Patricia Oliveira-Silva, Directora do Human Neurobehavioral Laboratory (HNL)

Os humanos já nascem com muitas capacidades notáveis. E não haverá demasiados riscos em assumir que a mais notável de todas elas, presente ainda antes do nascimento, seja a sua prontidão para aprender.

Com aproximadamente dez mil milhões de células nervosas no seu cérebro ao nascer, um bebé não traria uma bagagem tão pesada sem um propósito claro. De facto, parece consensual que esse propósito seja permitir que o processo de aprendizagem ocorra.

Da perspectiva das neurociências, aprendizagem significa o processo pelo qual as experiências alteram física e estruturalmente o sistema nervoso, e, consequentemente, influenciam o comportamento desse indivíduo. Nesse sentido, conseguimos mais facilmente perceber por que precisamos de um cérebro tão grande à nascença. São necessárias milhões de células nervosas para aprender uma única língua e as suas nuances; outros tantos milhares para aprender as desafiantes habilidades sensório-motoras do início da vida (por exemplo, para mover-se em direcção ao que lhe agrada, para sorrir e captar a atenção dos que o observam, para dar os primeiros passos e pronunciar as primeiras palavras); para responder a um número extraordinário de estímulos; para gerir a complexa experiência emocional que acompanha todas as nossas experiências; e esta lista de novas aprendizagens, que são sustentadas por milhares de células nervosas, não se esgota. Essa tarefa, exigente e ininterrupta ao longo da vida, vai sempre depender de três constituintes básicos: o amadurecimento ou a prontidão para aprender, a riqueza dos estímulos que são oferecidos a cada experiência e, finalmente, o aparato biológico ou um cérebro funcional.

Mas há ainda um outro desafio gigantesco inerente ao desenvolvimento desse mesmo bebé, que é aprender a aprender. É para responder a esse desafio que os pais e educadores têm procurado incessantemente respostas nas Neurociências. Eles também querem aprender a educar, ou a ensinar, esses jovens cérebros.

Aprender a aprender

Durante a década de 90, baptizada como a “Década do Cérebro”, quando surgiu uma intensa curiosidade sobre o mesmo, profissionais de diferentes áreas perguntavam- se como as neurociências poderiam ser aplicadas à Educação (não somente para a educação formal, dependente da actuação de um professor e implementação de um plano pedagógico, mas para todos os outros tipos de aprendizagens, como, por exemplo, a educação mais intuitiva oferecida pelos pais aos seus filhos). Por outras palavras, havia uma inquietude incessante na procura de uma resposta para a pergunta: “Como o cérebro aprende?” Lembro-me de escutar frequentemente opiniões ruidosas que diziam que o casamento entre as Neurociências e a Educação seria altamente improvável. E haveria, em especial, uma incompatibilidade de fundo à partida: o desafio de desenvolver um vocabulário comum. Por razões complexas, a ciência é rica em jargões específicos para cada área, criando uma espécie de código secreto, acessível apenas para aqueles que dedicaram anos de vida Educaa decifrar esse vocabulário. Cá estaria um grande obstáculo a ser ultrapassado por essas duas disciplinas que tentavam interagir e compreender-se mutuamente.

Neste momento, o que no passado era uma incompatibilidade, poderá ser um problema potencialmente mais danoso: há tanto interesse nessa parceria entre as Neurociências e a Educação, e há tanta informação disponível, que tendemos a simplificar excessivamente o conhecimento que acumulamos nesse domínio, numa tentativa de encontrar receitas prontas para os vários desafios a serem vencidos pelos pais, professores e escolas. E, nesse domínio, há uma simplificação que podemos usar sem receio: “No que diz respeito ao processo de aprendizagem (assim como no que diz respeito a vários outros domínios humanos), não há receitas prontas!”

