Ana Carina Pato, Psicóloga

Quando pensamos no contexto escolar, é frequente palavras, como “Positiva”, “Negativa”, “Bom”, “Muito Bom”, surgirem como pano de fundo da nossa reflexão.

Será que não é possível separar a expressão de sucesso escolar das notas em particular? Será que nos é assim tão difícil compreender o processo de aprendizagem como algo mais do que as notas?

Desde muito pequenos encontramos na escola uma valorização pessoal, um reforço imediato e a confirmação de que somos bons a algo em particular. “Mamã! Eu sou muito bom a Matemática!” “O meu filho não é muito bom com números, mas é fantástico a Português!” Neste contexto, procuramos habitualmente a regra, o cumprimento da rotina, o planeamento e a autonomia, mas serão estes os conceitos base que transmitimos? Ou sem querer, acabamos por pautar o contexto escolar de ansiedade, sentimento de fracasso, exigência e dificuldade?

A escola enquanto contexto

A escola é o contexto onde as nossas crianças passam a maior parte do seu tempo e onde desenvolvem as noções básicas da sua personalidade, assim como as suas crenças acerca delas, do mundo e dos outros. É frequente vermos e acompanharmos meninos guiados pela exigência presente e perdidos entre todas as tiranias do “dever” e do “ter de ser”. Por vezes, próximos de um extremo, incapazes de verbalizar as suas dificuldades e de ter espaço para crescer e para ser, revoltam-se contra o contexto e optam por boicotar todo o processo. Outras vezes, vivendo inteiramente para o cumprir de expectativas, presos também pela necessidade de ter a nota máxima, de entrar para o quadro de excelência, de deixar alguém orgulhoso.

Frequentemente, procuro reflectir em conjunto com as crianças com as quais trabalho no poder destas afirmações. O que é um bom aluno? Será um bom aluno unicamente aquele que tira excelentes notas a todas as disciplinas? Ou estarão compiladas, nesta definição, outras componentes como, por exemplo, o esforço, a rotina, o planeamento e a forma activa como investem no seu próprio processo de aprendizagem?

Admito que esta reflexão nem sempre é uma tarefa fácil, pois encontramos, nos nossos meninos, já enraizadas algumas destas crenças, assim como uma resistência determinada a ver para além do estereótipo do que sempre pensaram saber e do padrão comportamental que lhes é implicitamente exigido.

Crianças ansiosas

É habitual ouvirmos crianças ansiosas com as notas e, de forma não intencional, continuamos a incentivá-las para os tão almejados “Muito Bons”, sem compreendermos a pressão a que estão expostas, as implicações na auto-estima e no quotidiano da própria criança.

No contexto clínico, chegam-nos por vezes meninos presos entre o que sentem que deveriam fazer, as expectativas dos pais e a manutenção de um papel ou postura correcta perante os professores e o contexto escolar. Centramo-nos habitualmente nos casos em que os meninos não têm boas notas, experienciam dificuldades na organização e no ultrapassar de determinadas matérias e conteúdos em particular.

A verdade é que actualmente estão presentes os dois extremos, meninos que a identificação com o contexto escolar é muito difícil e, como tal, não se encontram motivados para tal. No outro extremo, encontramos meninos que não se encontram satisfeitos com as notas que atingem, que se pressionam uma e outra vez, convencidos que nenhuma nota irá ser suficiente abaixo de “Excelente”.

Nestes casos, o que fazer? Existem formas de ajudar aqueles que nos são tão próximos a compreenderem o seu valor? A associarem o esforço e o trabalho, não às notas especificamente, mas a uma maior valorização de si e do que atingiram?

Falamos frequentemente da focalização nos resultados, no ter, no obter algo, as crianças funcionam também de forma semelhante, são impulsionadas pela ideia de obter esta ou outra nota, ignorando por vezes a importância do percurso até lá.

É nesta questão que reside a real ansiedade, a procura constante por aqueles que no fundo serão os reforços efectivos e palpáveis do nosso trabalho. A ansiedade é justificada durante todo o percurso, uma vez que são efectivamente as notas que definem se os alunos passam ou não, se entram em boas escolas e, em última análise, se podem escolher o curso com o qual realmente se identificam.

A existência desta organização no nosso ensino ajuda todas as crianças a crescerem com a crença de que o seu sucesso pode ser definido por um número, atribuem frequentemente sucesso a um número mais elevado, choram e lutam para que esse número, esse momento isolado de avaliação, traduza o esforço e todo o investimento para aquela disciplina. O que podemos então fazer para que as nossas crianças sejam felizes com as suas notas, diminuam a sua ansiedade e experienciem o processo de aprendizagem como algo mais do que os momentos de avaliação em particular?

Esta é, sim, uma questão difícil: como proteger as crianças da pressão exercida para ter boas notas? Como protegê-las da ideia de que são a nota que recebem?

Proteger da pressão

De forma global, a protecção em primeira instância vem do contexto em que se sentem mais seguros (habitualmente o contexto familiar), onde partilham os seus medos, onde procuram a aprovação e a importância dada ao seu esforço, em detrimento de uma nota mais alta.

No contexto familiar, dito espaço seguro, onde os medos são expressos com menores barreiras, podemos ajudar as crianças a acreditar no seu potencial e a afastar a ideia de que realmente eles são as notas que obtêm. Reforçar o esforço, o processo, a organização e o investimento da criança, mesmo naquelas disciplinas onde as notas não foram o que esperavam, mas onde foi visível o empenho.

