Entrevista a João Morais, Presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia

Em Portugal, 55% das pessoas entre os 18 e os 79 anos têm pelo menos dois factores de risco associados ao desenvolvimento de doenças do foro cardiovascular, o que é verdadeiramente preocupante.

No entanto, não nos podemos esquecer que é durante a juventude que muitos deles se desenvolvem! Além disso, metade da população do nosso país tem excesso de peso, pelo que é imperativo cultivar hábitos alimentares saudáveis, bem como integrar a actividade física no quotidiano. Por último, é importante salientar que 25% dos portugueses ainda fumam, e que as substâncias do tabaco são altamente nocivas, não só para quem fuma, mas também para os fumadores passivos, especialmente se forem crianças. Começar por eliminar todos os hábitos nada saudáveis é um bom começo para dar o exemplo aos mais novos!

Como pode um educador promover uma vida saudável junto das crianças?

Os pais, os educadores e os professores, e quem tem um papel decisivo na vida da criança, devem ser sempre os primeiro a dar o exemplo. Se uma criança tem bons hábitos em casa, vai aprender a aplicá-los depois noutros contextos, quer estejam relacionados com a alimentação, quer com hábitos de actividade física. Há que mostrar e ensinar a distinguir entre o que é saudável e o que não é, mas depois há que seguir também esse caminho; não pode ser só na teoria.

Quais são as boas práticas de vida saudável na infância?

As boas práticas para uma vida saudável na infância passam por uma alimentação equilibrada, com fruta fresca, legumes, proteína e todos os nutrientes de que o nosso organismo necessita no dia-a-dia. Até aos 2 anos, não se deve adicionar açúcar aos alimentos. Há igualmente que ter em atenção as gorduras escondidas em determinados alimentos, como comidas pré-feitas e snacks. Portugal é um dos países com maior taxa de excesso de peso e obesidade infantil, sendo importante combater esta tendência.

Por outro lado, não podemos deixar de referir também a importância do exercício físico na infância, não só por uma questão de saúde e prevenção cardiovascular, mas também por que é importante para o desenvolvimento motor e social da criança. Em média, uma criança deve dedicar pelo menos uma hora do seu dia ao exercício físico.

O impacto que o estilo de vida tem na saúde cardiovascular é inegável e é por isso que se torna tão importante combater estes factores e todos os problemas que acarretam, como a diabetes mellitus, que afecta 13% dos portugueses, a hipertensão arterial (40%) e o colesterol (30%).

Quais os benefícios para a saúde cardiovascular em ter hábitos saudáveis desde pequeno?

Os benefícios são inúmeros! Muitas vezes, quando um adulto tenta reverter uma situação de doença cardiovascular, já vai tarde, já não há muito a fazer. E muitos dos eventos cardiovasculares em idade adulta estão, na verdade, relacionados com situações que se começaram a desenvolver na infância ou juventude. Um dos problemas com que nos deparamos hoje em dia é que já há crianças que apresentam aterosclerose, que é o primeiro estádio de desenvolvimento da doença cardiovascular, que mais tarde irá traduzir-se em enfarte agudo do miocárdio e/ou acidente vascular cerebral (AVC).

De pequenino é que se começa a educar o coração. Isto é verdade? Porquê?

As crianças de hoje vão ser os adultos de amanhã, e por isso é muito importante que lhes consigamos fazer chegar o quão essencial é a saúde e como podemos preservá-la. Como já referido, as doenças cardiovasculares podem ter início na infância mas, como os factores de risco são de forma geral silenciosos, não se lhes dá muita importância, o que está completamente errado. É na infância que se deve começar a educação para a prevenção e controlo dos factores de risco.

Contudo, não são só os hábitos de vida saudável que importam. É também de salientar a importância da literacia em saúde nesta faixa etária. A população portuguesa é muito desinformada acerca da sua própria saúde e não consegue identificar muitos dos sintomas e sinais de alarme associados aos problemas cardiovasculares, pelo que a chave para este problema pode estar, de facto, nas nossas crianças. Mas para isso tem de haver um trabalho conjunto que permita a entrada desta informação no contexto do currículo escolar nacional.

Há algum sinal de alarme a que os pais e/ou educadores devam estar atentos quando falamos em saúde cardiovascular nas crianças?

Sim. Embora raras, há algumas doenças do foro cardiovascular que se desenvolvem na infância, pelo que os pais/avós/educadores devem estar atentos a alguns sinais que podem indicar que algo de errado se passa com a criança. Neste campo, malformações congénitas são as mais comuns, afectando aproximadamente seis a oito crianças em cada mil. Estes sinais podem não ser óbvios, mas deverá estar atento a eventual dificuldade respiratória, fadiga, desmaio e transpiração excessiva, bem como uma coloração azulada das mucosas (boca, língua).

Coração capaz, coração feliz?

Um coração capaz é um coração que arrisca pela vida, mas não arrisca a vida! Todos os dias fazemos escolhas, mas será que são as mais acertadas? A campanha “Coração Capaz”, lançada recentemente pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia, tem como objectivo a consciencialização das pessoas para os riscos que correm ao tomar determinadas decisões que podem pôr em causa o bem-estar e a saúde cardiovascular. Esta campanha vem mostrar que o perigo é real e que há escolhas que fazemos no quotidiano que merecem ser repensadas.

Está nas mãos dos adultos garantir hábitos de vida saudáveis às crianças, para que estas se tornem também adultos conscientes. Acha que o coração do seu filho é capaz? E o seu?

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº5 de Setembro de 2018.