Rosa Teodósio, Médica da Consulta do Viajante do Instituto de Higiene e Medicina Tropical/ ADMT; Prof. no Instituto de Higiene e Medicina Tropical/ Universidade Nova de Lisboa

Em deslocações a zonas tropicais a protecção contra a picada dos insectos é um cuidado a não esquecer.

Há insectos que obtêm o seu alimento picando seres humanos ou animais; outros alimentam-se do néctar das flores. Mas as fêmeas de vários tipos de insectos necessitam de uma refeição sanguínea para a maturação dos ovos. A picada dos insectos provoca muitas vezes desconforto/ incomodidade, que se deve à reacção alérgica à saliva do insecto, introduzida enquanto suga o sangue.

Diferentes espécies são atraídas de forma distinta pelo calor, dióxido de carbono na respiração, componentes do odor corporal, perfumes/detergentes ou mesmo a utilização de roupas escuras ou com padrões com contraste. Contudo, os mosquitos respondem melhor ao estímulo olfactivo do que ao visual. Há, também, estímulos exteriores: a existência de água estagnada (onde as fêmeas de vários géneros de mosquitos depositam os ovos e se completa o desenvolvimento até à eclosão de novos mosquitos), o calor, a humidade, a altura do dia, havendo mosquitos que picam, preferencialmente, à noite e outros que o fazem durante o dia – os mosquitos do género Anopheles, transmissores das espécies de Plasmodium, parasita causador de malária (paludismo), picam do anoitecer ao amanhecer, são mais agressivos entre as 20h00 e as 03h00, verificando-se que na África Subsariana 80% a 90% das picadas destes mosquitos ocorrem após a meia-noite.

Doenças/agentes transmitidos por vectores

Vários agentes causadores de doenças tropicais/subtropicais, como vírus, bactérias e parasitas, são transmitidos pela picada de insectos. Devido ao aumento do número de viajantes e à reemergência de algumas doenças, um maior número de viajantes está em risco de as contrair. Em cada zona/país endémico, a transmissão pode ocorrer durante todo o ano ou ser sazonal. Para o viajante, o risco de contrair malária (paludismo) ou outras doenças varia de acordo com o destino, a estação do ano em que viaja, o tipo e duração da viagem, a eficácia e a adesão às medidas preventivas e outros factores pessoais.

Existem vacinas ou medicamentos profilácticos para proteger contra algumas destas doenças, como a vacina contra a Febre-amarela, a vacina contra a Encefalite Japonesa ou a medicação para quimioprofilaxia da malária. A malária (paludismo) é o risco mais grave para os viajantes em zona endémica. Para aqueles que não fazem quimioprofilaxia, a taxa de incidência é elevada, encontrando- se um valor de 2,4% por mês de estadia, para quem se desloca à África Ocidental. A efectividade da quimioprofilaxia depende de factores como resistência aos antimaláricos, biodisponibilidade e adesão à quimioprofilaxia recomendada.

Não existem vacinas ou medicação profiláctica para doenças como Dengue, Zika, Chikungunya, febre de West Nile ou doenças transmitidas por carraças, como a Borreliose de Lyme ou a Encefalite da Carraça, entre outras. Assim, a prevenção passa pela aplicação de repelentes e utilização de outras medidas de protecção contra a picada dos insectos vectores.

Medidas gerais

Evitar o pico de exposição: os mosquitos podem picar a qualquer hora, mas o pico de actividade para alguns vectores, como os dos vírus Dengue, Zika e Chikungunya, ocorre enquanto há luz do dia. Vectores de outras doenças, como a malária (paludismo), são mais activos ao amanhecer, anoitecer e de noite após escurecer. O risco é, também, mais elevado após a época das chuvas. Quanto à exposição às carraças, devemos lembrar-nos que se encontram, muitas vezes, em áreas de vegetação. A inspeção diária da superfície corporal permite detectar alguma carraça, que deve ser prontamente removida. Deste modo, evitar actividades ao ar livre e/ ou utilizar medidas preventivas (como o uso de repelente) durante as horas de maior actividade dos vectores pode reduzir o risco de infeção.

Evitar surtos e epidemias: de uma forma geral os viajantes devem evitar locais onde estejam a ocorrer surtos/ epidemias pelo risco acrescido de exposição/ infecção. As medidas preventivas são sempre de considerar mas, por vezes, é necessário fazer um balanço entre o risco e os factores a favor da viagem.

