Sara Fragoso, Licenciada em Biologia, mestrado em Etologia e Etologia Clínica. Centro para o
Conhecimento Animal

Dar a pata, sentar, deitar e responder à chamada são exemplos de comportamentos que facilmente podemos ensinar a um cão. Mas não só ao cão.

Apesar de o cão ser o animal de estimação mais frequentemente treinado, a possibilidade de ensinar novos comportamentos estende-se a animais de outras espécies. Haja capacidade de ensinar por parte do humano e de aprender por parte do animal e estão reunidos os principais ingredientes para dar largas à imaginação.

Mas terão estes exercícios algum interesse? Vale a pena perder tempo a ensinar truques aparentemente sem qualquer utilidade? Seja qual for a espécie, um bom treino é um verdadeiro investimento que traz inúmeras vantagens. Antes de mais, significa uma partilha de tempo de qualidade em família, o que por si só já é argumento suficientemente poderoso para que seja sempre tido em consideração.

Treino: uma rotina

Em famílias multiespécies o treino deveria simplesmente fazer parte da rotina. As vantagens estendem-se a toda a família. É uma poderosa fonte de enriquecimento social e cognitivo, que torna a vida de todos mais estimulante e interessante. É uma interacção estruturada, que implica comunicar de forma clara, interpretar o comportamento e respeitar os limites do outro. Para além de divertido, ajuda a prevenir situações de conflito, que podem resultar em medo e/ou dentadas e arranhões, cujo impacto pode ser bastante significativo na saúde e na dinâmica familiar.

E as crianças? Podem participar nestes exercícios? O convívio entre os mais novos e os animais está repleto de vantagens amplamente reconhecidas, mas envolver as crianças no treino trará vantagens extra? 100% Sim! Os animais são muito mais do que simples companheiros para as crianças, o papel que assumem pode ir muito mais além de partilharem alguns momentos da vida. O treino, sendo um momento de convívio estruturado e emocionalmente intenso, contribui para fortalecer o vínculo entre ambos e desenvolver uma relação de cumplicidade. Para a criança e para o animal é um verdadeiro jogo com regras, muita diversão e muitas vitórias partilhadas. Sem se aperceberem estão a desenvolver uma diversidade de competências, como concentração e coordenação motora. É uma oportunidade para crianças e animais aprenderem as regras de um convívio saudável. É, portanto, uma questão de bem- -estar, respeito e segurança!

As vantagens do treino são claras, mas como é que podemos integrar os mais novos nesta dinâmica? É um grande desafio! Parar, dar o sinal, esperar que o animal faça o comportamento e, então, premiá-lo, pode ser bastante exigente para a criança, principalmente para os mais novos. Cabe ao adulto, que deverá estar sempre presente, colocar-se no lugar dos intervenientes e analisar a situação na perspectiva do animal e da criança, gerir o stresse, explicar e, se necessário, demonstrar como se deve fazer. No final, para além do biscoito (ou afecto ou brincadeira, tanto faz, desde que seja algo muito bom!) que o animal recebe, a satisfação momentânea do sucesso alcançado contribui para a construção da auto-estima de ambos.

Saber comunicar

O treino, tendo por base a comunicação, é uma oportunidade única para a criança e o animal se conhecerem melhor e serem mais capazes de interpretar o comportamento um do outro. Desta forma são melhoradas as capacidades para perceber o significado de diferentes sinais, que lhes indicam o que o outro pretende, o que o motiva ou o que lhe causa desconforto. Crianças e animais não comunicam da mesma forma. Os animais não verbalizam o que sentem, mas isso não impede que crianças e animais comuniquem – sons, gestos, expressões faciais e posturas corporais são fontes de informação que permitem um bom entendimento. Perceber como o animal se sente, relaxado ou nervoso, implica algum conhecimento e atenção. No que se refere ao cão e ao gato, as orelhas, os bigodes, a cauda, o pêlo e a boca são as principais fontes de informação.

