Por Patrícia Oliveira-Silva | Directora do Human Neurobehavioral Laboratory (HNL), membro do conselho de direcção do Research Centre for Human Development (CEDH) e professora auxiliar da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa no Porto. http://www.fep.porto.ucp.pt/dias-da-psicologia

Para quem já se perguntou por que motivo os ritmos agitados de um festival podem fazer-nos perder todas as inibições, ou como o clímax nas sinfonias de Beethoven nos pode levar às lágrimas, talvez já tenha percebido que a música representa uma importante e intrigante parte das nossas vidas

Será provavelmente verdade que a maioria das pessoas vivencia um ambiente musical no seu dia-a-dia, sendo, muitas vezes, acompanhado de uma resposta afectiva de algum tipo. E são vários os exemplos onde a música está presente na nossa vida: ligamos o rádio enquanto conduzimos; ouvimos músicas nos momentos festivos e nas cerimónias religiosas; ou contornamos os nossos compromissos diários para assistir a um concerto. E não será necessariamente indispensável ter conhecimentos formais de música, nem mesmo ser uma pessoa particularmente musical para apreciar e responder de forma significativa a um estímulo musical. Apesar de muitos aspectos da música beneficiarem, certamente, de conhecimentos prévios, compreender o seu significado emocional ou dramático parece ser um dos sentidos humanos mais básicos e significa, simplesmente, entregar-se à experiência de ouvir uma peça musical.

Forma de comunicação humana

Mas a música é, também, largamente definida como uma forma essencial de comunicação humana e representará, certamente, a mais desafiante delas. Sendo uma forma de comunicação, podemos assumir que uma das características mais ousadas que possui é a sua força latente para influenciar o nosso comportamento (e até mesmo de grupos inteiros), que muitas vezes prescinde de transmitir uma mensagem literal, dispensando verbos e complementos. De facto, a música é conhecida como sendo um valioso instrumento para influenciar um indivíduo a agir ou reagir de uma determinada forma. O mais interessante é que os filósofos gregos já o tinham percebido há séculos. Através da sua famosa obra “A República”, Platão demonstrou que procurava entender até onde iam as influências da música, através da sistematização dos estilos musicais que auxiliavam e os que prejudicavam a formação dos cidadãos gregos, chegando mesmo a insistir que a arte, em particular a música, deveria ser uma parte integral da educação, porque era uma forma de cultivar a harmonia no espírito dos cidadãos jovens.

Relação psicologia e música

Sendo a psicologia a ciência que estuda o comportamento e todas as variáveis que podem influenciá-lo, muitos psicólogos têm-se dedicado a explorar a forma como percebemos, lembramos, criamos, executamos e respondemos à música. Sem pretender criar uma lista exaustiva sobre os pontos de intersecção entre essas duas áreas, podem referir-se estudos sobre o impacto ao longo do desenvolvimento da aquisição de habilidades musicais: análise comportamental da aprendizagem da música; estudos cognitivos sobre o impacto da música no raciocínio abstracto, na codificação e no funcionamento executivo de quem recebeu formação musical; análises psicométricas da habilidade musical; investigações neurológicas e fisiológicas sobre as bases biológicas da percepção musical; estudos aplicados nas áreas da terapia; estudos acústicos e psicofísicos dos mecanismos da percepção auditiva; entre vários exemplos. Essas questões, e muitas outras, têm despertado curiosidade a muitos grupos de investigação dentro da psicologia.

MusicalMente

Na Universidade Católica Portuguesa, no Porto, o grupo de investigação do Human Neurobehavioral Laboratory (HNL) da Faculdade de Educação e Psicologia (FEP) tem explorado os correlatos neurofisiológicos da influência que a música tem no desenvolvimento cerebral das crianças e como a música interage com as nossas emoções e funcionamento cognitivo nos mais variados contextos. Associado a esse interesse de investigação, a FEP recebeu, no passado mês de março, a 8.ª edição dos “Dias da Psicologia” – evento anual que surge com a premissa de explorar, pela voz de pessoas de referência na área, temas pertinentes da actualidade que estejam relacionados com a psicologia. Esta edição – “MusicalMente” – teve como tema a relação dinâmica que existe entre a música e a psicologia e integrou painéis de discussão, recitais e workshops sobre como a música pode estar presente em vários contextos (por exemplo, clínico, educacional e organizacional). Contou, ainda, com a presença de músicos profissionais e professores de instrumentos, que partilharam as suas próprias experiências, nomeadamente sobre o controlo da ansiedade na performance musical e o impacto do estudo de um instrumento durante um longo período de tempo nas suas personalidades.

Música e desenvolvimento

Mas, o que já se sabe sobre o impacto da música no desenvolvimento humano? Em última análise, é só isso que muitos pais, ansiosos que os seus filhos aprendam a tocar um instrumento, querem saber.

