Clementina Almeida, Doutorada em psicologia clínica, com especialidade em bebés. Certificada em Infant Mental Health (EUA) e Baby Brains (UK), investigadora e fundadora do BabyLab – FPCE, UC

O nosso cérebro, enquanto seres humanos, é deveras fascinante. Não só pela sua estrutura, que nos distingue das outras espécies, mas também por toda a plasticidade que apresenta nos primeiros anos de vida.

Por nascer imaturo, ao contrário da maioria dos outros órgãos, o cérebro permite-nos, se jogarmos as cartas certas durante os primeiros anos, mudar radicalmente o futuro daquele bebé e de toda a sua família.

O projecto “Seja a História do Cérebro do Seu Bebé”, criado pela ForBabies, nasce da necessidade de ajudar os pais a compreender o cérebro do seu filho, mas também de os ajudar a saber de que forma é que, no aqui e agora, podem contribuir activamente para garantir o sucesso dos seus bebés. Demonstrando que não é preciso fazerem mais, gastar mais dinheiro ou mais tempo, só é preciso fazerem de modo diferente.

O que é que se passa no cérebro?

A nossa principal ferramenta de sobrevivência reside na nossa inteligência, isto é, na inúmera quantidade de neurónios (células do cérebro) e ligações entre eles. Essa quantidade de células nervosas implica um cérebro consideravelmente maior, o que implica que seja necessário um grande crânio para o conter. O que faz com que sejamos um bocadinho mais cabeçudos, comparados com os outros animais. Ora, para poder dar à luz uma criança com um cérebro grande, as mulheres deveriam ter umas ancas, também elas enormes! E isto iria complicar bastante a vida de todas nós, e tarefas simples como o sentar, ou até o caminhar, seriam completamente impossíveis.

A fim de resolver esta situação, a natureza fez como que um “pacto” connosco: os bebés nascem enquanto as suas cabeças são pequenas, ficando à nossa responsabilidade, enquanto pais, o seu crescimento.

Como funciona o cérebro do bebé?

Quando o bebé nasce, o seu cérebro vem ainda imaturo, ao contrário do que acontece com a maioria dos outros órgãos, estando apenas 25% desenvolvido. O seu maior e mais rápido desenvolvimento ocorre durante o primeiro ano, ficando mais 70% da sua estrutura definida, e até aos 3 anos teremos 85% do cérebro desenvolvido. O que significa que ainda antes da idade de entrar para a escola, muito daquilo que ele será enquanto pessoa, o seu sucesso académico, profissional, a sua capacidade de regular emoções, e até as doenças que terá depois em idade adulta ficam definidos. Por esse motivo, devemos começar a agir o mais rapidamente possível.

Este seu pequenino cérebro vem com mais de 100 mil milhões de neurónios, o equivalente ao número de grãos de areia de todas as praias do mundo. E estes neurónios comunicam entre si ao ritmo alucinante de um milhão de novas sinapses por segundo (bem mais rápido que o 4G), algo que nunca mais se vai repetir na vida.

Contudo, estas estruturas vêm ainda muito desorganizadas. Desde este período até aos três primeiros anos de vida, o cérebro passa pelo seu maior e mais rápido desenvolvimento, sendo totalmente dependente dos seus cuidadores para a definição da sua arquitectura. Tudo aquilo que fazemos, ou deixamos de fazer aos nossos filhos, tem um impacto brutal na pessoa que ele se irá tornar. No nascimento não existem diferenças em termos cognitivos nos bebés, mas por volta dos 9 meses já se verifica uma grande disparidade em bebés de famílias de baixo rendimento. E a desvantagem destes bebés em relação a outros continuará a aumentar pela vida fora.

A sua construção não está dependente de factores genéticos, culturais ou económicos, mas apenas de um único factor: as suas vivências durante a primeira infância. Ou seja, sendo que todos os bebés quando nascem são completamente dependentes dos seus cuidadores, os verdadeiros e últimos arquitectos do cérebro do bebé são os seus pais.

Construir um cérebro

Construir um cérebro é como construir uma casa. Se as fundações, ou seja, o primeiro ano, forem bem construídas, a casa será forte e resistente aos obstáculos. Mas se as fundações forem fracas, ao fim de uns anos isso irá notar-se. E podemos até fazer alguns remendos, mas nunca conseguiremos voltar atrás no tempo e começar de novo. Contudo, este é um papel que a maioria dos pais desconhece ter, o que faz com que muitas das vezes o desenvolvimento cerebral dos seus filhos seja deixado ao acaso. A construção de um cérebro saudável é algo demasiado importante para ser deixado ao acaso. Só explicando aos pais que, da mesma forma como alimentam o estômago do seu bebé, também precisam de alimentar o seu cérebro, é que podemos garantir que todos os bebés atingem o seu verdadeiro máximo potencial.

Quais os ingredientes fundamentais para construir o cérebro?

Construir o cérebro do bebé implica a existência de dois ingredientes em igual medida: a relação com o outro e as experiências sensoriais.

Na base da relação com o outro estão as interacções responsivas, ou seja, o bebé precisa de alguém que responda às interacções que ele procura ter consigo. Alguém que fale com ele, lhe olhe nos olhos, lhe dê colo e beijinhos, que não o deixe a chorar e com quem brincar em conjunto.

As experiências sensoriais são também extremamente importantes, porque o cérebro se desenvolve da base para o topo, e as competências que tem que adquirir são dependentes das anteriores. Como um computador altamente sofisticado, o cérebro de um bebé vem pré-programado para registar, tirar notas, acerca de tudo o que se passa à sua volta, criando assim a sua compreensão do mundo e ajustando-se a ele, e aqui, muito diferente de um computador vulgar, este é capaz de construir o seu próprio hardware, pois vai maturando em função das respostas que tem que dar ao seu ambiente. Depois desta produção caótica começam então a estabelecer-se padrões neuronais. Padrões estes que conduzem à criação de modelos internos de funcionamento para toda a vida! E o que é que está na base? As vias sensórias (audição, olfacto, visão, tacto, etc.) e por isso precisamos de fortificar esta base, pois todas as outras competências mais elevadas (como a linguagem, o raciocínio matemático, etc.) estão dependentes delas. As conexões usadas regularmente tornam-se mais fortes e mais complexas, mas, as que não são utilizadas, são eliminadas através de um processo chamado de poda neural.

Por que é que é importante falar sobre isto aos pais?

Tudo o que se sabe sobre o cérebro do bebé ainda pertence à ciência. O que acaba por se tornar uma questão de saúde pública, uma vez que esta informação é essencial para que os pais se possam guiar nesta grande aventura, que é a parentalidade. Só passando esta informação para as famílias é que podemos verdadeiramente beneficiar todos os bebés, mudando as suas vidas de forma positiva, e ter um verdadeiro impacto no curso da História da Humanidade.

Investir na primeira infância é mudar o futuro, pois os bebés de hoje serão os pais, cidadãos e profissionais de amanhã. Só garantindo que todos eles conseguem ser a melhor versão de si próprios, é que podemos ter a certeza de que a nossa sociedade ficará nas melhores mãos possíveis no futuro.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº5 de Setembro de 2018.