Entrevista a Tomás Mello Breyner | Mentor do projecto “O Pequeno Buda” 

Por Sandra M. Pinto 

A ideia é simples: através de exercícios bastante simples conseguir que as crianças fiquem mais calmas, mais atentas e alcancem melhores resultados. 

A missão do projecto “O Pequeno Buda” é que a meditação passe a fazer parte do dia-a-dia das escolas. «Queremos que a meditação não seja vista como uma actividade extracurricular, mas sim como uma prática diária para que assim possamos proporcionar a todas as crianças um crescimento natural e holístico», refere, em entrevista, Tomás Mello Breyner, autor do livro “O Pequeno Buda”.

Hoje as crianças estão sujeitas a inúmeras pressões. É possível abrandar e mudar o rumo das coisas?

Sim, é possível, mas temos de ter consciência que não é fácil. A energia da sociedade que nos rodeia é bastante forte e as crianças são como esponjas, absorvem tudo. Mas sou positivo, acredito que com prática e persistência é possível abrandar e mudar o rumo das coisas.

O que é a meditação? Não é certamente apenas estar parado de olhos fechados…

A meditação é uma ferramenta. É um conjunto de exercícios que nos leva a encontrar a nossa paz interior. Existem vários tipos de meditação e não tem necessariamente de ser parada, com os olhos fechados.

Perante uma criança com problemas de stress, qual deverá ser a primeira atitude dos pais?

O stress não é o estado natural da criança, esse é o primeiro ponto de que temos de ter noção. O stress é uma passagem que veio, mas que também vai embora com o tempo. Ao termos consciência disto vamos acreditar e fazer tudo para que ele desapareça o mais rapidamente possível. Como pais, devemos sempre, em primeiro lugar, transportar em nós próprios uma energia tranquila. Temos de estar calmos e não entrarmos nós em stress. Depois disso passamos à acção e usamos as ferramentas que estiverem ao nosso alcance para diminuir o stress. A meditação é uma delas, é uma ajuda natural e holística, ao contrário da medicação, que não é natural e pode causar danos graves no crescimento das crianças.

Há por parte dos educadores/professores a noção da importância de saber acalmar os mais pequenos?

Sim, são cada vez mais as pessoas que vêm ter comigo a pedir ajuda. Os cursos que facilito estão sempre cheios, isso quer dizer que há uma grande tomada de consciência por parte dos educadores e professores.

De certa forma, nos últimos anos, vulgarizou-se o uso de medicação para “acalmar” as crianças. Como observa este fenómeno?

Nós defendemos o lema: mais meditação menos medicação. A medicação só deve ser usada em casos extremos e sempre sobre grande vigilância de um médico especialista, caso contrário ela pode interferir gravemente na evolução natural das crianças.

Até que ponto a meditação pode substituir a medicação?

Pode e deve. Nas primeiras fases devemos sempre optar por estas técnicas naturais e humanas como a meditação. Ela pode prevenir muita coisa. São ferramentas humanas, sem qualquer vínculo religioso ou cultural. Hoje em dia as melhores universidades do mundo comprovam que a meditação ajuda, há milhares de estudos científicos a dizerem isso.

Quem é o Pequeno Buda?

O Pequeno Buda são as crianças na sua verdadeira essência. É um estado e não uma pessoa.

Quando e como nasceu o projecto?

A ideia de criar OPB nasceu em 2014 numa viagem à Índia. Em 2015 criámos o projecto e tivemos a nossa primeira escola, O Park International School.

Em que filosofia assenta e quais os objectivos a que se propõe?

A nossa filosofia defende o crescimento natural das crianças. Queremos resgatá-las para a sua verdadeira origem para que, assim, elas possam encontrar o seu caminho com maior felicidade e tranquilidade. Certamente que desta forma vamos viver num mundo melhor.

A que idades se destina?

A partir dos cinco anos, se bem que também já trabalhamos com algumas escolas onde nos pediram para aplicar o projecto ao pré-escolar, ou seja, aos três/quatro anos.

Qual o método que propõe no seu livro?

Não há só um método, existem vários. A meditação são vários exercícios, todos eles com o mesmo objectivo: acalmar e reconectar com o agora. Trabalhamos, essencialmente, com a meditação, o mindfulness e a gestão emocional das crianças.

Sendo aplicado na sala de aula significa que este método não poderá ser transposto para outros ambientes, por exemplo, familiar?

Sim, claro que pode. Pode ser usado em qualquer lugar, a qualquer hora. Esse é um dos grandes benefícios da meditação, ou seja, não precisamos de pedir autorização a ninguém, nem pagar nada para o fazermos. Podemos meditar no carro, na escola, em casa, sempre que nos apetecer podemos praticar meditação.

Até que ponto o bem-estar emocional de uma criança influencia o seu bom ou mau comportamento?

Há uma frase do Herman Hesse que diz: “Tudo o que está dentro está fora, e tudo o que está fora está dentro.” Isto quer dizer que se estamos com raiva ou mal-estar dentro de nós, o mundo cá fora vai ser visto com essa raiva e vai ser negativo. Como nós nos sentimos é como o mundo se reflecte. Somos nós os criadores da realidade.

Quais têm sido os resultados da aplicação do método?

Os resultados são muito positivos e quem o diz são as próprias crianças. Sempre que lhes pergunto se gostam dos exercícios, todos respondem que sim. Sempre que lhes pergunto se querem continuar a fazer a meditação, todos respondem novamente que sim. É realmente muito bom testemunhar isto.

E os pais? Aceitam e tentam permanentemente acompanhar?

Sim. Em quatro anos de projecto nunca tive um pai ou uma mãe a vir ter comigo e a dizer mal ou a dizer que isto não está certo, nunca aconteceu. Cada vez mais incentivamos os pais a participar nas nossas formações, para que assim eles também a possam fazer em casa. Se for feito em familia, os resultados são muito melhores.

Muitos especialistas defendem novos métodos de ensino. Qual é a sua opinião? Este ou novos métodos?

Sou 100% a favor dos métodos de ensino alternativos. Você já reparou bem no que se passa numa sala de aula de uma escola pública? É primitivo. Não faz qualquer sentido o que se está a passar na educação. Os jovens evoluiram muito, mas a escola não acompanhou essa evolução, é triste.

Quais as diferenças desses métodos que defende?

São ensinos muito mais personalizados que vão ao encontro das qualidades de cada criança. Em vez de tentarmos pôr todas as crianças na mesma caixa, nestes métodos de ensino damos mais atenção ao que cada criança naturalmente desenvolve. Assim, elas são capazes de muito mais cedo irem ao encontro daquilo que gostam de fazer. No fundo existe mais espaço para cada um ser o que é, isso é muito positivo.

Olhando à nossa volta, o mundo mudou de forma impressionante. Quais os desafios que se colocam hoje aos pais na educação das crianças?

Vivemos num mundo demasiado acelerado, e o grande desafio é fazer o oposto, ou seja, desacelerar. O grande desafio passa por tirar as crianças das cidades e levá-las a brincar na natureza, é tirar-lhes os iPads das mãos e dar-lhes paus, madeira, barro. É fazê-las perceber o que é brincar e ser livre, sem estar constantemente em cima com medo que a criança se magoe ou sempre a tentar corrigir.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº3 de Março de 2018.