Miguel Nery e Carlos Neto, Psicólogo clínico e investigador | Professor catedrático

O bullying sempre existiu, tendo somente sido estudado de forma sistemática a partir da década de 1970.

Em Portugal, os estudos começaram mais tarde e inicialmente poucas pessoas tinham ouvido falar do tema. Hoje, fruto da propagação de informação, nomeadamente através da comunicação social, é um fenómeno muito falado. Esta divulgação foi importante, mas a difusão massiva de informação deu azo a muitas interpretações erradas do conceito. Este espaço dedica-se fazer uma breve descrição compreensiva do bullying escolar.

Dinâmicas de poder

Os humanos organizam e regem a vida comunitária com base em normas sociais e dinâmicas de poder. As hierarquias e papéis atribuídos a cada um dos elementos de uma comunidade têm fortes repercussões no comportamento social, influencia a forma como cada um é percebido pelos outros.

As dinâmicas de poder per se não são um problema, mas, quando entramos no campo de dinâmicas perversas e coercivas, em que há um abuso sistemático de poder por parte de elementos mais poderosos relativamente a elementos mais vulneráveis e desprotegidos, então podemos estar a falar de bullying. Assim sendo, é fácil perceber por que este fenómeno é tão antigo quanto os homens, e impossível de ser resolvido na sua totalidade. Os abusos de poder, nas suas diversas formas, sempre existiram, recorrendo a diferentes mecanismos para exercer coerção e domínio, resultando frequentemente em consequências nefastas a nível individual e colectivo (entidades e comunidades). Este tema merece ser foco de atenção, e deve haver um empenho muito grande na redução da prevalência destes comportamentos e na mitigação das suas consequências.

É fundamental (e difícil) reflectir sobre as formas de relação coercivas e agressivas a que assistimos diariamente, o papel desempenhado por cada um de nós na promoção e/ou manutenção das mesmas (nomeadamente o papel da indiferença), nos diversos factores em que se baseia o nosso comportamento (e.g.: crenças, atitudes, cultura, personalidade individual, pressões de grupo, etc.), o que remete naturalmente para pensarmos na natureza humana e na forma como nos relacionamos.

Definição de bullying

Antes de avançarmos para uma definição de bullying, é importante diferenciar este tipo de comportamentos de outros com os quais são frequentemente confundidos. O primeiro consiste na indisciplina. Esta tem origem na relação pedagógica, e consiste na quebra de regras neste âmbito. Os conflitos entre alunos são também frequentemente confundidos com bullying. Os alunos não têm de gostar de todos os colegas. Os conflitos tendem a ser circunstanciais, consistindo, muitas vezes, no confronto entre ideias e vontades opostas. Quando bem mediados, podem ser uma alavanca para o desenvolvimento, na medida em que a sua resolução positiva pode ser usada como forma de potenciar o desenvolvimento pessoal e tolerância. Por fim, é importante referir as brincadeiras. Se é verdade que os agressores tendem a desvalorizar os seus comportamentos, dizendo que estavam “só a brincar”, muitos jovens têm brincadeiras entre eles que aos olhos de um adulto podem erradamente ser interpretadas como bullying. As brincadeiras podem consistir em provocações verbais ou confrontos físicos de luta a brincar. Na brincadeira, existe uma simetria de poder entre os indivíduos, que frequentemente trocam de papéis (quem ataca, e quem é atacado). As brincadeiras são sentidas como divertidas por ambas as partes e promovem o companheirismo. Então, afinal, o que é o bullying? Este pode ser definido como uma relação anti-social e agressiva entre pares (alunos), repetida e intencional, em que existe uma assimetria de poder entre o agressor e a vítima e esta última não consegue defender-se. O bullying consiste no abuso sistemático de poder, com consequências negativas para os envolvidos.

Existem diferenças entre os rapazes e as raparigas?

Os rapazes normalmente envolvem-se mais em episódios de bullying, e recorrem mais a ataques verbais e físicos, uma vez que estes permitem mais fácil e eficazmente estabelecer a dominância física. Tendem a vitimizar colegas de ambos os sexos. As raparigas também participam no bullying, existindo uma maior tendência para recorrerem a formas de bullying mais subtis, nomeadamente o bullying social. Procuram valorizar a centralidade na rede de relações, e restringirem- no mais a outras meninas.

Os rapazes têm maior propensão para ser agressores e/ou auxiliarem e reforçarem a agressão, enquanto as raparigas têm maior tendência para desempenhar papéis de suporte e defesa das vítimas.

Como evoluem os comportamentos?