Aprender a educar

A Faculdade de Educação e Psicologia (FEP), na Universidade Católica Portuguesa, no Porto, possui um programa de formação chamado “Aprender a Educar”, desenvolvido a pensar em todos aqueles que reconhecem a necessidade de aprender e de reflectir mais sobre a tarefa de educar. O “Aprender a Educar – Pais” está actualmente a celebrar o seu 14.º aniversário, e tem oferecido a vários grupos de pais, educadores e outros profissionais uma sessão intitulada “Como funciona o cérebro da criança que aprende? – Neurociência e Comportamento”, que tem como objectivo disponibilizar recursos de apoio, que parecem suficientemente sólidos dentro do domínio das Neurociências, e que pode ajudar os participantes a ultrapassar eventuais dificuldades na complexa tarefa de educar. Durante essas sessões, alguns dos pontos recorrentemente discutidos são os circuitos cerebrais básicos que sustentam as acções parentais, o desenvolvimento infantil, a influência das experiências precoces, o processo de aprendizagem, a regulação emocional, a importância dos aspectos sociais no desenvolvimento de um jovem indivíduo e vários outros domínios da investigação nas Neurociências, já com bastante evidência para apoiar decisões que tenham impacto directo na aprendizagem.

O sucesso dessa iniciativa reflecte a atitude e o empenho dos profissionais de ambas as áreas para fortalecer essa parceria. É frequente o entusiasmo com o qual profissionais dessas áreas (quer das Neurociências, quer da Educação) vêem o interesse dos pais, dos educadores e de outros profissionais, por essa interface entre a Educação e as Neurociências. Podemos assumir que esse interesse reflecte um entusiasmo genuíno e apropriado à responsabilidade que carregam, ou seja, estão a cada actividade e a cada interacção a modificar o padrão de funcionamento e a própria estrutura dos cérebros das crianças (sejam os seus filhos ou alunos).

Aspectos que parecem muito simples nas experiências diárias de uma criança – e que não recebem grande ênfase no quotidiano – como o estilo de narrativa utilizada durante as interacções, a disponibilidade física e emocional daqueles com os quais se relaciona, o equilíbrio delicado entre a novidade e a familiaridade das experiências, o padrão de recompensa (ou as ameaças de punição), todos esses aspectos têm implicações extremamente complexas para um jovem indivíduo. Esses simples aspectos têm potencial para influenciar o processamento de estímulos, a manipulação da informação disponível e, consequentemente, a forma como esse mesmo indivíduo responderá às experiências futuras (ou seja, o seu comportamento).

Um desafio

Se é um dos vários entusiastas pelo sucesso da parceria Neurociências-Educação, será prudente da minha parte realçar que tem diante de si uma tarefa desafiante, principalmente se tenciona seleccionar o que é de qualidade e útil nesse oceano de informação e contradições, que define essa nova e empolgante área, que atende algumas vezes pelo nome de Neuroeducação. Mas não se deixe desmotivar pelo desafio! Antes de finalizar este texto, tenho, ainda, boas notícias para lhe dar.

Achados recentes das Neurociências têm apresentado resultados promissores, que demonstram que o cérebro que aprende matemática precisa construir as representações numéricas simbólicas, tal como necessita de construir o alicerce necessário para a leitura e escrita. Estas descobertas têm ajudado, também, a explicar como a privação de sono afecta áreas cerebrais importantes para a atenção e o controlo da impulsividade, e porque as escolas precisam de flexibilizar os seus horários com o objectivo de alcançar ganhos na aprendizagem; têm desconstruído os estereótipos culturais baseados num padrão de percepção diferenciado, que existe entre homens e mulheres, e que afastam ambos os sexos de determinadas oportunidades profissionais; têm explorado o cérebro adolescente e demonstrado que esse representa uma janela de oportunidade para que pais e educadores possam optimizar o desenvolvimento de habilidades cruciais para o sucesso académico e para a satisfação profissional; têm defendido arduamente que a forma mais eficaz de educar um jovem cérebro é através do investimento na qualidade das interacções sociais; e têm continuamente desconstruído inúmeros mitos relacionados com o funcionamento do cérebro.

Ao longo dos últimos anos, tenho sido uma profissional da educação e da investigação nas Neurociências. Mas orgulho-me particularmente de, assim como o leitor que me conseguiu acompanhar até este ponto, continuar entusiasmada com a possibilidade de aprender mais sobre um jovem cérebro em desenvolvimento e como o cérebro humano funciona nas dimensões mais complexas do seu comportamento, ou nas tarefas mais elementares do seu quotidiano. Como representante de um laboratório de Neurociências, assumo prontamente a responsabilidade de estabelecer e fortalecer outras pontes de comunicação, que permitam a transferência das descobertas que ocorrem dentro dos muros das universidades para as salas de aulas.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº5 de Setembro de 2018.