Margarida Lobo Antunes, Pediatra

A epidemia da obesidade infantil em idade pediátrica afecta em todo o mundo cerca de 155 milhões de crianças em idade escolar.

Esta questão tornou-se de tal forma preocupante que motivou Margaret Chan, enquanto directora-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), a emitir o seguinte comunicado: “Pela primeira vez na história, esta geração de crianças pode ser a primeira a viver menos tempo do que a dos seus pais.” Este conceito é realmente assustador e é de notar que, dos 35 milhões de óbitos anuais por doenças não contagiosas, 40% são mortes prematuras causadas por enfartes, diabetes e asma, cada vez mais comuns entre os jovens. Sabendo as causas, consequências e formas de prevenir a obesidade infantil, custa a aceitar este crescimento exponencial.

Situação em Portugal

Infelizmente esta epidemia já chegou a Portugal e, por ser a doença crónica mais frequente em Pediatria, é um tema que preocupa todos os profissionais de saúde que lidam com crianças. Um dos últimos estudos realizados a nível nacional revelou uma taxa de 31% de excesso de peso e obesidade em crianças entre os 10 e os 18 anos. Em Portugal temos uma iniciativa importante, a Plataforma Contra a Obesidade, a cargo da Direcção-Geral da Saúde. O Gabinete Regional da OMS Europa também criou um sistema de Vigilância Nutricional Infantil em 15 países da Europa para avaliar as tendências de excesso de peso e obesidade em crianças em idade escolar (6-9 anos) e compreender melhor a evolução desta epidemia. Portugal tem participado neste estudo.

Em termos da Europa, o panorama português não é nada animador. Actualmente somos o terceiro país com piores resultados na União Europeia no que diz respeito à obesidade infantil. É fundamental compreender que, se nada for feito, estas crianças vão crescer e tornar- -se adultos obesos. Em relação à prática de exercício físico na infância, Portugal também ficou mal classificado. A OMS recomenda que as crianças entre os 11 e os 15 anos pratiquem uma “actividade física moderada a vigorosa todos os dias, durante pelo menos uma hora”. Nenhum país está perto de cumprir esta meta. A obrigatoriedade da prática de exercício físico nas escolas pode ser uma medida importante no combate ao sedentarismo e obesidade.

Detectar o problema

A obesidade infantil é um problema fácil de detectar numa consulta de rotina com o médico de família ou pediatra, e não requer exames complicados numa fase inicial. O peso e estatura são utilizados para calcular o índice de massa corporal (IMC), definindo-se em seguida o percentil de IMC em função do sexo e da idade da criança. A obesidade não tem limites de idade e pode afectar crianças pequenas, abaixo dos três anos. O ideal seria evitar chegar à obesidade e identificar precocemente as situações de excesso de peso para instituir logo as medidas correctas. Quando estamos perante uma criança obesa é obrigatório tentar averiguar possíveis causas para esta situação, mas, contrariamente ao que muitos pensam, na maioria dos casos, as crianças são obesas porque comem mal e fazem pouco desporto.

A alimentação

As crianças são uma população especialmente vulnerável no panorama da nossa sociedade actual. Estão continuamente expostas a doces e guloseimas, “fast food”, sumos e refrigerantes. A comunidade médica depara-se com este grave problema e a actuação não deverá limitar- -se apenas à criança e à sua família, mas também às escolas, comunidades e mesmo a nível nacional, em termos de legislação e regulamentação de certos alimentos e bebidas. Nos supermercados estão sempre doces junto da caixa de pagamento por forma a aliciar as pessoas a comprar. A variedade imensa de cereais, iogurtes e bolachas, com elevado teor de açúcar, preenche filas inteiras dos supermercados, tornando uma simples ida às compras numa ratoeira para os pais. As escolas devem ser um local importante para a promoção de estilos de vida saudáveis e isto deve reflectir-se nas ementas e na impossibilidade das crianças adquirirem alimentos ou bebidas pouco saudáveis nos bares da escola. Seguindo a frase “de pequenino se torce o pepino”, devemos começar desde cedo a melhorar a alimentação das crianças.

O papel dos pais

O papel dos pais e da família é determinante no combate à obesidade infantil. Não esquecer que este problema não é exclusivo das crianças, visto que na maioria dos casos das crianças com excesso de peso/obesidade, muitas têm pelo menos um dos progenitores com o mesmo problema. O estado nutricional da criança não depende apenas dos factores genéticos e temos de considerar a alimentação da família e os hábitos em termos da actividade física. Estudos demonstram que mães obesas têm maior risco de terem filhos obesos e que um aumento excessivo de peso durante a gravidez poderá condicionar o peso futuro da criança. Sendo assim, devemos começar pelos pais e, sobretudo, pela futura mãe. Se queremos crianças saudáveis, com um bom estado nutricional, devemos promover estilos de vida saudáveis nos pais, pois estes estão na primeira linha no combate à obesidade infantil, devendo ser incentivados para ajudar a criança. Devemos alertar para as consequências em termos de saúde a longo prazo, como hipertensão arterial, diabetes e o maior risco de doenças cardiovasculares, mas não devemos esquecer as complicações psicológicas. As crianças com excesso de peso/obesidade podem sofrer vários tipos de problemas psicológicos, depressão, isolamento social, ansiedade e são frequentemente vítimas de “bullying”. Muitas crianças não contam isto aos pais porque têm vergonha de serem chamados de “gordos” ou “baleias” ou “bolas”, e sofrem esses insultos em silêncio. A auto-estima fica em baixo, ficam tristes e podem ter um pobre desempenho escolar. Os gordos são mais felizes é um mito que deve acabar.

