Margarida Lobo Antunes, Pediatra

Hoje em dia para a maioria das crianças o divórcio já não é novidade nenhuma. Os pais divorciados, madrastas/padrastos, novas casas e novos irmãos é actualmente um cenário familiar relativamente comum em Portugal.

O divórcio tornou-se tão banal que, não só já ninguém acredita no final feliz dos contos de fadas, nem consegue conceber uma família sem ser a versão alargada. É evidente que as relações podem não durar para sempre, mas o papel de pai ou mãe não tem um prazo de validade. Assim, quando uma relação acaba, os pais das crianças ficam unidos para sempre através dos seus filhos. Quando consideramos que o final de uma relação é muitas vezes um processo doloroso e difícil de ultrapassar, não podemos esquecer o real impacto que isto terá nas crianças. Um divórcio que envolva filhos é sempre mais complicado, mesmo quando todos se dão muito bem.

Estudos demonstraram que o divórcio tem um impacto sobre a vida das crianças, independentemente das idades e influenciará as suas relações futuras. Nas situações de divórcio, é frequente os pais procurarem ajuda junto dos pediatras, psicólogos e professores para encontrar as melhores soluções e com o objectivo de minimizar o impacto na vida das suas crianças. Alguns tópicos relevantes para abordar são as questões relacionadas com a saúde física e psíquica da criança, formas de gerir o conflito e a avaliação de potenciais riscos para a criança. Infelizmente o divórcio continua a ser um assunto quase “tabu” para algumas famílias, originando conceitos errados e pouco espaço para a verdade. Nunca podemos esquecer que o divórcio poderá ser muito mau para o casal, mas poderá ser ainda muito pior para as crianças que necessitam de honestidade e de pais bem informados. A necessidade dos pais desculpabilizarem- se ou justificarem algumas atitudes levou à criação de vários mitos do divórcio. Infelizmente os mitos que rodeiam o divórcio e as crianças são muitos e eventualmente prejudicais. O maior estudo pioneiro que investigou o divórcio e as crianças foi realizado por Joan Kelly e Judith Wallerstein, da Califórnia, nos Estados Unidos da América. Em 1980 Joan Kelly publicou um artigo sobre “Os sete mitos do divórcio e as crianças”. Infelizmente, passados quase cinquenta anos, esses mitos continuam a ser tidos como verdades por muita gente.

Alguns mitos do divórcio conjugal e as crianças

1) Pais divorciados são melhores para uma criança do que pais num casamento infeliz

À partida isto parece ser óbvio, pais divorciados e felizes vão ser melhores pais. No entanto, isto nem sempre é verdade. Muitas vezes acontece que um dos progenitores não pretendia terminar a relação e ficou devastado com a rotura. Um pai ou mãe triste terá um enorme impacto sobre uma criança. Alguns trabalhos demonstraram que as crianças, que viviam em ambientes pacíficos, tranquilos e com pouca hostilidade, tinham mais a perder com a separação dos pais. Nesses casos, os pais podiam estar tristes mas isso não afectava as crianças. Por outro lado, as crianças provenientes de lares desfeitos e com algum grau de violência física ou verbal ficariam quase sempre melhores com a separação. Ambientes com elevado grau de violência raramente trazem felicidade.

2) As crianças conseguem antever o divórcio

Este mito pressupõe que, se a criança consegue perceber que existem problemas entre os pais, já está mais preparada para uma eventual separação e não sofrerá tanto. Isto não é totalmente verdade porque, nos casamentos com um nível mínimo de conflito, as crianças não estavam nada preparadas e muitas vezes nem sonhavam que a relação dos pais estava mal. Nas casas em que os pais discutem sempre muito, as crianças nem sempre têm um ponto de comparação. Essas crianças não sabem, nem sonham, que existem casas em que os adultos não estão sempre a gritar, porque isso é a realidade que conhecem. Quando o divórcio finalmente bate à porta, podem não compreender qual o motivo de separação.

3) Todos os problemas terminam com a separação

Talvez este seja o mito mais comum e o que está mais longe da verdade. Na maioria das separações existe um aumento de conflito entre os elementos, mesmo que seja apenas durante um curto período de tempo. Para as crianças uma separação consiste num período de instabilidade e mudança, moradas novas, escolas novas e condições socioeconómicas diferentes. A mudança pode não ser necessariamente para pior, mas vai ser fundamental as crianças terem mecanismos para lidar com todas estas mudanças.

