Pedro Queiroz, Especialista em Nutrição e fundador da Clínica de Nutrição do Porto e da Clínica de Nutrição de Lisboa

O glúten desde sempre foi usado na alimentação das populações, jovens e menos jovens.

Mas com o avanço da alimentação, mudanças de estilo de vida e opção por alimentos cada vez mais saudáveis há que verificar se a utilização de glúten na alimentação continua a fazer sentido. Antes de mais esclarecer que só aqueles que têm doença celíaca ou são intolerantes não podem consumir glúten sob nenhuma forma, com o risco de favorecerem a degeneração da mucosa digestiva e provocar complicações graves de saúde. Mas e aqueles que não são intolerantes ao glúten? Há que restringir o seu consumo? Mesmo quando estão em desenvolvimento, como é o caso de crianças e adolescentes?

Glúten: sim, não ou talvez?

Antes de mais o glúten é um conjunto de proteínas existentes em alguns cereais, como o trigo, centeio ou cevada e, embora no centeio e na cevada o seu teor seja mais reduzido, nos celíacos o seu consumo deve ser evitado. Convém também lembrar que doentes celíacos correspondem apenas a cerca de 1% da população e nos casos em que se detectam alterações intestinais, como idas frequentes à casa de banho, cólicas ou dores abdominais, atrasos de crescimento, distinção ou inchaço abdominal, anemias, cansaço e outros sintomas relacionados, há que diagnosticar esta doença através de colonoscopia. Este diagnóstico é especialmente importante no caso das crianças e adolescentes, pois a não detecção poderá levar a atrasos de crescimento consideráveis e problemas gástricos futuros.

Mas a boa notícia é que é possível viver uma vida tranquila e perfeitamente normal naqueles casos onde o seu consumo não é desejado. A escolha alimentar adequada e ajustada a cada pessoa deverá ser o mote para um ajuste alimentar que permita um correcto desenvolvimento. Felizmente também a escolha por alimentos “Sem Glúten” está cada vez mais facilitada, devido ao elevado número de alimentos e produtores que apostam neste segmento.

Em pessoas saudáveis o seu consumo não necessita de ser restringido, pois o organismo consegue lidar bem com ele. Mas quando queremos evitar a fermentação abdominal e facilitar o processo digestivo, há por vezes que fazer esta opção. Mas aqui a regra não será simplesmente cortar, mas sim ajustar todo o plano alimentar para que não haja incompatibilidades e principalmente carências de outros nutrientes.

Como vimos o glúten é um conjunto de proteínas essencialmente presentes no trigo e em todos os alimentos que contêm trigo, onde se destacam o pão (que utiliza esta farinha), a massa e a grande maioria de bolachas. Ou seja, alimentos que geralmente são muito consumidos pela população mais jovem, pelo que a detecção precoce de qualquer intolerância pode ajudar e muito na qualidade de vida e potencial de crescimento destes jovens.

Importante referir que a retirada pura e simples do glúten da alimentação pode trazer riscos, porque o glúten é importante no controlo do nível de açúcares no sangue e triglicerídeos, contribuindo também para a absorção de certas vitaminas e minerais, mas principalmente o seu papel de destaque é no reforço da flora intestinal e protecção do sistema imunológico. Assim podemos reduzir o seu consumo, controlar até a sua ingestão, mas retirar pura e simplesmente poderá não ser a opção mais sensata, excepto se de facto existir doença. Encontre um bom gastroenterologista e em conjunto com o seu nutricionista ajuste o plano alimentar. A sua saúde agradece.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº6 de Dezembro de 2018.