Mafalda Navarro, Psicóloga e terapeuta do Sono na Clínica da Criança e do Adolescente

Chegar a casa com um recém-nascido tem tanto de maravilhoso como de assustador.

Estamos mais ou menos nove meses a imaginar este momento. Como será tê-lo nos braços, alimentá-lo, vesti-lo, sentir o seu cheirinho. E, de repente, chega o momento de deixarmos o hospital, os médicos, os enfermeiros e todos aqueles que nos ajudaram durante os primeiros três dias de vida do nosso filho, e irmos para casa, com um ser que depende inteiramente de nós, é, de facto, razão para entrarmos em pânico.

Tal como nós estranhamos e nos sentimos perdidos quando o nosso filho nasce, o próprio bebé também passa por uma fase de adaptação confusa. Quando estava dentro da barriga da mãe, o bebé tinha todas as suas necessidades satisfeitas no momento. Quando queria comer ingeria a quantidade que lhe apetecia. Quando precisava de dormir podia fazê-lo facilmente. Tinha todo o mimo e aconchego ao longo do dia. Nesta fase o bebé não precisava de pedir, porque tudo estava ao seu alcance. Quando vem para este mundo, enorme e confuso, tudo muda. De repente é vestido com uma fralda e roupas normalmente pouco confortáveis, anda de colo em colo, não consegue fazer as sestas a que estava habituado, a comida não está sempre ao seu alcance. O bebé tem que aprender a pedir o que quer. E é aqui que surgem as dúvidas.

Como perceber o meu bebé?

Nos primeiros tempos torna-se difícil para os pais perceberem o que quer o bebé naquele momento. Por que chora?! Não nos podemos esquecer que o choro é o meio de comunicação de um bebé. É certo que ele, de uma forma inata, acaba por dar sinais aos pais do que precisa, mas é natural que estes nas primeiras semanas não sejam ainda capazes de os decifrar. Assim sendo, o choro passa a ser a forma mais eficaz do bebé obter uma resposta. Embora acabe por ser cansativo para nós o som do choro, não podemos desvalorizar. Quando um bebé chora significa que está a tentar falar com os pais.

Saber ler os sinais

Existem muitas razões para fazer um bebé chorar, algumas nem nos passam pela cabeça. A primeira de que nos lembramos sempre é a fome. E de facto nos primeiros tempos pode ser confuso perceber afinal de quanto tempo precisa o nosso filho de estar na maminha, ou quantos mililitros de leite são suficientes para que fique saciado. Mas há, de facto, sinais a que devemos estar atentos para excluir esta variável de desconforto. Quando um bebé tem fome pode começar a colocar as mãos ou dedos na boca e faz o movimento de sucção, deita a língua de fora, e roda a cabeça em direcção ao peito da mãe. Por fim, o sinal mais claro será então o choro. Se não conseguiu observar estes sinais pode sempre pôr o seu dedo dentro da boca do bebé para perceber se ele começa a chuchar, a tentar tirar leite. Se o fizer é sinal de que tem fome. Se por acaso a meio da refeição o bebé cospe a maminha ou o biberon, e começa a chorar, pode ser um arroto. Ponha-o de pé e veja se ele fica confortável. Se, entretanto, acalmou, tente novamente dar-lhe mais leite, não assuma que, se afastou a maminha, ou o biberon, significa logo que não quer mais leite.

Será sono?

Mas nem sempre é fome. Um bebé também chora porque tem sono, quer adormecer, mas não está a conseguir fazê-lo. Neste caso os sinais começam com o bocejo, esfregar os olhos ou as orelhas, parece desconfortável em qualquer sítio, como o colo, uma espreguiçadeira ou o carrinho, até que começa a chorar. Nesta altura ajude- o a adormecer. Ele pode estar a pedir a chucha, um ambiente mais tranquilo, ou só uma diminuição dos estímulos. Também é comum os bebés reclamarem por estarem muito soltos para adormecer. Depois de nove meses a ser abraçado e aconchegado, ele pode precisar de uma manta para estar enrolado, para que imite a posição que tinha dentro da barriga da mãe. Se o bebé for dormir já demasiado cansado, terá certamente mais dificuldade em adormecer autonomamente, e pode então precisar da ajuda dos pais para o fazer. Pode precisar de umas pequenas palmadinhas no rabo, tal como ele sentia quando estava no útero, com o movimento do batimento cardíaco da mãe. Pode precisar de umas festinhas no nariz. Ou só mesmo que o acalmem com mimo antes de adormecer. Quanto mais cansado estiver, mais irritável e agitado fica.