Mas por que será este reforço tão importante?

Falhamos em não compreender que mesmo para com os pais as expectativas se mantêm, falhamos em não compreender que mesmo no contexto familiar as nossas crianças se sentem pressionadas a ter melhores e melhores resultados. Estes resultados fortalecem os laços entre a família, evitam os ditos problemas ou conflitos, reforçam o orgulho que o pai ou a mãe sente em referir que o filho é um bom aluno.

Posto isto, encarando de forma abrangente as implicações desta pressão, também no contexto familiar, as crianças mantêm a certeza de que boas notas se traduzem em pais mais felizes e famílias mais realizadas. Assistimos a crianças que tomam a responsabilidade e que assumem um papel adulto quando referem que só querem deixar os pais orgulhosos e este orgulho traduzido de forma numérica os vai deixar, sem dúvida, mais felizes.

O contrariar deste ciclo está precisamente na forma como, desde cedo, ajudamos a quebrar estas crenças e auxiliamos as nossas crianças a crescer cientes dos seus objectivos, das suas metas e daquilo que, conscientemente, e medindo as expectativas, podem fazer para os atingir. Factor determinante é também a forma como os ajudamos a lidar com os momentos menos positivos, com os ditos momentos em que se sentem fracassar e em que se esforçam e não conseguem atingir aquilo a que se propõem. É nestes momentos, que o aparentemente implícito se torna essencial de verbalizar, ouvir um “estamos muito orgulhosos”, ou “sabemos que te esforçaste muito e por isso estamos felizes contigo” é, não só essencial, como, atrevo-me a dizer, define a forma como a criança vai ser e sentir o seu próprio percurso.

Quando não corre bem, é importante capacitar a criança de que poderá tentar novamente, que poderá também compreender o que correu menos bem, definir novos objectivos e analisar o que gostaria de melhorar. A perspectiva de que acreditamos que irá conseguir ajuda também no afastamento da ideia inicial de que esta nota a define, contribuindo para que se sinta motivada para melhorar, independentemente da nota.

É também importante compreender que esta pressão não se encontra circunscrita ao contexto familiar, sendo também espelhada no dia-a-dia do contexto escolar das nossas crianças.

Mais uma vez, então perguntamos, o que podemos fazer para ajudar as nossas crianças a aprenderem melhor? O que podemos fazer para as consciencializar para a importância do aprender, em detrimento desta focalização nas notas?

No contexto escolar, é importante o reforço verbal referido anteriormente. Por vezes, o esforço não reconhecido para uma disciplina em particular vai condicionar a motivação e o investimento futuro na mesma. O reconhecimento do empenho de um aluno, mesmo quando a nota não é a esperada, ajuda a que o mesmo se sinta desafiado a fazer mais e melhor, desafiado a aprender mais. A diferença, aceite como uma parte integrante do processo de aprendizagem, é essencial para que cada criança tenha espaço para aprender ao seu ritmo e que tal seja acompanhado e compreendido pelas suas figuras de referência no contexto.

Aprender é mais do que ter boas notas, é mais do que a pressão (por vezes implícita, por vezes explícita) de que necessitamos de corresponder a determinados padrões. Aprender é crescer construindo o nosso percurso e retirando dele o máximo possível, para que todas as peças nos ajudem a chegar um passo mais perto do que pretendemos ser e do que um dia gostaríamos de fazer.

Aprender é aceitar, com toda a pressão presente, que somos mais do que as notas que obtemos e que nos devemos orgulhar do percurso singular que todos os anos traçamos.

A importância do sucesso

Desde os mais pequenos, aos mais velhos, é habitual falarmos sobre os “bons alunos”, conceito este estranho e difícil de definir. Para alguns, bons alunos são aqueles que têm boas notas e, para outros, são aqueles que o esforço e a vontade de aprender supera todas as dificuldades. Falamos então desde cedo às crianças do que necessitam para ser bons alunos e do quanto serão recompensadas por tal. No contexto escolar, é frequente assistirmos a um maior investimento naqueles que correspondem com notas mais elevadas: os bons alunos são os que conseguem que a sua “inteligência” se traduza em resultados numéricos. O espaço para a diferença, para o aprender de forma individual, para o corresponder às idiossincrasias do desenvolvimento da criança, fica de tal forma condicionado, que acreditamos (também nós adultos) que são estes números que traduzem a aprendizagem e a evolução. As caixinhas onde colocamos as nossas crianças, mesmo de forma não intencional, representam barreiras, muitas vezes, para o seu próprio desenvolvimento. É importante compreender que o desenvolvimento, assim como a aprendizagem, não se dá sempre da mesma forma ou ao mesmo ritmo, para todas as crianças. As diferenças na maturidade das crianças constituem um factor determinante para explicar e compreender os diferentes resultados numéricos e a complexidade associada à simples expressão “bom aluno”. Uma criança que se apresente mais desenvolvida, a nível cognitivo e emocional, terá melhores ferramentas para lidar com as diferentes situações e pressões a que é exposta. Como antítese, uma criança, com uma maturidade ainda aquém da sua faixa etária, encontra-se menos disponível para compreender e desenvolver o seu papel no processo de aprendizagem.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº5 de Setembro de 2018.