo o stress infantil. Por isso, é necessário ter cautela com o excesso de actividades.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº4 de Junho de 2018.