Inês Guimarães, Estudante universitária

É o bicho-papão de 73 cabeças que assombra geração após geração, a disciplina ingrata que atrapalha a vida dos estudantes, que custa, mas que “tem de ser”.

Sarcasmo à parte, é urgente alterar a forma como a matemática é encarada na sociedade. Os pensamentos negativos e comentários pejorativos de que é alvo marginalizam-na completamente e afugentam muitas crianças que, naturalmente, gostariam da área. Ao longo do tempo, o “bullying” contra a matemática vai-se perpetuando, a fobia é transmitida de avô para pai, de pai para filho, e ninguém sai a ganhar. Pais, mesmo que tenham tido uma má experiência com a matemática, mesmo que ainda tenham pesadelos com aquela professora que parecia ter sido parida pelo diabo, tentem não desmotivar (mesmo que inconscientemente) os vossos filhos. É vital manter a mente aberta, quer a vossa, quer a deles. Evitem denegrir esse ramo do saber e transparecer um sentimento de pena ao olharem para os trabalhos de casa dos miúdos. É isso mesmo: mais importante do que incentivar o gosto pela disciplina é garantir que não lhe põem logo uma nuvem negra em cima.

Incentivar o conhecimento

Após estes dois parágrafos um pouco duros, embora honestos, aproveito para fazer uma pausa e dar-me a conhecer melhor. O meu nome é Inês Guimarães, tenho 20 anos e estudo matemática na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Ao longo do tempo fui ganhando alguma visibilidade, porque tenho um canal no YouTube, intitulado por “MathGurl”, onde tento passar uma imagem mais positiva e divertida da matemática. Com esse mesmo intuito, lancei recentemente um livro chamado “Desafios Matemáticos que te Vão Enlouquecer – 51 Problemas do Dia a Dia”. Embora essa seja a minha “obra-prima” até ao momento, redigi também um conto infantil, “A Terra da Mentemática”, para crianças do 1.º ciclo, uma vez que os restantes conteúdos são mais indicados a partir dos 12 anos. Ainda assim, quero deixar bem claro que não sou nenhuma expert, nem na área da matemática, nem na área da educação! Estão, portanto, à vontade para ignorar todos os meus conselhos. No entanto, dada a oportunidade, tentarei expressar algumas das minhas convicções, na esperança de não ser completamente inútil.

Quando um ser humano nasce, para além de trazer consigo sangue misturado com uma gosma nojenta, traz também uma curiosidade estonteante acerca de tudo aquilo que o rodeia. As crianças têm um entusiasmo natural pelo conhecimento, por aprender, querem entender como é que as coisas funcionam. O nosso papel enquanto educadores deve passar por estimular essa sede pela sabedoria, que já se encontra intrinsecamente presente.

Uma outra característica dos meninos e das meninas é gostarem de brincar, de aventuras, de diversão! Por que não usar isso como desculpa para os entusiasmar pela resolução de pequenos desafios matemáticos, colocando-os no papel de espiões e detectives que têm um mistério empolgante para resolver? A matemática pode e DEVE ser divertida (pelo menos numa fase inicial…). É algo que vai muito para além da tabuada e de somar fracções.

Espicaçar a curiosidade

Posso estar redondamente enganada, mas parece-me que todos conseguimos ficar excitados com um bom jogo de tabuleiro, um puzzle interessante ou uma charada intrigante. Todas essas actividades lúdicas envolvem pensar e desenvolvem o raciocínio lógico, portanto há vários jogos que podem ter um impacto muito positivo e potenciam uma maior afinidade com a matemática, sem serem aborrecidos! A resolução de problemas é, para mim, o aspecto mais importante da matemática e é algo que estará presente durante toda a nossa vida.

Também pode ser benéfico estabelecer algum tipo de associação entre a matemática e a “vida real”. Essa parte já é mais clichê e não é o que mais me fascina, mas sendo imparcial terei de a abordar. Medir a quantidade de farinha a utilizar num bolo, calcular o troco que devemos receber após efectuar um pagamento, estimar a duração de uma viagem de carro em família… envolvam os miúdos nessas actividades, espicacem-nos com esse tipo de questões, eles gostam!

Uma outra estratégia que poderá ser aliciante é meter a tecnologia à mistura. Embora não seja muito saudável criar uma dependência de certos aparelhos electrónicos desde cedo, os computadores e a internet são bons aliados na procura pelo conhecimento e há programas que ajudam na visualização de conceitos, ao permitirem o desenho de gráficos, tabelas e figuras geométricas. Se não quisermos ir pela via tecnológica, podemos sempre usar paus, pedrinhas ou feijões para desenhar polígonos, criar jogos de estratégia ou treinar o cálculo mental, é uma questão de criatividade!

Dar voz à criatividade

E por falar em criatividade, já dizia Einstein que a imaginação nos leva mais longe do que o conhecimento. Saber matemática não é decorar a tabuada e resolver o mesmo tipo de exercício trinta vezes seguidas da “maneira que o professor quer”, para não perder pontos num teste. Claro que é preciso termos disciplina e sermos metódicos para termos sucesso no estudo de uma área. Mas o melhor é sermos movidos pela paixão e curiosidade, ao invés de encarar o estudo como uma obrigação e um dever. Na minha opinião, uma criança não deve ser específica e explicitamente incentivada a ter boas notas, mas sim a entender o porquê das coisas, a brincar com as matérias e os conceitos, a ser criativa.

Sejamos positivos sobre a matemática. Expressemos confiança na capacidade dos nossos filhos para a matemática. Não nos preocupemos com os nossos próprios medos da matemática ou com o quão difícil é ou o quanto admiramos aqueles seres superiores que conseguem fazer matemática. Toda a gente é capaz, desde que acredite com força suficiente.

Enfim, talvez tudo o que tenha escrito em cima seja vago ou utópico. No entanto, acredito, veementemente, que é a paixão que move o mundo, que aprender não tem de ser chato e deve haver algum aspecto da matemática capaz de agradar a cada um de nós, por muito pequenino que seja. Pensemos positivo. Há tanta gente a gostar de matemática, não há-de ser assim tão mau!

Os mais sinceros votos de coragem, força, optimismo e persistência. Vai tudo correr bem.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº6 de Dezembro de 2018.