Paulo Oom, Pediatra

Mais cedo ou mais tarde, esse dia acaba sempre por chegar: aquele em que a criança vai, pela primeira vez, para o infantário.

Vai começar a sua vida social, para lá do ambiente tranquilo e controlado da família. Na escola vai aprender novas regras de relacionamento com os outros, aprofundar o sentido de partilha, conhecer a experiência da responsabilidade. Vai também começar a aprender coisas Infantário novas sobre o mundo, sobre os outros e sobre si mesma. E tudo isto longe dos seus pais e irmãos, longe do espaço bem conhecido do seu quarto e da sua casa.

Com todas estas vantagens, porquê tantos receios? Porque aquilo que se vai abrir à sua frente não é apenas o mundo do conhecimento e das relações sociais. É também o enormíssimo mundo das infecções! A partir desse momento, vários (muitos) serão os dias em que chega a casa doente, com febre, com o nariz entupido, com tosse, vómitos, diarreia ou manchas estranhas no corpo. E cada uma dessas situações acompanhada da correspondente ansiedade dos pais. Como é possível que aquela criança, que até aí nunca tinha ficado doente, nem com uma simples constipação, ao fim de três semanas na companhia dos novos colegas ter ficado com febre pela primeira vez… E aquelas secreções no nariz acompanhadas de tosse, que passaram a ser tão frequentes e teimam em não querer ir embora…

Por que acontece tudo isto? Porquê esta associação forçada? Será inevitável? Três causas podem ser apontadas. Em primeiro lugar, o sistema de defesas da criança está em evolução constante desde o seu nascimento e à medida que ela contacta com novos vírus ou bactérias vai começando a defender-se. Este sistema de defesa tem uma memória muito forte, e consegue lembrar-se da melhor forma de combater cada infecção quando ela ocorre uma segunda ou terceira vez. O problema é existirem centenas de possíveis causas para estas doenças infecciosas e o ganho de defesas ser geralmente individual, ou seja, para cada agente infeccioso em particular. Quando entram para a escola, a maioria das crianças não esteve ainda em contacto com outras crianças doentes e é por isso “virgem” no contacto com estas infecções. Acresce a esta imaturidade o facto de a entrada para a escola ser habitualmente realizada nos meses frios, altura em que estas infecções são mais frequentes. E por fim, as crianças ficam habitualmente muito tempo confinadas às salas de aula, facilitando a transmissão de todos estes agentes infecciosos de umas para outras pela tosse, espirros e, principalmente, através das mãos. Imaturidade, crianças doentes e espaços fechados: temos aqui tudo reunido para uma tempestade perfeita.

Mas não precisa necessariamente de ser um drama. De facto, as doenças mais frequentes na criança que inicia o percurso escolar são também as mais banais e aquelas que exigem menos cuidados. De longe, o mais habitual são as constipações, otites, amigdalites e gastroenterites. E em grande maioria são situações virais, leves e autolimitadas. O tratamento resume-se geralmente a uns dias em casa, tratando os diferentes sintomas e rapidamente a criança está pronta para voltar à escola. O principal problema é serem muitas doenças, por vezes sem intervalos livres entre elas, dando a sensação de que a criança “está sempre doente”. De facto não é assim. A criança não está “sempre” doente, mas sim “muitas vezes” doente. É o número de vezes que assusta, mas que se percebe pelo grande número de bactérias e vírus completamente novos com os quais nunca contactou.

Nesse sentido, podemos dizer que esta quantidade de doenças faz parte de um processo de aprendizagem, é normal, e não significa qualquer deficiência no sistema de defesas da criança. Claro que não existem duas crianças iguais, e umas serão mais sensíveis do que outras, o que explica que existam sempre casos nos dois extremos: as que raramente ficam doentes e as que não conhecem outra forma de estar. E claro que podem existir excepções, muitas vezes fruto do simples azar de ter estado em contacto com uma bactéria mais agressiva, ou de se tratar de uma criança particularmente mais susceptível para determinada infecção. No meio de tanto trigo pode sempre existir algum joio. Por isso há sempre relatos dramáticos de casos de pneumonia ou meningite, muito mediatizados, e que servem essencialmente para enervar pais e mães. Fundamentalmente temos que pensar que o que é mais frequente continua a ser o mais frequente e o que é raro é raro. E se alguns sintomas são alarmantes, a enorme maioria nem tanto.

Em situações de doença é fundamental que a criança doente seja observada de preferência pelo seu pediatra, que já a conhece e sabe valorizar as pequenas alterações mais subtis. Da mesma forma que os pais são quem consegue identificar mais precocemente pequenas alterações, também o pediatra assistente está mais alerta para pequenos sinais que não sejam habituais naquela criança. O recurso às urgências hospitalares deve ser evitado a todo o custo e servir apenas para isso mesmo: em caso de urgência. Nunca se esqueçam que cada vez que uma criança é levada a um serviço de urgência entra no local onde é mais provável contrair uma doença contagiosa. E é observada, invariavelmente, por um médico diferente em cada ida. Muitas vezes a observação nem é necessária e basta um contacto com o pediatra para que tudo se resolva. Principalmente hoje, em que temos mail, sms, whatsapp e tantas outras formas de comunicação.

O recurso à internet vulgarizou-se e muitos pais, que me procuram pela primeira vez com uma criança doente, vêm à procura de uma segunda opinião, uma vez que a primeira já lhes foi fornecida pelo motor de busca. Mas a internet está cheia de falsas informações, relatos dramáticos e conselhos enganadores. Muitas vezes apenas cria ansiedade nos pais a propósito de situações banais. Mas o contrário também acontece, ao levar alguns pais a desvalorizar sinais que deveriam ter sido tidos em conta. O meu conselho é “resistam à tentação” e consultem apenas sites aconselhados pelo pediatra, pois também os há de qualidade.

Fica-nos então a pergunta essencial: haverá uma idade ideal para a criança ir para a escola? Se é importante para a sua aprendizagem e socialização, o que fazer face às doenças que vai apanhar? Talvez seja mais fácil analisar cada um destes factores. A criança mais pequena está muito virada sobre si mesma, sem grande capacidade de interiorização das regras sociais. E está muito vulnerável em termos de defesas contra a maioria das infecções. O seu sistema imunitário está nessa altura a expandir-se a grande velocidade e a amadurecer na sua forma de lidar com todas as agressões. De facto, a idade importa. Atrasar a entrada na escola até aos 2 anos e meio ou 3 ajudará seguramente a que a criança enfrente essa fase com maior interesse, maior compreensão e maior robustez. Infelizmente, esta nem sempre é uma opção possível, e nestes casos pais e pediatra devem unir ainda mais os esforços para tornar essa experiência o mais agradável possível.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº1 de Junho de 2017.