Susana Tavares, Jornalista

O que aconteceria se os adolescentes e pré-adolescentes de hoje ficassem sem internet? Será que conseguiriam adaptar-se ao mundo em modo mãos-livres? Ou, pelo contrário, sentir-se-iam deslocados e inadaptados nessa realidade alternativa sem redes sociais?

Foi esta a premissa que me inspirou a escrever “Alice no País das Sapatilhas – Tirem-me deste Filme!”. Quando se escreve para um público juvenil o grande desafio está em conseguir criar aquela relação de empatia imediata que prende à primeira página. No melhor dos cenários, essa empatia acontece antes mesmo de o leitor abrir o livro, pela ideia que está na sua origem. E parece-me que será o caso de “Alice no País das Sapatilhas”.

Alice não é apenas mais uma protagonista ficcionada de histórias juvenis, ela é o retrato fiel dos adolescentes dos dias de hoje: vive permanentemente online, passa horas nas redes sociais, depende do smartphone para tudo e deposita as suas ambições de futuro na internet, nomeadamente no seu blogue “Alice no País das Sapatilhas” e no sonho de se tornar Fashion Blogger (e eventualmente Instagrammer, Youtuber ou Influencer) de sucesso.

Parece-vos familiar? Qualquer criança ou jovem que acompanhe as aventuras de Alice vai identificar-se, quanto mais não seja porque conhece um amigo ou uma amiga que é exactamente igual. O que é que muda? As circunstâncias que fazem com que, de repente, Alice tenha de aprender a viver offline.

Quando os pais decidem mudar-se para uma aldeia recôndita de Trás-os-Montes, onde nem sequer há cobertura de rede, tudo aquilo que Alice tomava como certo deixa de existir: internet, redes sociais, chats de conversação, o seu blogue… A palavra “virtual” deixa de estar associada à realidade e Alice não tem outra alternativa senão adaptar-se. Mas será que vai conseguir?

O universo juvenil em que a história se passa está longe de ser o meu, ou pelo menos aquele em que eu cresci. Nascida nos anos 80, a minha relação com a tecnologia começou umas décadas depois, já na viragem do milénio. Estava eu prestes a entrar na universidade quando recebi o meu primeiro telemóvel, um Nokia 3310, numa altura em que esses aparelhos serviam apenas para fazer e receber chamadas e escrever SMS.

Esta foi a minha realidade, mas atenção que eu sou da Geração Y: as tecnologias associadas à mobilidade começaram a gatinhar quando eu era adolescente. Ainda assim, acabei por me tornar uma adulta significativamente dependente das tecnologias e da internet. Se hoje, por algum motivo, eu tiver de passar alguns dias (ou até algumas horas) offline, é quase garantido que começo a hiperventilar.

Ora, se isto me acontece a mim, que sou de uma geração “mais antiga”, como será para aqueles que nasceram e cresceram na Geração Z, a dos chamados nativos digitais?

De acordo com as últimas estatísticas de 2017, divulgadas pela Organização das Nações Unidas, mais de 20% dos utilizadores mundiais de internet são jovens entre os 15 e os 24 anos. Traduzindo esta percentagem em números: dos quase 4 biliões de pessoas que usam internet em todo o mundo, um pouco mais de 800 milhões são jovens.

Em Portugal, a amostra de jovens utilizadores de internet foi estudada pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada com resultados alarmantes. Numa amostra de três mil jovens, 25% admitiu que passa mais de seis horas por dia conectado, que privilegia os contactos por intermédio das redes sociais e que não tem qualquer actividade de lazer no mundo real. E, quando confrontados com a pergunta “conseguiriam viver sem internet”, 60% desses jovens respondeu que não.

Os números não mentem. A dependência da internet é tão real como os distúrbios que ela provoca. Além do próprio Transtorno de Dependência de Internet (TDI), há muitas outras “doenças dos tempos modernos”, como o Síndrome do Toque Fantasma – que nos dá a sensação de que o nosso telemóvel está a vibrar quando não está – ou a Nomophobia – abreviatura para “no-mobile phobia”, que designa o pânico de ficar sem telemóvel. Já para não falar de distúrbios bastante mais comuns como a depressão, a fadiga extrema, o défice de atenção ou a privação de sono.

As consequências de se passar horas em frente a um ecrã podem manifestar-se também fisicamente, através de inúmeros problemas musculares, de postura ou de visão. E há ainda um risco acrescido de se desenvolver a síndrome do túnel do carpo, quando se mexe frequentemente no telemóvel. Enfim, não faltam exemplos de como as tecnologias e a Internet causam efectivo impacto, físico ou emocional, nestas novas gerações.