Protecção contra picada de insectos no exterior

Vestuário: a utilização de roupa de manga comprida, calças, calçado fechado e chapéus minimiza o risco de picada de mosquitos. Preferencialmente, as roupas devem ser de cores claras e devem evitar-se padrões com contraste acentuado de cores. Por ser muito atractivo, o vestuário azul deve ser evitado nas regiões de África infestadas com a mosca tsé-tsé, responsável pela transmissão da doença do sono. As roupas podem ser tratadas com permetrina para aumentar a protecção. Existem roupas pré-tratadas disponíveis no mercado. Contudo, a permetrina nunca deve ser aplicada directamente na pele ou estar em contacto com ela.

Repelentes: os repelentes interferem com a forma como os insectos localizam o indivíduo. Um repelente químico é uma melhor opção, conferindo mais protecção que repelentes naturais (por exemplo, óleo de citronela). Os repelentes mais eficazes, indicados pela Organização Mundial de Saúde e/ou Center for Diseases Control/USA, deverão conter um dos seguintes compostos:

  • DEET (nome químico: N, N-dietil- -m-toluamida);
  • Icaridina (KBR 3023; nome químico: 2-(2-hidroxietil)-1-ácido carboxílico de piperidina 1- ester de metilpropil), caso do leite repelente Moustidose;
  • IR3535 (nome químico: 3-[N-butil- -N-acetil]-ácido aminopropiónico, éster etílico);
  • PMD (nome químico: para-mentano- 3,8-diol);
  • 2-undecanone (nome químico: metil nonil cetona).

Os repelentes podem ser comercializados em várias concentrações e apresentações (creme, roll-on, stick, spray); devem ser aplicados nas zonas de pele exposta, na dose recomendada, evitando a sua aplicação nos olhos/boca/feridas/ /pele irritada.

A eficácia e duração da protecção dos repelentes dependem da concentração do produto, da formulação e de outros factores, como a humidade e a transpiração, variando, também, com os diferentes tipos de vectores. Em geral, repelentes com concentrações mais elevadas do princípio activo protegem mais tempo, independentemente da sua composição; a humidade e a transpiração diminuem a duração da eficácia. Assim, deve-se reaplicar repelente sempre que necessário, considerando as instruções de utilização do produto e as indicações do seu médico/farmacêutico.

A aplicação de repelente e protector solar deve ser feita pela seguinte ordem: aplicar primeiro o protector solar; depois, aplicar por cima o repelente. Mas, a aplicação de um repelente à base de DEET reduz em um terço a protecção conferida pelo protector solar (FPS – Factor de Protecção Solar), pelo que o viajante deverá reaplicar o protector solar se necessário. Produtos que combinem protector solar e repelente exigem reaplicações mais frequentes, pelo que não são recomendados.

Protecção da picada dos insectos no interior das habitações

No interior (quarto de hotel ou casa) devem ser utilizadas medidas para evitar a picada dos insectos. Geralmente a vedação de janelas não é 100% eficaz em manter os mosquitos no exterior.

Ar condicionado: a manutenção de um ambiente fresco diminui a probabilidade de picada, pelo que se deve dormir em quartos com ar condicionado. A temperatura mínima requerida para a reprodução do Plasmodium falciparum são os 180 ºC – o quarto deve, então, estar a uma temperatura inferior.

Redes mosquiteiras: deve ser utilizada rede mosquiteira na cama, para dormir protegido sempre que exista risco de picada por mosquitos [os mosquitos do género Anopheles, que transmitem malária (paludismo), e os mosquitos do género Culex, que transmitem arboviroses, têm actividade nocturna]. Certifique-se que a rede não tem aberturas/ /rasgões e prenda-a debaixo do colchão. Certifique-se que não dorme com partes do corpo pousadas contra a rede (os mosquitos conseguem alimentar- -se através das redes). Neste aspecto, as redes rectangulares são preferíveis às que têm forma de “tenda”. Mosquiteiros impregnados com piretróides, como a permetrina (impregnados pelo viajante ou previamente impregnados pelo fabricante), conferem protecção superior aos não impregnados. A permetrina tem um efeito repelente e inseticida, pelo que o uso por um indivíduo de um mosquiteiro impregnado confere alguma protecção a outro indivíduo que esteja no mesmo quarto e não esteja a utilizar rede mosquiteira na cama.

Insecticida: a aplicação de insecticida poderá afastar os mosquitos que estão ocultos num quarto antes de alguém se deitar, mas não tem efeito residual, pelo que não actua sobre mosquitos que entrem mais tarde/durante a noite no quarto.

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº5 de Setembro de 2018.