Por Filipa Rouxinol | Psicóloga do Centro Multidisciplinar do Adolescente do Hospital Lusíadas Porto; Hugo Braga Tavares | Pediatra e coordenador do Centro Multidisciplinar do Adolescente do Hospital Lusíadas Porto

É um dos momentos mais temidos pelos pais e, simultaneamente, um dos mais desejados pelos filhos: a primeira ida de férias só com os amigos. A ocasião é um marco na autonomia dos adolescentes, mas deve ser preparada com algum cuidado por pais e filhos. Saiba como

A primeira ida de férias será sempre um momento difícil para os pais. «Apesar de todo o trabalho antecipatório possível (e desejável), nada prepara devidamente os pais para estas primeiras – eu diria mesmo para todas as – saídas dos filhos do seu “ninho”», reforça o pediatra Hugo Braga Tavares, coordenador do Centro Multidisciplinar do Adolescente do Hospital Lusíadas Porto, acrescentando que «os pais só descansarão quando, finalmente, os filhos regressarem a casa “sãos e salvos”». Filipa Rouxinol, psicóloga do Centro Multidisciplinar do Adolescente do Hospital Lusíadas Porto, corrobora esta visão e acrescenta que estas primeiras férias com amigos são, muitas vezes, «o primeiro momento em que os pais se confrontam com o evidente crescimento do seu filho, ou quando se torna mais clara a sua autonomização, e nem sempre é fácil». Como proceder, então? Com muita calma, de forma realista e sempre em diálogo, avalie se a sua família está pronta para este momento e antecipe os pormenores da viagem com o seu filho.

Qual a idade certa?

Apesar de não haver dois adolescentes iguais, Filipa Rouxinol acredita que, «a partir dos 17/18 anos, os adolescentes já terão desenvolvido competências essenciais, as quais podemos associar à maturidade, e que lhes permitirão ir de férias com os amigos». Mais do que guiar-se por uma idade certa, avalie estas competências essenciais no seu filho:

Regulação emocional

Ser capaz de tomar decisões razoáveis, seguir instruções, controlar a frustração e lidar com problemas do quotidiano;

Assertividade

Poder discordar de outra pessoa, defendendo um ponto de vista sem ser desagradável;

Humildade

Ser capaz de reconhecer o valor dos conselhos e opiniões dos pais e dos professores;

Capacidade de planeamento e antecipação de consequências

Perceber o que necessita para atingir determinados objectivos, antecipando consequências positivas ou negativas.

Quais os principais riscos?

No geral, tenha presente alguns riscos reais transversais: consumo excessivo de álcool ou drogas; roubos ou ameaças à integridade física; relações sexuais desprotegidas; ceder à “adrenalina” ou à pressão do grupo com comportamentos de risco.

«É importante perceber que estes riscos existem também no dia-a-dia dos adolescentes », destaca Hugo Braga Tavares. No entanto, a sensação de “liberdade” em férias, sem controlo parental, acaba por poder potenciar estes riscos.

Que recomendações e alertas deve dar?

O ideal é que os conselhos de segurança e alertas sobre comportamentos de risco sejam temas já abordados anteriormente em família. É importante apostar na discussão destes temas ainda antes de se colocar a hipótese das férias, utilizando momentos espontâneos.

Depois de autorizar as primeiras férias, relembre alguns conselhos de segurança ao seu filho. Ajude-o a definir planos de resposta a diversas situações práticas que o possam colocar em risco. Faça-o «num ambiente seguro e sem distracções (como o telemóvel ou a televisão) e de uma forma calma, coerente e assertiva», partilhando a sua própria experiência de viagens com amigos quando era adolescente, sugere Filipa Rouxinol.

Comece por abordar estas situações de risco e deixe o seu filho explorar a forma como reagiria a cada cenário (converse com ele, não estabeleça apenas um monólogo).

Boleias com estranhos ou amigos que tenham ingerido bebidas alcoólicas; consumo de álcool e drogas (riscos do consumo e riscos associados, como a compra da substância ou o risco físico pela perda de discernimento); partilha de bebidas ou aceitá-las de estranhos; situações de risco físico associadas a “adrenalina”, como banhos em zonas não vigiadas ou desportos radicais; comportamentos sexuais de risco; exposição prolongada ao sol associada a riscos de queimaduras solares e de insolações.

Outras questões práticas

Aproveite estas conversas antes da viagem para abordar outras questões práticas, como segurança pessoal em locais desconhecidos, uso de dinheiro (valor diário que vão necessitar, como guardar dinheiro de forma segura e precauções de segurança no uso do ATM), contactos de emergência (de autoridades, serviços de emergência, do local onde vão ficar alojados e de um adulto de referência), horas de comunicação (combine uma hora específica diária para comunicarem) e uso de redes sociais (sobretudo a importância de não partilhar a sua localização em tempo real). Converse também sobre as suas expectativas em relação à viagem – e cruze-as com as expectativas do seu filho. Desta forma, conseguirá definir limites e torná-lo mais consciente de que é responsável pelas suas escolhas durante as férias – e pelas possíveis consequências. Além dos riscos e conselhos de segurança, aconselhe-o a manter boas refeições e a descansar.

Como garantir a segurança do seu filho?

É impossível garantir, de forma absoluta, que o seu filho adolescente não correrá nenhum risco durante as férias. No entanto, esta é uma prova de confiança importante no reforço da sua autonomia – que o preparará para uma vida adulta sem a protecção dos pais.

Prepare, planeie e confie. Apesar de não conseguir controlar o seu filho à distância, é possível diminuir riscos com conselhos e um planeamento adequado da viagem. Como reforça Hugo Braga Tavares, «a melhor forma de minimizar os potenciais riscos é planear com o adolescente estratégias para os evitar, garantir linhas de contacto e, sempre que possível e desejável, ter supervisão de um adulto de referência». Estabeleça «uma relação segura e compreensiva, que permita uma comunicação aberta, baseada na resolução de problemas e na antecipação de consequências», aconselha, por seu lado, Filipa Rouxinol. E, sobretudo, equilibre na balança a sua preocupação e a confiança que deposita no seu filho. Ou seja, «ao mesmo tempo que revela os seus receios, deve transmitir confiança ao adolescente de que ele será capaz de lidar de forma adequada com todas as situações que possam surgir».

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº4 de Junho de 2018.