Maria do Rosário Pedreira, Editora, escritora, poetisa e letrista

Às vezes, quando as crianças fazem perguntas indiscretas, os pais e avós, querendo que a conversa fique por ali, respondem-lhes simplesmente que «a curiosidade matou o gato».

No entanto, ser curioso é, mais do que um defeito, uma qualidade, já que a curiosidade é o grande motor da busca de conhecimento e, se não fôssemos curiosos, se calhar ainda andávamos a caçar como os homens das cavernas…

Neste sentido, livros que incluam pequenas e aliciantes biografias de personagens históricas de relevo para o público infantil são, de certa forma, instrumentos que servem para deixar os miúdos conhecer, como quem «espreita pela fechadura», as vidas de uma série de pessoas que funcionarão como exemplos para eles. Por isso, aqui não há gato nenhum que tenha de morrer e o que é mesmo preciso é matar-lhes a curiosidade. Se for com livros, tanto melhor, porque os telemóveis a toda a hora também já cansam.

Além disso, saber o que se passou antes de nascermos ajuda-nos a prevenir erros e corrigir enganos. É por isso que nunca devemos negar o nosso passado nem esconder das crianças os episódios menos alegres da nossa história. As coisas têm de ser vistas à luz das épocas em que decorreram e é justamente esse contexto que deve ser explicado com todos os detalhes. Esconder as partes de que hoje não gostamos está simplesmente fora de questão. Se ficarem na obscuridade, como evitar que se repitam?

Ensinar História às crianças

Numa altura em que se fala muito de feminismo e as mulheres, ao que parece, estão finalmente na moda e têm tempo de antena (nem sempre, é certo, pelas melhores razões), é muito importante para os mais novos, por exemplo, tomarem contacto com as heroínas portuguesas de todos os tempos. A História de Portugal é rica em mulheres generosas e combativas que abriram o caminho à conquista de direitos, justiça e igualdade para todas nós, que vivemos no século XXI. Há ainda muito a fazer nessa matéria, bem entendido, e esse é um trabalho que nunca está acabado; mas, se não tivessem sido a coragem e a determinação dessas mulheres que ficaram na história, ainda hoje estaríamos subjugadas aos pais e maridos e dependeríamos da vontade destes para podermos sair à noite, fazer uma viagem ao estrangeiro, ter um emprego, ou abrir uma conta bancária. Dá para imaginar?

Agora, que as mulheres já têm voz activa, é então fundamental que as raparigas (mas também os rapazes, porque a história interessa a ambos os sexos!) compreendam que, por um lado, os direitos de que hoje gozam não existiram sempre neste país e custaram muito a conquistar; e que, por outro lado, conhecermos o passado é imperioso para delinearmos o futuro e tornarmos a nossa vida e a de todos à nossa volta melhor e mais alegre. Até porque o mundo anda sempre em avanços e recuos e, às vezes, dá verdadeiras cabriolas, fazendo com que uma coisa que dávamos por garantida se perca, afinal, mais uma vez.

Rainhas ou plebeias, jovens ou mais velhas, activas na política, na ciência, nas letras ou na música, houve em todas as épocas, da Idade Média aos nossos dias, raparigas e mulheres que se destacaram. Aprender com elas é obrigação de todos, especialmente dos jovens curiosos que não param de fazer perguntas. As biografias em livro são frequentemente a melhor resposta que podemos dar-lhes.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº6 de Dezembro de 2018.