Isabel Gonzalez Duarte, Doutorada em Psicologia Clínica. Especialista em Psicoterapia Psicanalítica e em Psicologia Clínica e da Saúde

Era uma vez… Assim começam muitas das histórias de que temos memória da nossa infância, que passam de geração em geração, de pais para filhos.

Uma transmissão cheia de afecto, reveladora do olhar sobre o mundo, de uns e de outros, permitindo realizar novas descobertas e aprendizagens de uma forma criativa. A identidade de cada um de nós foi-se construindo com base na memória dessas histórias, que foram contadas uma e outra vez, em tempos que nos parecem longínquos, mas que fazem parte do património afectivo que cada um de nós transporta pela vida fora. Desde sempre que o homem foi criando narrativas para o ajudar a elaborar as questões que o preocupavam, muitas dessas histórias eram inventadas, algumas das quais ainda hoje fazem parte da sabedoria popular, servindo de base à orientação da vida das pessoas. De um modo geral, podemos dizer que a vida de todos nós é feita de narrativas, nascemos e crescemos inseridos num contexto onde a transmissão do conhecimento é feita através de histórias. Nestas, importa distinguir dois aspectos: a história em si mesma e aquilo que dela fica retido na memória de cada um, que por sua vez irá ser posteriormente transmitida no património cultural pertencente a cada família.

Durante a infância é comum ouvirmos as crianças pedirem aos pais “conta-me uma história”, não se cansando de ouvir contar, uma e outra vez, a mesma história. Neste processo, aparentemente repetitivo, as crianças encontram-se a realizar um trabalho de reconhecimento das experiências pessoais, fazendo uma identificação com as personagens, com as quais aprendem de uma forma criativa a solucionar os mais variados tipos de problemas.

Estimular as relações afectivas

Neste sentido, as narrativas durante a infância revestem-se de uma extrema importância, na medida em que possibilitam, não só tomar consciência de um conjunto de sentimentos e de emoções, como aprender com a experiência das personagens, para a resolução de situações reais e/ou de conflitos emocionais. É vulgar ouvir uma criança mencionar que “fez como o …”, fazendo referência a uma personagem de uma história, conciliando internamente a sua forma de fazer, com a identificação que fez à personagem, tecendo uma teia de relações afectivas que entretece a fantasia e a realidade. As histórias infantis são um condensado de informação, que desempenha um papel muito importante na transmissão do conhecimento. Mas, os contos infantis fazem parte da relação entre a criança e aqueles que lhe prestam os cuidados necessários, os pais ou as figuras cuidadoras mais próximas, possibilitando que se constituam as primeiras experiências subjectivas, as quais vão enriquecer o seu mundo interno.

Mais do que a história em si que é contada, o importante é a forma como esta é contada, ou seja, o modo como vai ser transmitida pelos pais aos filhos, que, por sua vez, um dia, irão ser eles os novos contadores, gerando conhecimento e possibilitando a aquisição de novas aprendizagens. Nesta transmissão, toda a envolvência que é criada à volta da história, que vai da entoação da voz, ao suspense que é criado antes do seu desfecho, revela-se como uma verdadeira magia, que solidifica as relações afectivas e está na base da construção da identidade das crianças.

A magia continua

Esta magia que vem da infância deverá ocorrer de uma forma similar com a entrada para a escola, onde o(s) professor(es) são também eles por excelência contadores de histórias, tendo estas o objectivo de permitir aceder à aprendizagem, num crescendo que estimule a curiosidade e o desejo de saber. A criança é facilmente cativada pelo adulto que partilha o seu saber, apenas pelo prazer que tem em contar, em transmitir o seu conhecimento, num clima de mútuo enriquecimento.

Os conteúdos das histórias revestem-se de uma particular importância, na medida em que levam muito a sério as angústias e os dilemas existenciais da infância, como a necessidade de nos sentirmos amados, o medo de que os outros pensem que não pensamos da mesma forma que eles, o amor pela vida, o medo da morte. Todos estes temas se revestem de uma importância em termos psicológicos para as crianças de todas as idades, tanto para os rapazes como para as raparigas, independentemente da idade à qual a história se destina, ou do sexo do herói que a protagoniza.

A possibilidade das crianças realizarem um reconhecimento dos conteúdos presentes nos contos infantis permite a construção dos mecanismos necessários para enfrentar e ultrapassar as tensões inerentes a cada momento evolutivo em que a criança se encontra. Neste sentido, apresentam- -se como um precioso auxiliar para os pais, mas também, para os professores, assim como para todos os que, directa ou indirectamente, se relacionam com a criança.

Todas as histórias apresentam uma narrativa consciente – o conteúdo, que, ao ser contado, ganha toda uma dinâmica afectiva, que, por sua vez, irá ter um determinado impacto no ouvinte, que, com base no que vai sentindo, irá desenvolver uma fantasia. Naturalmente, a criança, ao ouvir uma história, precisa de viver todos os sentimentos que estão a ser narrados na presença do adulto, porque quando uma criança lê um livro sozinha ela fica exposta à própria história, tendo que lidar com as suas fantasias e com os movimentos inconscientes que esta lhe suscitou, podendo mesmo, em algumas situações, realizar interpretações distorcidas que advêm dos conflitos que no momento podem estar activos no seu desenvolvimento psicológico.

O acompanhamento das leituras que as crianças fazem é essencial ao longo do desenvolvimento, porque só desta forma é que é possível estimular o interesse pela leitura, promovendo a aquisição de competências cognitivas e emocionais, que se constituem como fundamentais para o melhor desenvolvimento do raciocínio abstracto, que se encontra na base da boa capacidade de aprendizagem.

No Plano Nacional de Leitura existe um conjunto de obras de referência, as quais podem ser um excelente ponto de partida para as leituras em família, tal como o são no contexto escolar. Mas, não podemos esquecer que existe uma grande diferença entre a partilha em grupo, na sala de aula, com o professor e os colegas; e a leitura mais individualizada, no recato do lar, acompanhada pelos pais, ou pelas figuras cuidadoras, numa relação de maior proximidade e intimidade, que permite explorar os sentimentos e as emoções que foram desencadeadas pela narrativa.

É vulgar as crianças representarem as histórias que ouvem contar em pequenas peças de teatro, deste modo elas estão a encenar na sua fantasia um “como se”, que representam na realidade e que as ajuda a organizar internamente as mensagens que lhe foram transmitidas pelas narrativas. O desenho é um outro lugar organizador, porque permite (re)contar, através de imagens/ /símbolos os elementos mais significativos que ficaram retidos no seu mundo interno.

No presente, assistimos a uma (re)estruturação educativa, onde as novas práticas educativas procuram promover e desenvolver as competências do aluno para uma melhor sustentabilidade da aprendizagem. Neste sentido, as histórias infantis são um poderoso auxílio para a promoção e para o desenvolvimento de competências cognitivas e emocionais. Quem conta um conto acrescenta-lhe um pouco de si, do seu sentir, dá-lhe um colorido afectivo que fica no imaginário de quem o ouve e guarda na memória, para, mais tarde, a poder voltar a contar, numa circularidade que irá dá lugar à transmissão do conhecimento enriquecido e enternecido pela magia do afecto na infância.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº6 de Dezembro de 2018.