Teresa Brandão, Cláudia Borralho e Sara Pinote, Psicomotricistas da Faculdade de Motricidade Humana

São, cada vez mais, comuns os relatos de crianças que chegam à idade escolar e que não apresentam os chamados pré-requisitos, ou seja, as competências básicas, que servem de fundação às aprendizagens académicas.

A manifestação deste tipo de dificuldades torna-se cada vez mais frequente, apontando para a necessidade de delineação de orientações, medidas e programas de intervenção que estejam na base de uma actuação precoce e de tipo preventivo. É exactamente nesta linha que a psicomotricidade em idade pré-escolar ganha força, ou não fosse um dos grandes papéis do psicomotricista, nesta faixa etária, garantir o desenvolvimento global e a promoção de competências pré-académicas, cruciais para a entrada na idade escolar, de modo a assegurar uma transição mais capacitada, segura e tranquila.

Por outro lado, e no que toca à infância e sua forma de ser vivida, particularmente na sociedade ocidental, temos vindo a assistir a uma crescente modificação do dia-a-dia, das rotinas, das actividades preferenciais, das práticas educativas e mesmo das prioridades relativas a esta faixa etária. Se, outrora, as crianças se envolviam activamente no jogo espontâneo, na exploração do ambiente e da natureza, nas brincadeiras de rua com os seus pares, hoje vemos crianças, desde tenras idades sujeitas a uma progressiva sobrecarga de agentes stressantes, excesso de estímulos, e actividades, pressionadas por um estilo de vida agitado e de pressão académica e social. O tempo livre para a brincadeira espontânea é escasso e negligenciado, a permanência em espaços fechados é comum, o excesso de sedentarismo e a utilização desmedida de tecnologia configuram ambientes nos quais as crianças se movem pouco e se tornam dependentes de estímulos visuais e auditivos constantes.

Mudam-se os tempos…

As crianças de hoje são outras, seguramente não as mesmas que outrora passavam a maior parte do seu tempo a brincar sozinhas ou em grupo, correndo, saltando, andando de bicicleta, subindo às árvores, adquirindo muitas competências e novas aprendizagens através do brincar.

Faltam-lhes agora as oportunidades e o tempo para explorar e conhecerem as potencialidades do seu corpo e as características do seu envolvimento, em três dimensões, e os ecrãs parecem ter substituído muitas das experiências reais.

Por outro lado, com base em novas e sofisticadas estratégias de investigação nas áreas da neurobiologia e afins, tem-se tornado possível compreender com maior profundidade os processos de desenvolvimento precoces, a construção progressiva da arquitectura cerebral, bem como a importância dos períodos críticos ou sensíveis, como momentos de maior vulnerabilidade do indivíduo aos estímulos, os quais terão um impacto determinante (positivo ou negativo) no decurso do processo de desenvolvimento das crianças. Tal deve-se à elevada plasticidade cerebral, que caracteriza a infância, mais particularmente nos três primeiros anos de vida do bebé, a qual deverá ser conhecida pelos prestadores de cuidados e educadores que todos os dias interagem com eles, para que possam ser maximizadas as janelas de oportunidade que a rotina diária oferece, de um modo natural.

Intervenção psicomotora

Olhando de modo integrado e holístico para a criança, o psicomotricista conjugará, através da sua actuação, os domínios psicomotor, cognitivo e socioemocional, recorrendo àquilo que melhor as crianças sabem fazer, ou seja, brincar. Especialista na análise do corpo em movimento, o psicomotricista utilizará, como recurso, a actividade lúdica (jogo exploratório, simbólico, de regras e de cooperação), a actividade expressiva (dança, música, arte e teatro), as técnicas de relaxação e um leque de recursos que, pela sua adequação a esta faixa etária, permitirão o desenvolvimento dos objectivos educativos e de novas aprendizagens, através das quais as crianças são sempre consideradas como agentes activos.

A intervenção psicomotora pode assim desenvolver a sua acção a nível preventivo, reeducativo, terapêutico e/ou reabilitativo, actuando em várias situações relacionadas com problemáticas de desenvolvimento, de comportamento, de aprendizagem e de âmbito psicoafectivo. Esta diversidade de respostas será fundamental na sua adequação a uma grande heterogeneidade de perfis de desenvolvimento das crianças a frequentarem creches ou jardins de infância. Falamos de uma valência terapêutica, quando já existe um diagnóstico, ou quando se identificam indicadores de desvio significativos, em relação ao padrão de desenvolvimento típico e expectável para determinada idade. Por outro lado, a intervenção psicomotora enquadra- se num âmbito preventivo quando os seus objectivos passam pela promoção do potencial de aprendizagem e do rastreio e detecção precoce de atrasos no desenvolvimento psicomotor.

