Cristina Valente, Trainer do Treino das Emoções para Pais e Filhos, coach parental e escritora

A maioria dos adolescentes sente bastantes dificuldades em viver em famílias recompostas.

Quando entra um novo elemento para a família (por exemplo, um padrasto) e devido a novas regras que possam ser implementadas em casa, os adolescentes começam, muitas vezes, a ser tratados novamente como crianças e a sentir a sua independência ameaçada.

Não apenas a independência, mas também a privacidade. Muitos acabam por ter que dividir o seu quarto com os filhos dos companheiros dos pais. Ora bem, ser filho de pais separados, órfão ou enteado pode, por uma infinidade de razões, desafiar o sentido de pertença e de importância de qualquer adolescente e a sua capacidade para formar uma relação de confiança e de proximidade, quer com os seus próprios pais, quer com madrastas ou padrastos que possam surgir na sua vida.

“Tu não és minha mãe!”

Se um adolescente trata mal alguém com quem o pai ou a mãe vive, o progenitor tem que actuar imediatamente. É primordial que o adolescente perceba que existem ali dois adultos que se respeitam e se apoiam um ao outro e que se vão ocupar correctamente da sua educação. O sentimento-chave é carinho e firmeza, ao mesmo tempo!

Nunca se deve nem defender nem acusar o adolescente perante o outro adulto, mas também nunca se deve ignorar a situação. Não tem que haver castigo, mas sim uma força moral clara, que não deixe margem para dúvidas.

Num divórcio, a guarda, geralmente, ainda é atribuída à mãe

O trabalho de quem fica com a guarda dos filhos é árduo, mas agrava-se quando estes chegam à adolescência. Para além de todos os desafios, as mães deverão também aprender a escutar e a contar sempre a verdade.

Por exemplo, as explicações simples que se dão durante a infância e que deixam a criança satisfeita – sobre um pai que parte (por morte ou separação), ou um pai que nunca “existiu”, deixam de funcionar nestas idades! Na adolescência, o filho volta a tocar nestes temas. Desta vez, no entanto, ele será mais específico e colocará ao adulto questões mais difíceis, inteligentes, dolorosas, perspicazes, mas que não podem deixar de ser respondidas. Como, por exemplo: “O que é que o meu pai dizia de mim?”; “Como é que o meu pai era?”; “Por que é que nunca me contaste que, afinal, nunca fui desejada?!”; “Se a mãe era assim tão má, por que é que te casaste com ela?”.

O meu conselho é: faça o que fizer, não arranje desculpas para justificar o seu comportamento nem o do seu ex. Diga simplesmente a verdade. Se o adolescente descobrir mais tarde (o que é bastante provável) que lhe mentiu em relação aos pormenores, facilmente perderá todo o respeito por si!

A difícil missão dos pais sem guarda

A tendência dos pais que não têm a guarda dos filhos adolescentes é a de investirem todo o (pouco) tempo livre que têm com o filho em idas ao cinema e ao centro comercial, almoçar, visitar amigos que também tenham filhos.

Deixe-me dizer-lhe que em vez de centrar- se em programas, deve centrar-se na pessoa do adolescente. Em vez de se concentrar no “fazer”, concentre-se no “estar”. Como habitualmente estão pouco tempo com os filhos, a tendência destes pais é planearem antecipadamente cada minuto do tempo de visita e tentar divertir- se ao máximo com o filho. Mas isso faz apenas com que cheguem ambos ao final da visita exaustos.

É verdade que geralmente os miúdos adoram estes programas com o “pai-que-não-vive-com-eles”, mas do que mais precisam é de verem os pais em situações do quotidiano, em contextos normais, precisam de conversar com eles num ambiente tranquilo e íntimo. Conversas fáceis e leves, mas também as mais dolorosas e tristes. Só conversando “a sério” com o adolescente poderemos descobrir as suas reais necessidades emocionais!

Problemas mais comuns de pais single

Problema número 1: Dois pais, dois estilos de educação, um adolescente.

Um dos grandes erros da educação nos casos de separação é a falta de coerência na parceria parental. Quando pai e mãe não estão de acordo relativamente aos pontos essenciais da educação, o filho aprende a manipular tanto um como o outro.