E se for falta de colo?

Deixei para o fim a razão que acaba por ser a mais importante, mas por vezes tão negada por nós… Ouvimos muito de outras mães “cuidado não dês colo a mais que estás a mimá-lo”, “assim com tanto mimo vai ficar cheio de manhas”. Mas é verdade, o bebé também chora porque quer colo! Não é manha, não é mimo a mais, é sim porque quer e precisa de afecto. Mais uma vez, lembremo-nos que ele passou nove meses sempre aconchegado pela mãe, a ouvi-la e a senti-la a toda a hora. Não precisava de pedir colo, porque o tinha durante todo o dia. Estava sempre a ser abraçado, aconchegado, a sentir a respiração da mãe, o bater do coração, que parecia pequenas palmadinhas no rabo. Em poucas horas vem cá para fora e nós queremos que eles seja logo independente. Um bebé precisa para o seu bem-estar, para a sua segurança e tranquilidade, de contacto físico com os pais. É neles que ele aprende que o mundo é um espaço seguro, e que tem dois adultos que o protegem e que gostam dele.

Os bebés também se aborrecem

Um bebé pode também chorar porque está cansado do que está a ver. Nos primeiros meses a actividade de um bebé passa apenas por ver o ambiente que está à sua volta, sejam brinquedos, os pais ou outros familiares, ou árvores de um jardim. Embora estes estímulos sejam interessantes o suficiente para o distrair, passado um tempo ele cansa-se, e pede outra imagem. Neste caso muito cuidado para não confundir com sono. Não nos podemos esquecer que nas primeiras semanas os bebés precisam de dormir mais do que normalmente imaginamos. Se um bebé está deitado na espreguiçadeira e começa a chorar pode de facto estar cansado do que está a ver, ou pode então ser já um sinal de que quer ir dormir. Mesmo que ele de manhã mostre que é capaz de adormecer, por exemplo, na sala, pode ao final do dia resmungar para o fazer. À medida que o dia vai avançando, também o cansaço dele vai agudizando. Se tiver perante uma grande birra típica de final de dia, experimente levar o seu filho para uma divisão da casa mais tranquila, com menos pessoas. Acalme-o primeiro no seu colo e só depois o ponha na cama a dormir. Os estímulos a que foi exposto durante todo o dia são tantos, que não o ajudam a acalmar e deixar-se adormecer.

Outras razões

Existem ainda muitas outras razões que justificam o choro, muitas delas nem nos lembramos. Um bebé pode chorar porque tem frio, calor, sente alguma dor, tem a fralda suja, está um aroma muito intenso que ele não gosta, ou mesmo porque tem uma etiqueta a incomodá-lo. Dê uma vista de olhos por todo o corpo, às vezes pode ser só um cabelo enrolado num dedo ou um elástico da roupa mais apertado. Se já verificou tudo isto e ele continua desconfortável, nada como o colo e afecto dos pais para o acalmar.

Oiça o seu bebé

O choro de um filho acaba por ser uma das razões que levam os pais ao desespero. Sentir cansaço e frustração é perfeitamente normal, principalmente nos primeiros meses em que estamos a conhecer o bebé. Por vezes é difícil compreendê-lo, decifrar o que nos está a dizer, por que é que nos está a falar. Mas chorar é a forma inata que os bebés têm para chamar os pais e pedir ajuda. Um dos desafios desta fase será os pais aprenderem também que sinais são esses que o bebé está a dar. Mais importante que respeitar horários ou opiniões, é aprender a ler o seu filho. Ele diz-lhe tudo. Olhe para ele, conheça- -o, e leia os sinais que ele vai dando. Se não são horas de comer mas ele está esfomeado, porquê esperar? Se ele acabou de fazer uma sesta, mas passado pouco tempo está a bocejar, por que não voltar a pô- -lo a dormir? As primeiras semanas com um filho devem servir também para que os pais o conheçam e para que ele aprenda a confiar no mundo onde agora vai ficar. Para que isso aconteça da melhor forma possível é essencial que o bebé aprenda a confiar nos pais, aprenda que os pais respondem adequadamente às suas necessidades. Confie em si, no seu instinto e na capacidade de comunicar do seu filho!

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº2 de Novembro de 2017.