É exactamente sobre esta última dimensão, e, em resposta aos dados alarmantes relativos às dificuldades de aprendizagem e outras problemáticas do neurodesenvolvimento, que a importância da intervenção psicomotora (numa perspectiva preventiva), em idade pré-escolar, é aqui reforçada. Apostar precocemente, no desenvolvimento psicomotor, é construir bases sólidas para futuras aprendizagens preparando, antecipadamente, o corpo e o cérebro para as aprendizagens da leitura, escrita e matemática.

Importância da consciência corporal

É fundamental garantir uma adequada consciência corporal que possibilite o reconhecimento de si em relação ao espaço e a aquisição do controlo do seu corpo em movimento. As aquisições psicomotoras básicas (ex., sentar, gatinhar, andar, correr, saltar, lançar, etc.) estabelecem a fundação para tarefas cada vez mais complexas, minuciosas e precisas que, estando subdesenvolvidas, se podem tornar verdadeiros desafios nas rotinas diárias das crianças (ex., apertar botões, fechos e sapatos, cortar com tesoura, pintar, escrever, etc.).

Uma criança, que, numa actividade de lançamento de uma bola a um alvo, por exemplo, consiga adequar a força e direcção do movimento à distância e posição do alvo, é uma criança que estará progressivamente mais preparada para progredir para tarefas de maior complexidade e minúcia, como o desenho e a escrita.

Conseguir organizar e escrever um texto numa folha pode ser mais complexo do que parece. Para além da preensão do lápis, pressupõe o domínio de conceitos espaciais simples (ex., cima/baixo, frente/trás, dentro/fora, perto/longe e direita/esquerda) que, antes de serem transferidos para o papel, devem ser vivenciados corporalmente para que sejam mais facilmente integrados. Por outro lado, dominar o ritmo, a velocidade, a ordenação sequencial e temporal (ex., dias da semana, horas, meses do ano e antes/depois) são aspectos tão importantes como os anteriores.

Explorar os diferentes sons e movimentos que o corpo pode produzir, deslocar-se no espaço a diferentes ritmos e velocidades, descobrir que num jogo existe uma ordem entre os jogadores e uma sequência de etapas para a sua concretização, e que, através do faz-de-conta, é possível recriar muitas das situações que não puderam ser resolvidas na hora, são muitas as possibilidades oferecidas na intervenção psicomotora.

Brincar é essencial

Tal como inicialmente referido, sendo o trabalho do psicomotricista baseado numa visão integrada do desenvolvimento infantil, os domínios cognitivos e socioemocionais são integrados em actividades significativas e lógicas para a criança. Brincar tem tanto de natural como de desafiante e são essas duas características fundamentais que nos permitem actuar de modo síncrono no desenvolvimento psicomotor, cognitivo e socioemocional da criança, sem a afastar daquilo que é a sua natureza nesta faixa etária. É aqui que a criança desenvolve papéis sociais e lhe é permitido o acesso a outras entidades e personalidades, que até então só viviam na sua imaginação. É aqui que um arco se transforma num barco, um bastão num remo e uma bola numa pedra preciosa. É aqui que a criança, no seio do trabalho em conjunto, aprende a esperar pela sua vez, a inserir-se num grupo e a planear, em conjunto com os pares, diferentes formas de resolver os desafios que o brincar lhes vai impondo.

No entanto, é também aqui que a criança aprende a regular as suas emoções, a colocar-se no lugar do outro, a expressar-se e a reconhecer aquilo que os outros possam estar a sentir. É aqui que as crianças aprendem a cooperar, se entreajudam para atingir os objectivos das tarefas propostas e desenvolvem relações positivas, através dos jogos de cooperação e de regras.

Ter um psicomotricista a actuar preventivamente em contexto pré-escolar é reunir as condições necessárias para garantir que a criança possa aprender e desenvolver-se através do brincar e da actividade lúdica. É ter um parceiro que reconhece pais, cuidadores e educadores como agentes activos no processo de ensino-aprendizagem e na promoção do desenvolvimento infantil. É ter um parceiro que colabora com as equipas de educação infantil, actua nos contextos das crianças e se insere nas suas rotinas diárias, monitorizando o desenvolvimento e identificando eventuais sinais de risco que necessitem de um apoio individualizado, permitindo, assim, uma identificação e intervenção precoces. Apostar num desenvolvimento psicomotor de qualidade, para todas as crianças, é garantir-lhes um futuro mais feliz, assim como uma comunidade mais produtiva e saudável. Como referem muitas das organizações internacionais que actuam no campo da infância: as crianças são o futuro das nações

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº6 de Dezembro de 2018.