Group of children playing on white laptop together. Isolated on white.

Entrevista a Paulo Veríssimo, Professor universitário e especialista em cibersegurança

Por Sandra M. Pinto

Faz parte da vida de todos, seja para trabalho ou lazer. Mas como devem as crianças lidar com a internet?

A internet é já uma parte da vida quotidiana das crianças e das suas famílias. Esta realidade levanta novas questões sobre o equilíbrio entre os perigos e os riscos e as oportunidades que a sua utilização acarreta para as crianças. Paulo Veríssimo explica como podem os pais encarar estas questões.

Não há dúvida de que a internet é uma ferramenta benéfica para as crianças, mas, com a sua utilização, chegam não só benefícios mas alguns riscos. Perante esta dualidade, qual deve ser a posição dos pais?

A internet é apenas mais um “bairro” com “ruas” boas e ruas más. Assim como não funciona nas ruas reais, também serve de pouco os pais tentarem controlar por onde andam os filhos na internet.

Falamos aqui de crianças até aos 6 anos. Quando nos referirmos a riscos, falamos exactamente de quê?

Bom, para essas idades, e usando o exemplo acima, é óbvio que a internet se pode tornar muito arriscada, tal como a maior parte dos pais não deixaria (e bem) um filho de 5 anos andar sozinho por nenhuma rua de Lisboa.

Em idades precoces, como estas, quais as principais precauções que os pais devem ter para minimizar os potenciais riscos?

Bom, vamos generalizar para uma gama de idades maior, penso que é mais produtivo. Note que a maior parte dos pais não é especialista em informática, daí que este exemplo da “rua”, que já utilizei muitas vezes, seja muito útil. Então, a ideia é ir dando cada vez mais liberdade e autonomia, à medida que a idade avança. Note que uma coisa é deixar os miúdos usar um computador desde cedo, outra é deixá-lo ligado à internet. Se calhar, quando os pais acham que o filho já pode ir comprar qualquer coisa sozinho à esquina, é altura de o deixar ir à internet, mas, por exemplo, com filtros de navegação. E quando ele já vai sozinho mais longe, e apanha o autocarro, está na altura de navegar mais livremente.

De que forma se deve abordar a criança para que esta fique alerta, mas sem lhe causar alarmismos ou medos desnecessários? A existência de um envolvimento dos pais nas actividades que os filhos desenvolvem na internet é essencial?

Há dois ou três pontos acerca desta questão. Em primeiro lugar, espiar os filhos não vai resolver nada, e vai destruir a confiança e o respeito mútuo que devem existir entre pais e filhos. Então, em alternativa, é necessário acompanhar sempre inicialmente, e ir largando aos poucos, à medida que se percebe que eles vão adquirindo a noção do risco. Eles têm de o perceber por eles próprios, e estar sempre em cima deles é contraproducente. Infelizmente, isto acontece muitas vezes, porque é o espelho do que muitos pais fazem na “rua”: os filhos simplesmente não andam na rua e são levados de carro de um lado para o outro até já serem jovens bastante crescidos. Os pais depois têm o pensamento mágico de que “ele(a) agora já está crescido” pode andar à vontade na rua. Na verdade, o jovem não aprendeu, quando devia, a analisar o que são as ruas boas e ruas más, e isso por vezes corre mal. Na internet, que é virtual e, nessa idade, estamos a falar da filha sozinha, no quarto, no seu computador, pode correr ainda pior. Portanto, dar apoio no início, e autoconfiança e responsabilização depois, tem sido a melhor receita na educação. Por que não há- -de funcionar para a internet?

Com os telemóveis com acesso à internet cada vez mais banalizados, a tarefa de controlar ficou mais difícil. Proibir o seu uso será a solução?

Bom, se ainda está a falar da gama pré- -6 anos, assim como sou apologista de se promover o contacto dos miúdos com computadores desde muito cedo, sou céptico acerca de dar telemóveis a crianças de tenra idade, e acho um perfeito disparate dar-se acesso à internet (com smartphones ou computadores) nessas idades. Penso que aquilo que se vê (e é lamentável) é os pais passarem os seus smartphones para as mãos dos filhos pequenos, para eles estarem quietos, e depois comprarem-lhes mesmo um smartphone, quando eles fazem birras imensas porque lhes “tiraram o brinquedo”.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº1 de Junho de 2017.