Patrícia Isidro Amaral, Ginecologista e Obstetra

A minha opinião sobre o assunto acaba por ser o resultado da vivência que tenho tido como médica obstetra, mas também como mãe que passou por três gravidezes.

O apoio do pai durante a gravidez é muito importante, tanto naqueles momentos em que os enjoos são muito intensos e nem se consegue levantar a cabeça da almofada, como na partilha de momentos como os primeiros pontapés, o ver a barriga em movimento ou ainda na ansiedade crescente de se aproximar aquela “hora pequenina” (esperamos). E não podendo ignorar que nem sempre as gravidezes são lineares e correm bem, nestes momentos menos bons, o apoio, a compreensão, o amor e união do casal são de extrema importância.

Lembrei-me o quão interessante seria ter opiniões sobre este tema de recém-mães e recém-pais, com diferentes vivências de gravidezes: umas com caminhos lineares ao longo da gravidez, outras com algumas intercorrências, mas todas, felizmente, com finais felizes! E assim foi. Enviei a pergunta e prontamente recebi as respostas.

Primeiro, irei abordar a opinião feminina em relação ao papel do pai durante a gravidez, e depois a visão masculina sobre o mesmo tema.

O que pensam as mulheres?

A gravidez promove alterações progressivas no corpo da mulher, acompanhadas por aumento do peso, pés inchados, aumento do volume mamário, entre tantas outras. A importância do pai em incentivar uma boa auto-estima da mulher grávida e mostrar que está disponível para ajudar no que for possível foi citado nas respostas recebidas: «A ajuda e contributo à manutenção de uma boa auto-estima durante um processo em que várias modificações surgem no corpo de uma mulher, ouvindo frases como estás uma grávida linda (na altura pesava mais 21 kg). O facto de me sentir muito amada, com todas as atenções, miminhos e cuidados que estavam ao alcance do pai foram sem dúvida importantes.»

Numa perspectiva mais física, estas alterações corporais também poderão dificultar e condicionar alguma limitação na mobilidade. A partilha das tarefas domésticas, e, por vezes, «ajuda em coisas simples, como, por exemplo, conseguir calçar as meias», também foi valorizada.

O apoio emocional, a vivência conjunta e a partilha são, sem dúvida, importantes, «já na gravidez existe uma corresponsabilidade. A importância do papel do pai no suporte emocional durante esta fase de descoberta, estando presente e fazendo parte de todos os momentos».

A participação do pai: “o acompanhamento e envolvimento nas consultas, no curso de preparação pré-parto e em todos os preparativos (quarto, roupas etc) da chegada do bebé são fundamentais para que todo este processo seja vivido a dois, para que ambos interiorizem o papel que brevemente desempenharão.”

Diferentes vivências trazem-nos diferentes testemunhos. A experiência de cada casal, e o papel do pai na gravidez também vai depender de como correu a gravidez. Sabemos que gravidez não é doença, mas existem gravidezes mais complicadas que outras, podendo surgir algumas intercorrências ao longo da mesma.

O testemunho que se segue corresponde a uma grávida que realizou a amniocentese às 22 semanas por um marcador identificado na ecografia morfológica: “Tudo foi mais leve com o pai presente. As alegrias, os sustos, os medos e a ansiedade. Toda uma bagagem de emoções, que se torna mais fácil de carregar. São muitas as transformações físicas, emocionais e hormonais por que passamos. Ter uma pessoa compreensiva, carinhosa e presente, faz com que as mudanças fluam. Mais que acompanhar nas consultas, a mulher precisa sentir que o pai está interessado e participativo em todo o processo.”

E qual a visão masculina do que deverá ser e foi o seu papel durante a gravidez?

Sem dúvida que o estar presente é importante tendo sido realçada: “a importância de querer fazer parte da vida do filho e participar em todos estes momentos, podendo acompanhar o desenvolvimento e aprendendo sobre cada fase … ir descobrindo em conjunto com a mãe”.