4) Pais divorciam-se no melhor interesse das crianças

Nem tudo o que os pais fazem é no melhor interesse dos filhos e este mito nem sempre corresponde à realidade. A verdade é que decisões críticas que afectam a vida das crianças são muitas vezes baseadas nas necessidades e afectos dos adultos. Muitos adultos terminam as relações de forma intempestiva sem considerarem o impacto que isso terá na vida dos seus filhos. Não faz sentido os casais infelizes continuarem juntos apenas pelo bem-estar dos seus filhos. No entanto, reconhecer atempadamente que existem problemas e procurar ajuda e terapia pode salvar muitas relações. Quando as relações pré-divórcio entre os pais são pacíficas, as crianças não vão entender a separação como sendo do seu melhor interesse.

5) Crianças pequenas e em idade pré-escolar não são tão traumatizadas pelo divórcio

Este mito assenta no princípio de que se não existe memória das dificuldades, de certeza que sofremos menos. Contudo, as crianças acima dos dois anos podem construir memórias e percebem as mudanças. Uma criança pequena pode não compreender tudo de um ponto de vista cognitivo, mas terá sempre uma percepção emocional. Na realidade não é a idade da criança que conta, mas sim existência de hostilidade. O divórcio não precisa de ser sempre prejudicial para uma criança. Os resultados a longo prazo dependem muito da natureza e da qualidade da situação no pós-divórcio. A forma como os pais conduzem o processo é crucial para que a criança esteja bem e permita uma evolução favorável em termos emocionais.

6) Não tem problema se os pais divorciados praticam regras diferentes em relação aos filhos

Já não basta a criança ter duas casas, mas ter ainda regras e vivências completamente diferentes vai deixá-la ainda mais confusa. A falta de consistência faz com que a criança fique sujeita a ambiguidades. O ideal no divórcio é um estado de co-parentalidade. Os pais são diferentes, mas devem funcionar em sintonia no que diz respeito aos vários aspectos relacionados com a criança.

7) A melhor maneira de proteger uma criança de um divórcio é fazer de conta que nada se passa

Este mito é claramente um absurdo. As crianças, mesmo as mais pequenas, não são parvas. As crianças percebem as alterações nas relações dos pais, sobretudo quando existe um elevado grau de tensão e conflito. Quando os pais optam por não informar uma criança, esta pode-se sentir culpada. Todas as crianças são naturalmente egocêntricas e, por isso, acham que tudo gira à sua volta. Se existe um problema com os pais e na família, a criança partirá do princípio que isso se deve a qualquer coisa que ela fez. A honestidade e clareza são essenciais para que a criança fique tranquila e entenda melhor a situação. Os pais devem dar ênfase ao ponto, que, apesar da separação, os pais gostam muito dela e que não é responsável pela separação.

8) A maior preocupação em relação às crianças num divórcio é a saúde emocional

Frequentemente os pais esquecem-se que as crianças podem manifestar o seu stress com sintomas físicos. Sintomas físicos do stress relacionado com um divórcio são variados, desde perda de peso, falta de apetite, dor abdominal ou queixas gastrointestinais, perturbações do sono ou até alterações da imunidade. A tristeza nas crianças pequenas pode manifestar-se nas birras, fúrias e agressividade. É muito importante não descurar as manifestações físicas do stress, porque isso é um sinal claro de que a criança está em sofrimento.

Nas situações de divórcio, como noutras situações da vida, os pais são confrontados com imensas dúvidas, medos e angústias. Não existem receitas milagrosas para que tudo corra bem. Os pais entenderem que o bem-estar dos filhos é um dos aspectos mais importantes a preservar é fundamental. Um ambiente , que favoreça um diálogo honesto e pacífico, será o ideal. É importante os pais reforçarem sempre a noção de que tentaram manter a relação, mas que isso não foi possível. As crianças devem crescer com a ideia de que nem sempre as relações acabam e existe a possibilidade das coisas correrem bem. No final, explicarem à criança que, apesar de não estarem juntos, gostam sempre muito dela e que isso nunca mudará. O amor que os pais têm pelos filhos será sempre a ponte que os une, mesmo quando já estão separados.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº6 de Dezembro de 2018.