Alguns sinais são bastante subtis e facilmente podem passar despercebidos. Por exemplo, piscar os olhos e desviar o olhar normalmente é a forma de nos dizerem que se sentem desconfortáveis e a tentar gerir o stresse resultante da interacção. Olhar fixamente nos olhos pode ser uma ameaça, pelo que também devemos evitar fazê-lo, para evitar desconforto. Lamber os lábios ou nariz e bocejar significam nervosismo, tanto em situações em que estão na expectativa que algo aconteça, como quando pretendem gerir um conflito. Mas claro que o contexto deve ser sempre considerado para avaliar a situação. Bocejar depois de dormir, ou lamber os lábios ou nariz na presença da refeição, tem um significado diferente.

Outras formas de comunicar são bem mais evidentes e fáceis de interpretar para os adultos, o que não é necessariamente verdade para uma criança. Nenhum adulto tem dúvidas do que significa um cão a rosnar e a mostrar os dentes. Claramente um sinal de que a interacção não está a correr da melhor forma e que o cão está a ficar chateado! Para os mais novos, e dependendo obviamente da fase do desenvolvimento em que a criança se encontra, o rosnar e mostrar os dentes pode ser interpretado como um sorriso, o que fará com que se aproxime mais e não respeite o pedido para que se afaste. Não existem dentadas nem arranhões gratuitos. Na maior parte das vezes ocorrem porque os limites do animal, embora comunicados, não foram respeitados. É um facto que grande parte dos acidentes, incluindo ataques de cães a crianças, ocorre em contexto familiar, porque os limites de tolerância não são respeitados. Em situações de medo e desconforto, o animal normalmente começa por mostrar sinais mais discretos. Se entretanto não conseguir resolver o desconforto desta forma e se a criança continua a aproximar-se ou a insistir na interacção, então o animal acabará por mostrar sinais mais evidentes, podendo acabar por morder. Não será também o que fazemos quando queremos ser ouvidos ou respeitados? Se não nos conseguimos fazer ouvir mudamos o nosso comportamento até sermos bem-sucedidos… Sendo assim, se criança souber reconhecer o desconforto do animal logo de início, poderá ajustar o seu comportamento e essas situações serão evitadas.

Treino positivo e respeitador

Claro que, para que todo o potencial do treino se concretize, o treino deve ser positivo, com recurso a técnicas que respeitam o bem-estar e não se baseiam numa abordagem aversiva. Só assim é possível ensinar com base na confiança e respeito mútuos, promovendo uma relação e vínculo saudáveis. Intimidar ou punir nunca são recomendáveis, pelo impacto que têm na vida do animal e das crianças, que irão usar o que viverem como exemplo a seguir. Divertido, mas com regras e limites!

Tenha sempre presente que cada indivíduo tem o seu ritmo e as suas preferências e que o grau de dificuldade deve estar adequado à idade e experiência de cada criança e de cada animal. Para finalizar, regra básica e fundamental: à semelhança de uma qualquer brincadeira entre amigos, o treino deve ser um momento de partilha e diversão!

Mitos que importa esclarecer

Existem ainda alguns mitos em relação a alguns comportamentos. O que significa o abanar de cauda num cão e num gato? É frequente ser interpretado como algo amigável no caso do cão e agressivo no caso do gato. Sabemos actualmente que este comportamento significa elevado nível de excitação, tanto no cão como no gato, seja por estarem prontos para a brincadeira ou em situações de agressividade. Para percebermos o real significado precisamos de ter em atenção tanto o tipo de movimento da cauda, como são as restantes expressões, postura corporal e o contexto em que ocorre. Um cão pode morder enquanto abana a cauda e um gato pode abanar a cauda num momento de brincadeira. O animal, por sua vez, também tem que interpretar o comportamento da criança. Uma comunicação simples e clara é fundamental. A palavra ou gesto que será o sinal para que o animal faça o comportamento deve estar previamente definida e partilhada por toda a família, para que todos sigam as mesmas regras. Em família deve ficar definido um sinal para iniciar e terminar a sessão de treino. Treinar implica comunicar, pensar, fazer. Sessões muito longas podem ser contraproducentes, pelo que se aconselha que sejam breves. A duração aconselhada varia de caso para caso, mas a sessão deve terminar com um sucesso e enquanto todos os envolvidos estão motivados, para que anseiem pela próxima vez. O potencial destas sessões é gigante, mas os objectivos definidos para cada sessão devem ser humildes, permitindo sucesso e uma evolução consistente.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº5 de Setembro de 2018.