A diabetes tipo 1 é uma das doenças crónicas com maior prevalência em idade pediátrica. A nível mundial, cerca de 80.000 crianças e jovens são anualmente diagnosticadas com diabetes e, em Portugal, em 2015, existiam cerca de 3.365 crianças e jovens com diabetes tipo 1.

A diabetes é uma doença metabólica que se caracteriza pela elevação da glicose (açúcar) no sangue (glicemia), por deficiência na produção e/ou na ação da insulina. A insulina é uma hormona que regula a glicemia, permitindo a entrada de glicose para as células e o seu uso como fonte de energia. Quando a quantidade ou ação da insulina é insuficiente a glicemia fica elevada (hiperglicemia). A diabetes tipo 1 é uma doença autoimune, em que o sistema imunológico do próprio ataca as células do pâncreas que produzem insulina e, por isso, existe défice de insulina. Neste tipo de diabetes, o tratamento implica insulina.

A diabetes tipo 1 não deve ser confundida com a tipo 2, em que o organismo se torna resistente à ação de insulina, ou seja, a ação da insulina está comprometida. O excesso de peso ou obesidade, a alimentação desadequada, o sedentarismo e a história familiar de diabetes são alguns dos fatores de risco para a diabetes tipo 2. Neste tipo de diabetes, as mudanças no estilo de vida, a alimentação e o controlo do peso são essenciais e, na maior parte dos casos, o tratamento é feito com medicação oral.

A diabetes tipo 1 manifesta-se mais frequentemente em crianças, adolescentes e jovens adultos. Ocorre em indivíduos geneticamente suscetíveis e vários fatores ambientais têm sido implicados, mas a causa ainda não está totalmente esclarecida. Classicamente manifesta-se por urinar em grande quantidade e mais frequentemente (inclusive acordar durante a noite para urinar ou voltar a urinar na cama), sede intensa, aumento do apetite, perda de peso, falta de forças e vómitos. Também pode cursar com irritabilidade, diminuição do rendimento escolar, infeções recorrentes e, numa fase mais avançada, desidratação grave ou alterações da consciência. É importante que os pais e restantes cuidadores estejam alerta para estas manifestações, para que o diagnóstico seja o mais precoce possível. Se houver suspeita de diabetes, a glicemia deve ser avaliada, o que pode ser feito através de uma gota de sangue, habitualmente colhida nos dedos da mão.

O diagnóstico é confirmado se existir hiperglicemia e, neste caso, a criança deve ser observada num serviço de urgência, devendo o tratamento com insulina ser iniciado rapidamente. A insulina pode ser administrada através de múltiplas injeções subcutâneas diárias com canetas de insulina ou através de uma “bomba de insulina”, que é um sistema de perfusão contínua de insulina ao longo das 24 horas. A dose de insulina a administrar varia de acordo com a hora do dia, a glicemia, a alimentação e a atividade física. O controlo da diabetes tipo 1 exige alterações na rotina diária. No dia a dia é fundamental a monitorização da glicemia várias vezes por dia e a contagem dos hidratos de carbono ingeridos. Este tratamento intensivo exige empenho e rigor, mas é mais fisiológico e associa-se a melhor controlo metabólico e a menor risco de complicações a curto e a longo prazo.

Tal como para todas as crianças e jovens, recomenda-se um estilo de vida saudável, nomeadamente a nível da alimentação e da atividade física, a evicção do tabagismo e o controlo do peso, da tensão arterial e do perfil lipídico. As horas de ecrã devem ser limitadas, devendo ser cumpridas as recomendações para a população pediátrica em geral (menos de duas horas por dia em crianças com idade superior a 5 anos).
Para a família e restantes cuidadores de uma criança com diabetes é fundamental adquirir um conhecimento preciso da doença e de como a controlar. A motivação e o empenho durante o processo inicial de aprendizagem promovem e facilitam a adaptação a esta condição e a reintegração plena da criança na vida escolar, social e familiar. A educação terapêutica deve ser multidisciplinar (médico, enfermeiro, nutricionista, psicólogo) e abrangente, mas também gradual e adaptada às especificidades individuais. Este apoio deve capacitar a criança ou jovem e a família para gerir o tratamento e os diversos desafios do dia a dia, estimulando a autonomia de forma progressiva e tentando minimizar o impacto que a diabetes pode acarretar nos vários aspetos da vida.

A maioria das crianças e jovens passa muito tempo na escola, cerca de 30 a 35 horas por semana. Como tal, é fundamental que a escola tenha formação para assegurar a continuidade dos cuidados em ambiente escolar. A criança ou jovem com diabetes, a sua família, os profissionais de saúde e a escola devem trabalhar como uma equipa, com um objetivo comum, devendo a comunicação entre todos ser fácil e privilegiada. Um aluno com diabetes deve participar integralmente em todas as atividades escolares e extracurriculares, incluindo as aulas de educação física, passeios ou viagens de estudo.
A hiperglicemia crónica pode associar-se a complicações no olho, rim, nervos, vasos e coração. O rastreio regular destas complicações permite a deteção e tratamento precoces, retardando a sua progressão e melhorando a evolução.

O objetivo do tratamento é manter um bom controlo do perfil da glicemia, evitar as complicações a curto e a longo prazo e promover o bem-estar geral e a qualidade de vida. É também primordial manter o crescimento, o desenvolvimento e a puberdade normais e a ausência de repercussões significativas na vida familiar, escolar e profissional.
Atualmente, em Portugal, existem várias associações e grupos de pais que dinamizam projetos educativos e recreativos, que podem constituir oportunidades privilegiadas de convívio e de partilha de experiências e conhecimento entre pessoas com a mesma condição.

Em todo o mundo, a investigação sobre a diabetes reúne enormes esforços e os avanços tecnológicos dos últimos anos (bombas de insulina e monitorização contínua da glicose) têm permitido que o tratamento se tenha tornado mais fisiológico, enquanto se aguarda pelo próximo passo, o ‘pâncreas artificial’, ou mesmo a cura.

Por Raquel Coelho, pediatra da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP)