Isabel Gonzalez Duarte | Doutorada em Psicologia Clínica. Especialista em Psicoterapia Psicanalítica e em Psicologia Clínica e da Saúde

A adolescência é um período do desenvolvimento durante o qual têm lugar importantes transformações, que se prendem com o “desejo de vir a ser” e o “não ser ainda”, num caminho de descoberta e de integração, que faz a ligação entre a infância e a idade adulta. 

Muito já se escreveu sobre este tema, que preocupa pais, professores e outros técnicos, mas muito pouco se sabe ainda sobre o modo como têm lugar as transformações psíquicas durante este momento do desenvolvimento.

O livro “O Tornar-se Adolescente Através do Rorschach” apresenta um caminho, uma procura conceptual para aceder, compreender e poder descrever as transformações psíquicas que têm lugar entre o início e o final da adolescência. O mais preocupante na sociedade actual é a constante marginalização de que os adolescentes são alvo, levando em termos clínicos a uma forte rotulagem, a uma estigmatização psicopatológica, sendo urgente sair desta lógica de diagnóstico e de classificação, passando para uma outra lógica, que visa a compreensão e procura aceder ao conhecimento dos processos que já estão formados e dos que ainda se estão a desenvolver.

Para alcançar este objectivo, importa desenvolver novos organizadores psíquicos que tenham por base a compreensão da relação, neste sentido, e com base numa inspiração clínica, foram escolhidos a “techne” e o “campo”, dois conceitos que se complementam, uma vez que a “techne” permite aceder aos processos criativos e co-construtivos e o “campo” aos movimentos circulares do pensamento que estruturam a dinâmica relacional. A articulação entre estes dois conceitos possibilita ainda a melhor compreensão entre os movimentos progressivos e os regressivos, entre o antigo que dará dar lugar ao novo, (re)criado e (re)significado pelo adolescente.

O Rorschach é um instrumento clínico, familiar a todos nós, construído com base nas “manchas de tinta”, que permitem aceder ao mundo interno e aos processos intersubjectivos. Contudo, a possibilidade de se constituir como um método permite realizar uma análise mais concisa, tornando-o mais sensível aos processos em curso, no tornar-se adolescente, constituindo-se um conjunto de procedimentos que permitem operacionalizar a leitura das transformações psíquicas do Eu e da relação entre o Eu e os Outros, que se encontra a decorrer entre os 13 e os 17 anos, ou seja, entre o início e o final da adolescência. Para a leitura destes processos psíquicos, foi realizada uma grelha de análise para o Rorschach, que teve por base as suas características quantitativas (elementos da cotação e psicograma) e qualitativas (sequência das respostas e simbologia das imagens), as quais foram articuladas com os dois organizadores “techne” e “campo”, de modo a ser possível aceder, para descrever e dar a conhecer, os processos dinâmicos do crescimento mental.

Na situação Rorschach têm lugar inúmeros encontros: entre o clínico e o adolescente, entre o adolescente e cada uma das 10 manchas que constituem o teste, desencadeando uma situação de instabilidade que leva à mobilização de recursos no sentido de (re)estruturar o equilíbrio perdido, levando o adolescente a organizar o que cada uma das manchas lhe suscitou, criando novos símbolos, comunicados sob a forma de respostas, as quais são reveladoras do processo de simbolização inerente ao processo de construção e que permitiram pensar e compreender os movimentos presentes no crescimento.

Para ocultar a identidade dos nove adolescentes que aceitaram realizar o Rorschach em dois momentos distintos do seu crescimento, inspirei-me na Mitologia Grega e escolhi nomes de deuses, até porque estes são personagens do Universo de todos nós, que condensam uma riqueza de simbolismo e um pluralismo de significados, evidenciando fortes contrastes, que marcam os seus feitos na História do Olimpo, onde Eros é o espírito unificador do cosmo.

A adolescência é o que ela é, ainda assim foi possível descrever um conjunto de transformações psíquicas do Eu e da relação Eu-Outro, com as suas particularidades no feminino e no masculino. No primeiro momento do desenvolvimento verifica-se uma maior instabilidade ao nível da criatividade, em particular nos rapazes, embora a capacidade de construir seja equitativa para ambos os sexos. No decorrer do processo de tornar-se adolescente, no caminho de vir a ser um adulto, verifica-se um aumento progressivo da estabilidade dos processos psíquicos. As raparigas apresentam uma maior capacidade de estruturação, evidenciando dinâmicas de tipo cooperativo e funcional, enquanto os rapazes evidenciam um movimento mais regressivo, que dificulta a constância psíquica, no qual se encontram presentes as interacções de tipo passivo, por vezes associadas a um carácter lúdico.

