Maria Laureano, Pedopsiquiatra na Unidade Psiquiátrica Privada de Coimbra. http://uppc.pt/

O autismo é, hoje em dia, um termo familiar à maioria das pessoas, embora nem sempre esteja tão claro o seu significado.

Se, por um lado, os casos mais graves de autismo são facilmente reconhecidos pela população em geral, formas leves de autismo, como o caso da Síndrome de Asperger, nem sempre são percepcionadas.

Actualmente fala-se em perturbação do espectro do autismo ao invés de autismo. Esta alteração na denominação tem como objectivo essencial eliminar o estigma associado ao autismo, que muitas vezes rotulava a criança ou jovem, assumindo quase um carácter identitário, referindo- -se ao indivíduo como sendo “um autista”, como se esse fosse o seu core central e toda a sua restante vivência fosse acessória. O que não é verdade. Ter traços do espectro do autismo, ou ter uma perturbação do espectro do autismo, define um modo de funcionar individual e social, mas não define a essência do indivíduo.

A perturbação do espectro do autismo (PEA) é uma perturbação do neurodesenvolvimento, que se refere a um grupo de condições caracterizadas por sintomas em três áreas principais: dificuldades nas competências sociais, na linguagem e comunicação não-verbal e tendência a comportamentos repetitivos e interesses restritos. Não existe apenas um protótipo de autismo, mas muitos tipos, resultado de diferentes combinações de sintomas, intensidade e impacto no funcionamento do indivíduo.

Importa também fazer referência a uma denominação comummente usada, embora hoje já não se utilize no diagnóstico formal: a Síndrome de Asperger. Esta caracteriza- se por dificuldades nas mesmas três áreas centrais, mas distingue-se dos outros quadros do espectro pelo facto de o indivíduo não ter atrasos da linguagem e apresentar um coeficiente de inteligência (QI) normal. Na prática tal converte-se num melhor funcionamento do indivíduo na vida geral, apresentando apenas dificuldades mais ligeiras na vida social, que por vezes podem passar despercebidas durante o seu desenvolvimento.

O que se passa no cérebro de um indivíduo com PEA?

A resposta é complexa e ainda insatisfatória. O espectro do autismo é actualmente entendido como uma condição do neurodesenvolvimento, significando que existem diferenças no padrão de desenvolvimento do cérebro.

Vários estudos têm documentado nos indivíduos com esta doença um “supercrescimento” cerebral nos dois primeiros anos de vida. Já em desenvolvimentos posteriores há claras diferenças na função e estrutura do “circuito de empatia” do cérebro. Existem, inclusive, diferenças na conectividade entre as funções dos lobos frontal e parietal, que parecem estar relacionadas com o estilo cognitivo, em particular a atenção excessiva aos detalhes de processamento. Outras diferenças têm ainda sido documentadas e podem ser encontradas na literatura científica sobre o tema.

Este conhecimento é muito mais abrangente do que o que existia há uns anos, mas claramente insuficiente para o entendimento de tudo o que se passa num cérebro com funcionamento neuroatípico. O importante a reter é que há alterações na função e na estrutura do cérebro, que promovem um funcionamento diferente.

O diagnóstico?

O diagnóstico da PEA é um desafio. Não existem análises de sangue ou testes médicos simples que permitam fazer o diagnóstico. Não existem também características ou comportamentos específicos que indiquem com certeza a presença desta condição clínica. É necessária uma avaliação ampla dos sintomas, que passa por uma observação directa combinada com avaliações psiquiátricas, psicológicas e psicomotoras específicas, bem como informação/ relatos de pais, professores ou outros cuidadores.

É muito importante que os sintomas sejam diferenciados de sintomas semelhantes que possam existir noutras perturbações do desenvolvimento ou noutros quadros psiquiátricos. Muitas vezes, a diferença crucial para um diagnóstico correcto é a avaliação ser sensível a sintomas que podem ser difíceis de aferir, nomeadamente nos extremos do espectro (nos indivíduos com marcados problemas de desenvolvimento, ou nos que são altamente funcionais). Importa destacar que os sinais mais óbvios do autismo tendem a aparecer entre os dois e três anos. Em alguns casos concretos, pode ser feito o diagnóstico aos dezoito meses.

Mas quais são os sinais mais óbvios de PEA?

As dificuldades na comunicação e interacção social são um dos núcleos centrais da PEA. Aqui inclui-se o prejuízo nos comportamentos não-verbais usados para regular a interacção social, a incapacidade de desenvolver amizades apropriadas à fase de desenvolvimento do indivíduo, a ausência de procura de partilha de prazer, interesses ou conquistas com os outros (factor visível nas crianças, quando mostram poucas coisas ao adulto ou amigos, ou não apontam para objectos do seu interesse como forma de mostrar isso ao outro). É visível, no global, pela ausência de reciprocidade social e emocional nas relações estabelecidas com a criança ou indivíduo.