Ajudar é imprescindível

Existem várias formas de acordo com as quais os pais podem ajudar no combate ao excesso de peso/obesidade. Em primeiro lugar, devem promover desde a infância estilos de vida saudáveis. Começando pela alimentação, e sempre que possível, as mães devem ser incentivadas a amamentar os filhos, pois está demonstrado que isso reduz o risco de obesidade infantil. O tipo de alimentação adoptado pela família vai ser decisivo para o crescimento saudável da criança. Uma alimentação rica em termos de frutas e legumes e pobre em açúcares é o ideal. As crianças devem aprender desde cedo a beber muita água e a evitar ao máximo o consumo de sumos e refrigerantes. O corte dos açúcares deve ser uma batalha constante para todos os pais. Todos nós sabemos que existem “dias de festa”, alturas em que acontece uma maior oportunidade de ingestão de guloseimas, mas o objectivo será o de reduzir esses consumos ao mínimo.

Os pais devem procurar oferecer apenas escolhas saudáveis aos seus filhos. Sendo assim, para um lanche de fim-de-semana podem escolher entre diversas peças de fruta, em vez de uma peça de fruta versus um gelado. Outro exemplo será entre jogar um jogo num computador ou consola versus passear no parque ou andar de bicicleta. Infelizmente, são muitas as crianças que preferem ficar a jogar no computador. Da mesma forma, os pais devem remover de casa as tentações. Não havendo chocolates e gomas não vai existir a hipótese de escolha nem a tentação de ir ao armário retirar “qualquer coisinha”.

A comida nunca deve ser utilizada como recompensa nem pode ser um substituto de afecto. Os pais devem optar por outros prémios, nomeadamente actividades em conjunto com os filhos. As crianças podem e devem participar na confecção dos alimentos, para que tenham uma melhor noção dos alimentos mais saudáveis. Passeios em família, actividades ao ar livre, são práticas saudáveis e um tempo bem passado para todos.

Os pais devem procurar sempre um reforço positivo quando lidam com uma criança. Devemos compreender que elas são genericamente “boas”, mas que alguns comportamentos podem ser “maus”. As crianças devem ser elogiadas quando fazem escolhas alimentares saudáveis, praticam desporto e atingem as metas propostas. Em termos de obesidade infantil, nem sempre corre tudo bem e nessas alturas o papel dos pais será de realçar exemplos positivos, ao mesmo tempo que reconhecem os erros e dificuldades.

Modelos e referências

Os pais são sempre os modelos de referência para os seus filhos, quer em termos de comportamento social, quer em termos da adopção de estilos de vida saudáveis. Pais que comem sopa, fruta e salada têm maior autoridade para exigir isso dos filhos, pois estes vão imitar as suas opções, o que vai influenciar a sua vida. Pais que passam os fins-de-semana em frente à televisão dificilmente conseguem motivar as crianças para a prática da actividade física.

A coerência no que diz respeito à educação é talvez um dos pontos mais importantes, pelo que os pais devem procurar mantê-la sempre. Se a criança só pode comer um doce ao sábado, não é por fazer uma birra que vai comer um doce à terça- -feira. A existência de regras e limites é essencial, bem como o cumprimento das mesmas. Para um adulto perder peso é muitas vezes difícil. E para uma criança? É muito mais difícil. A criança muitas vezes não entende os riscos em termos de saúde e dificilmente compreende e aceita que não pode comer bolos todos os dias. O papel dos pais será de apoiar a criança nesta luta difícil.

A rotina de refeições em família é um conceito que infelizmente não existe em todas as casas. As famílias devem fazer pelo menos uma refeição em conjunto, onde partilhem histórias e as experiências do dia, tornando a refeição num momento de agradável convívio. As refeições à frente da televisão interferem com o bom relacionamento da família, acabando por levar, de forma inconsciente, a uma ingestão de mais alimentos.

A obesidade infantil é um problema já muito divulgado, com um impacto cada vez maior em termos de saúde pública. As crianças obesas crescem e transformam- -se em adultos obesos. Hoje são muitas e graves as questões de saúde nas idades mais jovens, pelo que, no combate à obesidade infantil, a estratégia passa, sobretudo, pela prevenção, onde o papel dos pais é determinante. Devemos encarar a obesidade como aquilo que ela é, uma doença crónica que não dá tréguas e as crianças, agora mais do que nunca, precisam do nosso apoio.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº1 de Junho de 2017.