Inês Cancela de Abreu, Fisioterapeuta, Fisioterapia Mães&Filhos

A partir do Outono os vírus multiplicam-se e muitas crianças reagem ao frio.

Aqui começam as perguntas e preocupações frequentes que baralham os pais quanto à gravidade real dos problemas respiratórios que começam a surgir, e quando é realmente necessário pedir ajuda a um profissional de saúde. “O meu filho tem estado com ranho há duas semanas!” “Durante a noite tem ataques de tosse que o acordam.” “O meu bebé recém- -nascido faz uma espécie de ronco quando está deitado!” “Engasga-se e vomita comida e expectoração”, estes são alguns dos exemplos de como começam os pedidos de ajuda que recebo por parte dos pais dos filhos com problemas respiratórios.

Sinais de alerta

Salienta-se a extrema importância de levar o bebé no timing certo ao pediatra ou hospital, quando a “constipação” ou infecção atingiu um ponto em que é necessária intervenção médica ou hospitalar, mas, até a criança apresentar uma situação clínica grave, existe um intervalo de tempo caracterizado por vários sinais que permitem aos pais interpretar, agir e prevenir a necessidade de hospitalização. A melhor forma de começar será aprender a categorizar estes sinais dentro das caixas “normal”, “alerta” e “necessidade de acção imediata”, de forma a acalmar ou apressar uma reacção.

Para reconhecer estes sinais, as visitas ao domicílio são assim momentos importantes de ensino aos pais, pois é no momento de crise que são facilmente identificados. Após avaliação da situação clínica, o fisioterapeuta tanto intervém em conformidade com o diagnóstico, como ensina os pais a interpretar a gravidade do problema e a saber o que fazer. A título de exemplo, o ensinamento mais útil é, sem dúvida, a colocação eficaz de soro e a avaliação da tosse (produtiva/ seca/irritativa).

É curioso ver como cada família começa a perceber a evolução típica de cada filho e a conhecer os timings de actuação. Passa a recorrer à fisioterapia respiratória apenas quando o bebé não reagiu aos seus cuidados e os sinais estão mais avançados, necessitando de avaliação e intervenção especializada.

Este artigo vai então dar-lhe ferramentas para interpretar a constipação do seu filho de uma forma objectiva e agir em conformidade.

Atenção aos sinais de alerta

Começamos por escrever os sinais de carácter respiratório que o bebé pode apresentar. Para tornar a linguagem mais acessível e real vamos dividi-los em:

1) Sinais ligeiros ou de “manutenção caseira”

  • Ranho fluido transparente e constante;
  • Momentos de respiração nasal intercalada com respiração bocal;
  • Farfalheira (“chaleira”) que aparece e desaparece ao longo do dia;
  • Ligeira interferência com o sono (tosse sem acordar);
  • Ronco de recém-nascido – Este é o sinal que mais preocupa uma família que acabou de ter um filho. Devido ao líquido amniótico e secreções, ainda presentes nos pulmões, acontece durante a noite o bebé fazer um ronco/farfalheira, que dá a sensação de estar com “algo na garganta”. Este barulho normalmente não está presente durante o dia ou quando o bebé está acordado. Poderá permanecer até aos 2/3 meses de idade;
  • Tosse em quantidade média e produtiva.

Note-se que durante o Inverno os bebés podem permanecer a maior parte do tempo com estes sinais, não sugerindo um problema significativo. Há bebés com mais tendência na produção excessiva de muco e que, portanto, vão exibir constantemente este tipo de situações. Se a mesma se mantiver estável é uma grande conquista!

De acordo com este quadro, os cuidados que se prestam são “caseiros”, podendo ser dados pelos próprios pais:

Hidratar – Aumentar a frequência da mamada, água, papa/fruta mais aguada, chá de camomila para bebés;

Lavar o nariz com soro ou água do mar – Sempre que notar que as narinas estão entupidas;

Fazer aerossol sem medicação – Quando as secreções estão secas, espessas, viscosas e impedem que a expulsão de ranho pelas narinas ou tosse se faça de uma forma eficaz;

Aspirar – O aspirador serve apenas para limpar os macaquitos que estão visíveis! A sucção deve ser lenta e prolongada. O meu conselho é que não se abuse desta máquina, pois o seu uso exagerado poderá contribuir para um aumento reactivo do muco.