Por isso, um dos desafios mais comuns que os pais single enfrentam no seu quotidiano familiar é a diferença entre estilos parentais. Os casos mais graves são aqueles em que existe autoridade numa das famílias e permissividade na outra, em que um dos adultos esforça-se para ser, sobretudo, um “amiguinho”. Eis um desabafo bastante comum: “O meu filho acaba por preferir passar a maior parte do tempo com o pai, porque sabe que lá não há regras! Nunca esperei que tivesse que escolher entre ter o meu filho por perto e desistir de fazer aquilo que considero que é o mais sensato!”

As mães (ou pais) que desabafam algo do género são penalizados pelo facto de estarem a tentar fazer as coisas de forma correcta e o que consideram ser o melhor para os filhos. É algo que não é fácil de se lidar. Por um lado, não querem desistir do seu estilo de educação nem dos seus valores, mas por outro não querem prejudicar o relacionamento com os seus adolescentes. Este é o padrão que vemos em situações de divórcio, sobretudo os litigiosos: um dos pais a tentar manter uma atitude firme enquanto o outro permite que os teens cresçam sem consequências. É desastroso quando um dos pais está a fazer um trabalho duro e o outro lhe tira o tapete.

Apesar de ser um conselho muito difícil, costumo encorajar estes pais e mães a nunca desistirem! Acontecem coisas maravilhosas quando confiamos no nosso amor e nos nossos valores e quando procuramos aconselhamento de confiança; quando temos a sabedoria para esperar o tempo que for preciso para começarmos a ver mudanças; quando aprendemos a lidar com as adversidades. E quando sabemos que alguns resultados podem não surgir imediatamente.

Faça o que fizer, não desista! O esforço vale a pena e o seu filho irá mais longe porque amou-o o suficiente para fazer o que era certo.

Problema número 2: Sentir-se sozinho.

É inevitável que um single acabe por se sentir, mais cedo ou mais tarde, bastante sozinho. Agarre-se firmemente àquilo em que acredita! Estabeleça regras, limites e consequências previamente e não quando os problemas acontecem! Não cometa o erro de desistir das suas referências e valores, só porque se sente cansado ou desencorajado. Não permita que o desencorajamento e a falta de retorno positivo e apoio o façam desistir, pois não é disso que o adolescente precisa neste momento da sua vida!

Esforce-se por criar uma rede de suporte, sejam instituições – igrejas, associações, grupos de apoio para pais como aqueles que habitualmente dinamizo pelo país – ou então amigos e família. Construir uma rede sólida de pessoas com uma mentalidade parecida com a sua é uma das ajudas mais valiosas que pode ter nesta fase da sua vida!

Todos os pais single devem fazer novas amizades ou reatar algumas antigas (que valham a pena!) para que possam reduzir o stress causado pelo peso das suas responsabilidades actuais.

Problema número 3: Desejos irrealistas dos adolescentes.

Muitos adolescentes, filhos de pais separados, têm sonhos irrealistas, já para não falar do sonho secreto de verem os pais novamente juntos. “Adorava que o pai viesse ver o jogo comigo”, o adolescente sonha com isto, mesmo sabendo que o pai vive no Norte, voltou a casar, tem dois filhos e o mais novo acabou de nascer! “A mamã vai comprar-me uma mota”, mesmo que “saiba” que a mãe mal consegue pagar as despesas de casa! Estes sonhos impossíveis fazem parte da imaginação do adolescente. É uma tentativa subconsciente de ter o tipo de família que deseja. A reacção natural é a de fazer o filho regressar ao planeta Terra. Mas isso é um erro.

É muito melhor acolher os sonhos do seu filho e deixar que a realidade faça o resto: “Gostavas que o pai viesse ver o jogo contigo? Olha, isso é que era! Bem pensado, eu também iria ficar muito feliz se tal acontecesse!”

Dar este tipo de resposta ajuda o adolescente a afirmar-se como pessoa e não corremos o risco de o magoarmos com respostas amargas. Se, ao contrário, respondermos com negatividade e pessimismo, estaremos a ensiná-lo a esconder-nos os desejos e a desistir de desabafar connosco. Faz sentido?

Pelo contrário, se aceitarmos e estimularmos os seus desejos, estaremos a abrir um canal de comunicação e a promover o fluxo de informação valiosa com ele. Além disso, muitas vezes, o próprio adolescente sabe perfeitamente que os seus sonhos são impossíveis ou muito difíceis de se realizarem, mas sonhar faz parte da sua forma de lidar com realidades longe das ideais.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº2 de Novembro de 2017.