As mudanças comportamentais são especialmente relevantes quando associadas à utilização excessiva das redes sociais, até porque se manifestam colectivamente

A crescente falta de empatia para com os outros, assim como a ausência total da noção de vergonha e de respeito pelo próximo, são algumas das características que – infelizmente – começam a ganhar terreno entre esta nova geração de utilizadores de redes sociais.

Basta pensarmos na facilidade com que qualquer um chega a milhares ou milhões de pessoas com os seus conteúdos, por mais simples ou básicos que sejam. O importante já não é a qualidade do conteúdo que se coloca online, mas o retorno que ele vai ter em forma de likes e comentários.

Nesta realidade virtual alternativa, possibilitada pelas redes sociais, criam-se “personas online”, com a presunção de que podem ser e fazer qualquer coisa pelo simples facto de estarem protegidas por um ecrã ou, nalguns casos, pelo anonimato. Este complexo de Deus virtual leva a que muitos “atirem pedras”, atacando, maldizendo, vilipendiando e desrespeitando os outros, quando dificilmente teriam essa reacção cara-a-cara.

Face aos números e às constatações, é fácil cair-se na tentação de julgar e de apontar o dedo, não só aos jovens que vivem dependentes da internet e das redes sociais, mas também aos pais, por estes não fazerem o seu papel de reguladores e impulsionadores de bons hábitos. Antes de qualquer juízo de valor, porém, importa perceber como é que se chegou até aqui. Porque a realidade dos jovens de hoje, não sendo igual à dos seus pais, apresenta desafios totalmente novos e diferentes.

Basta pensarmos na idade em que os jovens hoje recebem o seu primeiro telemóvel, por comparação com os pais. Um estudo de 2016, feito pela Google em parceria com a Ipsos, demonstrou que as novas gerações começam a ter telemóvel cada vez mais cedo: em média aos 12 anos, para a amostra de jovens com idades compreendidas entre os 13 e os 17 anos, e por volta dos 20 anos, para a amostra dos 25 aos 34 anos. Esta diferença de oito anos é substancial e o suficiente para que a personalidade de um pré-adolescente se molde, ou não, em função de um telemóvel.

No meu tempo, chamava-se telemóvel ao que hoje se chama smartphone

Na verdade, não foi só a designação para o mesmo objecto que mudou, porque mudou bem mais do que isso. O smartphone passou a ser obrigatório no quotidiano dos seus utilizadores, veio colmatar necessidades que não se sabia existirem na era do simples telemóvel – aplicações, o que é isso? – e, acima de tudo, tornou-se o objecto-testemunho da mudança de paradigma na transição de gerações.

O smartphone não só veio responder à necessidade de mobilidade do novo milénio, como ainda criou um sem-número de outras “necessidades” tidas como indispensáveis: o acesso à internet móvel a partir de qualquer lugar; a possibilidade de captar fotografias e vídeos e de os colocar facilmente online; o recurso às mais variadas aplicações, para entretenimento ou para utilizações mais práticas… A cada nova funcionalidade, o smartphone foi-se tornando mais e mais imprescindível nas nossas vidas.

No momento em que descobre que não tem rede no seu smartphone, a nossa adolescente ficcionada, Alice, reage como se fosse o fim do mundo. Na verdade, é o fim do mundo como ela o conhece. Todos os comportamentos enraizados no seu dia-a-dia, a sua maneira de olhar para a vida, a forma de se relacionar com os outros… Tudo isso gravitava em torno da internet! E agora, sem ela, o que é que poderá colmatar esse vazio? Só experienciando essa nova realidade é que Alice descobrirá o que ela lhe reserva verdadeiramente.

Talvez seja possível fazer novas amizades sem o Facebook ou declarar-se a um rapaz sem os emojis de uma janela de chat. Quem sabe. Talvez o melhor da vida esteja, afinal, fora do ecrã

Fora do ecrã, e nas páginas de “Alice no País das Sapatilhas”, encontram- -se algumas respostas para os dilemas actuais dos adolescentes. Mas não sejamos ingénuos ao pensar que basta existir uma identificação imediata entre o universo da história e a realidade dos adolescentes para que o livro seja efectivamente lido. Aliás, as estatísticas contrariam brutalmente a probabilidade de isso acontecer…

E é também por isso que “Alice no País das Sapatilhas” consegue ser um retrato fiel dos tempos actuais – porque, para além do livro, a história estende-se às redes sociais. Portanto, já não há desculpas, nem estatísticas, que impeçam os nativos digitais de conhecerem a Alice e o seu País das Sapatilhas.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº5 de Setembro de 2018.