Convém esclarecer que o desenvolvimento da atenção conjunta (mostrar, apontar, sinalizar com o olhar) é essencial na aprendizagem social e está associado ao desenvolvimento da linguagem e da cognição. A ausência deste elemento é um dos sinais mais importantes e precoces que podem alertar para a presença de PEA.

Outra característica importante, mas mais difícil de aferir, sem ser por técnicos especializados, é a capacidade de entender a perspectiva dos outros, ser capaz de ter uma ideia sobre o estado mental do outro e até, em certos casos, prever as suas acções (Teoria da Mente). Esta capacidade permite-nos entender as emoções do outro e desenvolver a empatia. Na prática, o prejuízo na Teoria da Mente, presente nos quadros de PEA, interfere com o desenvolvimento da empatia, capacidade para brincar ao faz-de-conta, reciprocidade emocional e social e das relações com os pares. Na PEA, os défices na Teoria da Mente são independentes da idade mental ou das capacidades intelectuais do indivíduo.

Em termos da comunicação e linguagem, os sintomas presentes podem ser vários. Contudo, destacam-se: o atraso ou ausência total no desenvolvimento da linguagem falada (que não é acompanhada de tentativas compensatórias); a dificuldade marcada na capacidade de iniciar e manter conversas; a linguagem estereotipada, repetitiva ou idiossincrática; e a ausência nas brincadeiras de imitação espontânea ou de brincar ao faz-de-conta.

Outro aspecto clínico importante, causador de elevados níveis de stress familiar, é a dificuldade em aceitar pequenas alterações nas rotinas diárias e a resistência marcada às mudanças do ambiente, ainda que pequenas. Esta dificuldade é recorrentemente um desencadeante de birras e comportamentos disruptivos graves, que muitas vezes parecem desproporcionais aos olhos dos pais e outros familiares.

Existem ainda outros sintomas e sinais passíveis de encontrar nas crianças, jovens ou adultos com PEA, mas destaco os anteriores como os mais importantes a reter pela generalidade da população. Se integrarmos estas características, seremos capazes de ajudar a diagnósticos precoces e provavelmente seremos todos mais tolerantes na relação com os indivíduos com PEA com quem interagimos, seja no domínio familiar ou no domínio social alargado em que estamos inseridos.

Como se trata o autismo?

No passado havia a crença que era possível curar os quadros de PEA. Porém, o conhecimento científico actual veio provar que isso não é verdade. Sempre que lhe sejam apresentadas intervenções curativas, a minha opinião clínica é que está a ser induzido/a em erro. Ainda assim, apesar de não existir cura, existem intervenções psicoterapêuticas que podem melhorar o ajustamento do indivíduo aos contextos sociais e capacitá-lo para uma vida mais autónoma.

Embora o autismo seja uma condição intrínseca à pessoa, todas as crianças e adultos que beneficiem de intervenções psicoterapêuticas podem reduzir os sintomas e aumentar as suas capacidades, em particular na esfera social e comunicacional. Existem três palavras que resumem o que deve ser feito junto dos indivíduos com PEA: personalizar, contextualizar e capacitar. Para isso, as terapias devem ser iniciadas o mais cedo possível, devendo sempre que possível continuar ao longo da vida. As intervenções devem ser estruturadas e intensivas, envolvendo pais e outros elementos da família. Estes programas têm como objectivo o desenvolvimento de competências sociais, de comunicação e de linguagem para a vida diária, todas elas necessárias para viver uma vida autónoma, reduzir comportamentos desafiadores e treinar a auto-regulação emocional e sensorial.

Em paralelo, é comum existirem co-morbidades médicas nos indivíduos com PEA, tais como: perturbação de hiperactividade e défice de atenção, epilepsia, perturbações do sono, quadros de ansiedade, fobias, ou dificuldade na auto-regulação, com manifestações como irritabilidade e agressividade. Nestas situações é necessária uma intervenção dirigida a estes quadros específicos, e em alguns casos chega-se a recorrer a psicofármacos para controlo sintomático.

Em qualquer criança ou adolescente em desenvolvimento, a presença de dois ou mais dos anteriores sinais deve ser avaliada por uma equipa de saúde mental infanto-juvenil com experiência em quadros do espectro do autismo, para que, se for caso disso, se estabeleça uma intervenção estruturada o mais precocemente possível, adequada ao perfil do indivíduo.

A Unidade Psiquiátrica Privada de Coimbra tem por missão contribuir para o bem-estar da população através da oferta de cuidados de saúde, de actividades de formação e de investigação, na área da Psiquiatria e saúde mental, de acordo com padrões de referência internacionais.

Para mais informações: http://uppc.pt/

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº5 de Setembro de 2018.