O sentir que a gravidez é vivida a dois é “aproveitar ao máximo a magia de todo o processo que em breve me traria um filho maravilhoso”. Claro que os pais também sofrem com os enjoos da grávida, com os desejos e com a labilidade emocional típica das alterações hormonais desta fase: “manter a lucidez e equilíbrio necessários para manter a normalidade pouco normal durante este período atribulado, porque o que antigamente cheirava bem agora é horrível, antes odiava maçãs, agora adora- as e o que dá vontade de rir ao pai, à mãe dá uma vontade imensa de chorar”. “Não é e não será fácil sentir e compreender as alterações todas que a mãe passa, mas com muito amor e paciência (grande), com o passar dos meses tudo se torna mais fácil.” A importância de “proporcionar o melhor e acompanhar em todos os momentos a minha mulher. Sim também vai ser mãe, muitas transformações físicas e emocionais…tudo muda.”

E quando durante a gravidez ocorrem alguns sustos? Qual a visão do pai? E qual o seu papel? Nas linhas abaixo deixo o testemunho de um pai cuja gravidez foi decorrendo com algumas intercorrências que foram sendo ultrapassadas… e com um final feliz:

«Em primeiro lugar, há que referir que não é possível responder a esta questão sem revisitar as expectativas acerca da gravidez. Confesso que acerca deste período tinha uma concepção muito idílica, em que os nove meses se sucederiam sem complicações, apenas envoltos em felicidade e normalidade: a descoberta, o crescimento da barriga, as consultas de vigilância, o adequado desenvolvimento do bebé, o parto. Considero-a agora uma visão simplista, não reflectida e, sobretudo, não experienciada. A nossa gravidez, não sendo propriamente uma gravidez que tenha colocado grandes problemas ou dilemas, não foi isenta de eventos adversos. Estes aspectos negativos foram: os sinais e sintomas vividos pela mãe; e alguns achados encontrados nos meios complementares de diagnóstico.

Relativamente aos primeiros, penso que o meu papel terá sido, sobretudo, de suporte, procurando atenuar, facilitar e melhorar o desconforto físico e de certa forma psicológico produzido por todas as alterações que a mãe sofreu. Neste domínio senti alguma impotência na medida em que não se podem dividir as consequências negativas desta experiência. No que diz respeito aos achados dos exames complementares de diagnóstico, o meu papel terá sido mais de partilha, pois o que nos pôde constituir um problema, angústia ou ansiedade afectou-nos de forma igual. A forma que encontrámos para gerir estas questões e as posteriores decisões surgiu também de um consenso, da ponderação enquanto casal. O âmbito de partilha considero-o, aliás, contínuo no decurso da gravidez, indispensável para a realização de uma série de ajustamentos da preparação para o nascimento. É essencial que o envolvimento do pai seja real, pois só se a gravidez for vivida a dois é que poderemos estar minimamente preparados para corresponder às exigências que surgem quando o bebé nasce.»

Sem dúvida que é sensibilizadora a descrição sobre todas as etapas que fomos em conjunto, o casal com o seu bebé e eu como obstetra, ultrapassando ao longo da gravidez. E sem dúvida que o apoio do pai durante todo este processo, de forma muito activa e tranquilizadora, foi fundamental para a mãe e para a vivência da gravidez mais feliz.

E voltando a perguntar, qual o papel do pai durante a gravidez?

A barriga do pai não cresce, mas sente os movimentos do bebé a partir da barriga da mãe. A partir mais ou menos das 24 semanas o pai pode ouvir o coração do bebé, encostando a orelha à barriga da mãe e, apesar de não ter o bebé dentro de si, o pai pode ter um papel activo durante a gravidez do seu bebé.

Inclusive, alguns pais até partilham dos enjoos e dos desejos das grávidas! A gravidez, a maternidade e paternidade são, sem dúvida, das melhores fases da nossa vida e que devem ser partilhadas e vividas pelos dois!

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº6 de Dezembro de 2018.