A frequência dos comportamentos de bullying tende a aumentar a partir do início do primeiro ciclo até cerca dos 13 anos, altura em que tendem a diminuir. Esta tendência manifesta-se ao longo do ensino secundário. No entanto, a gravidade dos episódios de bullying entre os adolescentes tende a aumentar. As crianças mais novas recorrem mais ao bullying físico, e com o passar do tempo substituem-no progressivamente pelo bullying verbal e social.

Bullying na escola.

O que acontece?

Os comportamentos de bullying podem ser agrupados em várias categorias, de acordo com as suas características. As formas tradicionais de bullying mais conhecidas consistem no bullying verbal (e.g.: gozo, ofensas, humilhação), o bullying social (e.g.: exclusão, espalhar boatos) e o bullying físico (e.g.: pontapés, murros). Esta distinção é meramente teórica, porque na vida real os episódios de bullying tendem a ser caracterizados pela combinação de diferentes categorias. Recentemente começou a focar-se a atenção num novo tipo denominado cyberbullying, que consiste na perpetuação do bullying através da internet e uso da tecnologia. Este tem características particulares, como a maior facilidade de anonimato por parte dos agressores, assim como a rápida e massificada propagação dos conteúdos agressivos, como partilha de fotografias íntimas ou boatos. Actualmente, e dada a massificação da internet, as crianças e jovens estão especialmente expostos a este tipo de bullying. É necessário alertar para as boas práticas no uso da internet para evitar uma exposição pessoal excessiva e prevenir situações futuras.

Por que acontece?

O bullying é um fenómeno extremamente complexo. No entanto, existem três factores primordiais para a sua compreensão: os perfis das vítimas e agressores, a cultura escolar e os fenómenos de grupo.

Os agressores são mais confrontativos, gostam de sentir controlo e exercer domínio sobre os colegas. Tendem a apresentar uma menor tolerância à frustração e serem mais desafiantes face a pares e aos adultos. Por seu lado, as vítimas tendem a ser jovens mais tímidos, com falta de assertividade e forte retracção face ao conflito. Exibem frequentemente dificuldades na relação com os pares, baixa auto-estima e são mais isoladas. Estes perfis são generalizações, não abarcando naturalmente todas as situações.

Apesar de o bullying poder estar presente em todas as escolas, a cultura escolar influencia a prevalência dos comportamentos. É necessário que seja promovido um clima escolar seguro, inclusivo e respeitador, que não tolere comportamentos de bullying e desenvolver procedimentos para fazer face ao problema. É importante estimular continuamente os alunos para a tolerância e o relacionamento interpessoal positivo. Um ambiente escolar desfavorável constitui uma fonte de vulnerabilidades à integração e segurança de toda a comunidade educativa, e facilita a ocorrência de comportamentos anti-sociais, nomeadamente o bullying.

Os grupos de pares são muito importantes para os jovens, especialmente para os adolescentes, permitindo que estes ensaiem vários papéis, testem os seus pontos de vista e afiram a sua aceitação social. A compreensão dos fenómenos de grupo é essencial para ajudar a explicar o bullying. A pressão de pares leva a que muitos jovens ajam em conformidade com o que consideram ser esperado dentro do grupo, o que pode levar a terem comportamentos que são dissonantes face ao seu padrão de conduta, e até contrários ao que consideram correcto. Vários comportamentos de bullying consistem numa tentativa de atingir popularidade e um estatuto social elevado, através do ataque aos membros menos populares e mais fragilizados.

Quem está envolvido?

Os alunos desempenham diferentes papéis nos episódios de bullying. Para além dos agressores e das vítimas, é importante considerar os observadores e as chamadas vítimas-agressivas.

Os observadores dividem-se em gestores de conflitos, os que apoiam as vítimas, os que assistem sem fazer nada e os que apoiam o agressor. Os mediadores de conflitos são alunos que interferem quando assistem a episódios de bullying, mediando a situação através do diálogo com vítimas e agressores, na procura de resolução do problema. Os observadores que apoiam as vítimas são aqueles que, perante um episódio de bullying, defendem a vítima. A maioria dos observadores encaixa-se no grupo dos alunos que assistem sem interferir, enquanto uma minoria tende a apoiar o bullying. O apoio ao agressor pode ser feito através de comportamentos subtis como o riso, que consiste numa forma de aprovação e promove a continuidade dos comportamentos.

É importante saber identificar qual o papel desempenhado com cada aluno nos episódios de bullying para se actuar em conformidade.

Conclusão

Não existem “receitas mágicas” para a resolução do bullying. Ao longo dos anos, foram desenvolvidos vários programas eficazes e com resultados comprovados. Para prevenir e actuar de forma mais eficaz, há que conhecer a natureza deste fenómeno altamente complexo e pensar nas boas-práticas, tendo em consideração cada contexto e situação. Quanto mais soubermos, melhor podemos prevenir e actuar!

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº6 de Dezembro de 2018.