2) Sinais de alerta com necessidade de actuação especializada

Estes sugerem uma situação com importância significativa, mas controlável. Já pressupõem alguma experiência de intervenção por parte dos pais, ou necessidade de avaliação por um profissional de saúde. Podemos destacar:

  • Ranho branco espesso ou viscoso com momentos em que se torna amarelo ou verde (mais de manhã);
  • Nariz seco e respiração bocal;
  • Farfalheira (“chaleira”) persistente;
  • Pieira ligeira (“gatinhos/apitos”);
  • Febre;
  • Tosse frequente (noite e/ou dia);
  • Interferência com o sono (tosse excessiva, levanta-se e senta-se no berço, não aguenta a chucha);
  • Interferência com a alimentação (rejeição da mama, falta de apetite, tosse ou engasgo por expectoração).

É de referir que, num bebé até aos 2 meses, o cansaço ao mamar com recusa total ou parcial do alimento, é razão para pedir ajuda imediata na desobstrução (fisioterapia). Aqui surgem as dúvidas acerca de qual o tipo de ajuda e quando a devem procurar – “Será que só precisa de ajuda na limpeza das vias aéreas, ou já está no momento de actuar com medicação?”. Nesta fase tanto o pediatra como o fisioterapeuta podem ajudar. No caso do fisioterapeuta (especialista em fisioterapia respiratória pediátrica), a sua avaliação determina tanto a necessidade, como qual o tipo de intervenção. Caso a situação não necessite de acção médica imediata, o fisioterapeuta poderá ensinar a colocar soro eficazmente, dar dicas de como ajudar a criança no diaa- dia e sobretudo realizar uma limpeza profunda, que previne a acumulação de mais expectoração, evitando assim a infecção. Quando se está perante uma infecção das vias aéreas (bronquiolite/pneumonia), a situação requer observação médica. O pediatra avalia a necessidade de medicação e qual a mais indicada. Após a situação clínica estar estabilizada, a fisioterapia pode acelerar o processo de recuperação, ajudando na expulsão de expectoração. Aplica um tipo de técnicas mais complexas, que ajudam a drenar o pulmão e a desobstruir as fossas nasais (narinas) e naso/ /orofaringe (garganta).

Como agir quando o bebé apresenta sinais de alerta, em que já houve orientação por parte de um profissional de saúde, mas não necessita de hospitalização:

  • Medicação e sessões de fisioterapia respiratória pediátrica se necessário;
  • A umentar a frequência das refeições, mas fazê-lo em pequenas doses;
  • E levar a cabeceira da cama, se necessário dormir na espreguiçadeira, ou ao colo do pai/mãe;
  • Colocar soro de forma regular (3/4x ao dia e antes de comer). Se possível com fechamento simultâneo da boca e narina (fisioterapeuta poderá ensinar). Sugerimos até duas unidoses por colocação;
  • Dar apoio abdominal na tosse (de noite também);
  • Ao contrário do que se pensa, é bom deixar o bebé ou criança mexer-se (rolar, gatinhar, andar…) para promover um aumento de frequência respiratória e ajudar na provocação da tosse e expansão torácica. Brinque e faça cócegas ao seu bebé!

3) Sinais que requerem apoio médico ou hospitalar

Ao verificar pelo menos dois destes sinais sugere-se contactar o pediatra, ou ir directamente ao hospital.

  • Tiragem (costelas/esterno/clavículas ficam salientes a cada inspiração);
  • Respiração rápida e superficial ou irregular (com pausas respiratórias);
  • Adejo nasal (narinas dilatadas, como que a tentar inspirar mais ar);
  • Gemido;
  • Pieira (“gatinhos/apitos”);
  • Lábios, unhas ou olhos azulados;
  • Febre alta ou persistente;
  • Cansaço ao mamar, com recusa total do alimento num bebé até 2 meses;
  • Cansaço a falar numa criança.

Apesar de ser uma boa base para consulta, esta informação não deixa de ser generalizada. Estes sinais ajudam a categorizar, mas não se dividem rigidamente. O importante é conhecer o historial de cada criança, pois se num bebé a farfalheira não persistente é apenas um sinal normal ou leve, que se mantém sem piorar, noutro a presença de farfalheira indica que a evolução para um estado crítico vai ser rápida. Neste sentido, com a prática, cada família começa a ser sensível aos sinais relevantes do seu próprio filho.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº2 de Novembro de 2017.