De uma forma mais sistematizada foi possível descrever as transformações psíquicas presentes no tornar-se adolescente e que se agrupam em Transformações do Eu: Operante e Inoperante. E em Transformações da relação Eu-Outro, nas quais existem três níveis: a Inconclusiva, a Pré-Transformação e a Progrediente; nas quais existe um movimento de ligação na passagem de um nível para outro.

Nas transformações do Eu, a Transformação Inoperante revela, em ambos os sexos, uma incapacidade de transformação e uma dificuldade em dar um sentido e um significado ao novo e ao desconhecido. A Transformação Operante caracteriza-se pela passagem dos movimentos disruptivos e descontínuos para outros de maior estabilidade psíquica. No feminino, traduz a passagem do vago e do disperso para um movimento dotado de uma maior flexibilidade, no qual é possível conciliar o antigo e o novo. No masculino, revela um progressivo aumento da capacidade de nomear, isto é, de simbolizar.

Dentro da Transformação Operante foi ainda possível descrever duas outras transformações: as Transformações da Máscara e as de Mapeamento Identitário, ambas directamente relacionadas com a construção da imagem do adolescente. As Transformações da Máscara traduzem a ligação, nos movimentos de oposição, que tanto caracterizam os adolescentes, sendo a máscara um objecto que condensa uma dupla característica, esconde e revela, numa duplicidade carregada de simbolismo neste momento do desenvolvimento, no qual as roupas, os adereços, as marcas, são uma segunda pele que os caracteriza e os identifica junto dos pares.

As Transformações de Mapeamento Identitário são aquelas que traduzem um movimento de ligação entre os vários elementos e são mais evidentes nas raparigas aos 13 anos. No segundo momento do tornar-se, esta procura esbate-se, dando lugar ao aparecimento de um simbolismo mais rico e dotado de uma maior abstracção, através do qual é possível realizar uma procura de um rosto, com atribuições que claramente estão relacionadas com o feminino e/ou com o masculino.

Dentro das transformações da relação Eu-Outro, a Transformação Inconclusiva refere-se à impossibilidade de transformação na relação. No feminino, traduz a incapacidade em aceder ao relacional e à dificuldade de o representar. No masculino, encontra-se ligada à incapacidade de estruturar os seus atributos, normalmente associados à força e à potência.

A Pré-Transformação traduz a existência de um esboço da relação com o Outro, conduzindo a uma estruturação progressiva dos processos intersubjectivos, com a particularidade no feminino de existir uma maior criatividade, ao contrário do que acontece no masculino, onde domina a dinâmica relacional em detrimento da capacidade de construção.

No último nível, a Transformação Progrediente evidencia a capacidade de diferenciação na relação entre o Eu e o Outro, apontando no sentido do crescimento mental. No feminino, surge associada a movimentos passivos e a lógicas com um carácter especular e, no masculino, está ligada a temáticas de força, de potência e à agressividade.

A capacidade de sistematizar as transformações psíquicas presentes durante o processo de desenvolvimento adolescente permite uma melhor compreensão dos processos de crescimento mental, o que se constitui como fundamental para os adolescentes, mas que é passível de um reconhecimento por cada um de nós, no adolescente que um dia já fomos, mas também na mulher ou no homem em que nos tornámos, na família que construímos, já que a adolescência de um membro da família envolve toda a família, o que significa que a adolescência é também ela um processo familiar. Esta nova leitura permite, olhar e ver, ler e (re)significar, os processos psíquicos em construção, sendo fundamental desenvolver instrumentos cada vez mais sensíveis, que permitem sentir e pensar, porque só deste modo é que é possível ajudar pais e técnicos a terem uma outra leitura sobre o tornar-se adolescente e sobre o desenvolvimento psíquico nele contido, o que se constitui como essencial para a parentalidade e para a elaboração de novas práticas de sustentabilidade mental.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº3 de Março de 2018.