O ingrediente mágico, que surge das experiências realizadas em vários laboratórios, é a motivação do próprio aprendiz. A motivação é um factor essencial na realização bem-sucedida de qualquer actividade: é o combustível que activa o motor! A premissa actualmente mais aceite é de que a motivação resulta da relação dinâmica entre o indivíduo e o seu meio ambiente. Transpondo para o universo particular da música e da aprendizagem de um instrumento, a motivação é essencial na manutenção de um longo processo de desenvolvimento e aperfeiçoamento, que exige muita dedicação e compromisso. Empenhar-se activa e verdadeiramente no processo criativo de tocar um instrumento musical significa primeiro aceitar diferentes papéis e arregaçar as mangas.

O estudo de um instrumento (desde já peço desculpa, por medo de desmoralizar qualquer músico com a simplicidade da minha definição) é um empreendimento individual. Alguns autores atrevem-se mesmo a afirmar que a execução musical é “a mais exigente das conquistas humanas”. Envolve a apropriação de séculos de reflexão sistemática sobre uma série de estruturas musicais, que quase parecem aritméticas. Além disso, aprender a tocar um instrumento requer habilidades multimodais que envolvem planeamento e execução de sequências motoras complexas; integração dos sistemas perceptuais da visão, audição e tacto; monitorização constante dos sistemas proprioceptivos (propriocepção é um dos sentidos humanos que nos permite receber feedback do estado interno do corpo, por exemplo, das articulações, músculos, tendões e ligamentos), activação de inúmeras áreas cerebrais em ambos os hemisférios; e experiências emocionais profundas. Para aprender a tocar um instrumento, não há necessariamente como pré-requisito a existência de inteligência, mas sim de compromisso. A execução musical representa mais uma actividade humana do que um simples entretenimento e exige que o executante se envolva fisicamente com o seu próprio instrumento. Para além disso, a música não pode ser composta, executada ou ouvida sem envolvimento afectivo.

Vontade, factor incontornável

Apesar do ensino artístico da música ser opcional, é muito raro uma criança manifestar o desejo de ser profissional nesta área a partir do momento em que se candidata a uma escola de música. Nesta idade, a criança é muito permeável às motivações dos próprios pais e do ambiente familiar. É possível que a criança manifeste vontade de estudar um determinado instrumento musical, mas essa manifestação não inclui a compreensão legítima das implicações desse mesmo estudo. Por essa razão, o papel desempenhado pelos pais e pelo professor é essencial no desenvolvimento do envolvimento e compromisso da criança no processo.

Benefícios da música

Mas os potenciais benefícios da música no comportamento humano não estão apenas dependentes da disponibilidade para aprender a tocar um instrumento. Mesmo não tendo nenhum talento musical, eu – como uma jovem mãe – encontro-me continuamente a cantar e a criar músicas para os meus filhos, como se fosse algo tão natural como foi ensinar-lhes as primeiras palavras. Crio músicas divertidas enquanto estou a conversar com eles para prender-lhes a atenção, para a hora de lavar os dentes, de arrumar os brinquedos ou enquanto estou a vesti-los para a escola. Acabei por perceber que a maioria dos pais, mesmo aqueles que como eu não se descrevem como indivíduos musicais, têm exactamente o mesmo instinto, mesmo que seja apenas na hora de dormir. Um grupo de investigadores do Laboratório Internacional do Cérebro, Música e Som em Montreal também se interessou pela razão pela qual os pais frequentemente cantam para os filhos e se seria exclusivamente o canto a produzir impactos positivos, ou se o efeito também estaria relacionado com a atenção ou ao toque suave dos pais enquanto cantam para os seus filhos. Embora já se soubesse que as crianças são sensíveis à voz humana em geral, e particularmente atentas à voz materna, esse estudo permitiu demonstrar o que os pais muito cedo também percebem: que o canto é um estímulo poderoso para uma criança. As vozes dos pais quando cantam para os filhos funcionam como uma fonte de segurança e estimulação, conseguindo mais facilmente captar a atenção deles, e, principalmente, influenciar a expressão e a regulação das emoções da criança. O mesmo grupo demonstrou, também que não era unicamente a presença dos pais que promovia esse impacto emocional positivo nas crianças, porque mesmo o canto de desconhecidos consegue, ainda, ser mais eficaz para os bebés do que a fala. De facto, muitos estudos têm demonstrado que a música tem uma importante função desenvolvimental para os humanos e que o canto dos pais, dirigido para os seus filhos, promove o desenvolvimento social, emocional e cognitivo das crianças.

Propósito final da música

Talvez, e após ler este texto, aqueles que nunca aprenderam a tocar um instrumento estejam a pensar na dimensão do que não foi desenvolvido do seu próprio potencial. Por isso, será importante salientar o propósito final da música: podemos aceitar que ela existe para iluminar os olhos de quem a ouve (e, como dirão os neurocientistas, antes disso, iluminar muitas áreas cerebrais); para encorajá-lo a movimentar-se e dançar, perdendo todas as inibições; e para libertá-lo das amarras do momento presente, permitindo uma fuga para qualquer lugar que queira visitar. E talvez já tenha razão suficiente para fazer um caminho de retorno. Comece por ir à procura da sua antiga flauta escondida em alguma gaveta.

Para os que aprenderam a tocar um instrumento, esses nunca saberão o que é existir sem ter disponível a habilidade de despertar essa força humana e, talvez, só possam imaginar que a falta dessa habilidade represente um certo tipo de pobreza.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº4 de Junho de 2018.