André Carvalho & Carolina Quina 

Quantas vezes pensamos se devemos ou não levar os nossos filhos para uma viagem? Muitas vezes sentimos uma enorme interrogação e as dúvidas são muitas. 

Qual a viagem que mais se adequa? Será que aguentam muitas horas dentro do avião? Será que conseguem andar uma manhã de museu em museu por uma cidade europeia? Será que vamos aguentar as birras dos nossos filhos, quando só queremos adormecer ao sol a ler um livro que está na estante há mais de dois anos? Não é fácil decidir, se os vamos levar para esta viagem ou não… Oiço isto todos os dias na minha agência e tento nunca interferir nesta decisão. Ou talvez não.

A gravidez é, assim, um estado de graça, mas comecemos pelo princípio. Há cerca de nove anos, fui em direcção ao Algarve para umas primeiras férias na condição de pai. Eu, a Carolina e a pequena Leonor de 10 meses. Ansiava deitar-me naquela areia dourada de Cabanas de Tavira, em ler um bom livro à beira da piscina, em jogar uma partida de pingue-pongue, em jantar calmamente umas conquilhas enquanto saboreava um bom vinho branco alentejano.

Faltava encaixar neste imaginário um bebé de 10 meses, irrequieto, curioso, chorão, que já começa a andar e que não quer perder nada. O meu imaginário de férias de descanso total acabou aqui, algures no final de Junho de 2008. Nesse momento, senti-me frustrado e até zangado. Parece que só percebi que a minha vida tinha definitivamente mudado, quando parti para estas primeiras férias em família.

Palavra de ordem: adaptação

Com os anos vieram mais viagens e mais filhos e o sentimento começou a mudar, já não conseguia viajar sem eles, deixei de precisar do descanso total e adaptei-me a viajar em família, mas, muito importante, eles também.

Depois de ter estado oito meses a viajar com os meus três filhos pelo mundo, acho que já fiquei com uma ideia do que é que eles gostam de fazer e qual a forma para eles estarem entretidos em viagem. A pequena Leonor tem hoje nove anos e continua a ser a mais curiosa e mexida, não quer deixar de fazer nada e a melhor forma para ela estar bem é ter sempre alguma coisa para fazer ou ver. O Pedro fez sete agora e tem muita imaginação, distraindo-se facilmente; por outro lado, tem tendência para ter saudades de casa, pelo que mais uma vez a receita final acaba por ser a mesma, terem o que fazer e ver. O André tem dois e vai para todo o lado, desde que vá com os pais e irmãos, claro que às vezes pode fazer uma birra, mas como é o terceiro já nem sentimos.

Há sempre quem fique desconfiado quando falamos em viajar com crianças. Costumo dizer aos meus amigos que normalmente num dia de trabalho vemos os nossos filhos duas horas, numa altura em que já estão cansados e acabamos por apanhar sempre a parte das birras. Numa viagem, a diferença é que continuamos a ter as duas horas de birras diárias, mas passamos a ter o resto do dia em que eles estão bem.

Apreciar a aventura

Hoje em dia sabemos que somos nós pais que tornamos fácil viajar com crianças; se formos práticos e tivermos facilidade em viajar, então os nossos filhos vão certamente adaptar-se e inclusive ajudar-nos. Para eles, tal como para nós, é uma descoberta. À medida que vamos viajando, vamos ganhando experiência e vamos estando mais preparados para relaxar a viajar. Sim, porque saber viajar também tem um processo de aprendizagem. Para adultos e crianças.

Perguntam-nos muitas vezes se sítio X ou Y é indicado para crianças. Tentamos perceber o perfil de quem faz a pergunta, que tipo de viagens já fez, se está preparado para viajar para determinado sítio com os filhos. Muitas vezes acabamos por indicar destinos que, no nosso entender, encaixam no nível de experiência que essa pessoa tem a viajar, para dar mais um passo nesta “aprendizagem das viagens”. Mas tenho a certeza que as crianças, tal como nós, estão preparadas para descobrir o mundo e não temos dúvidas que é uma das melhores coisas que lhes podemos dar. Vá viajar em família, sem stress!

Já pensou nisto?

Para nós viajar com crianças pode ser de facto fácil, mas é também uma aprendizagem constante, pelo que aproveito as nossas experiências para falar um pouco de alguns tópicos pertinentes nesta temática.

Caminhadas

Era uma dúvida que tínhamos e agora temos a certeza: as crianças adoram fazer caminhadas, desde que tenham aventura. O ideal são as caminhadas pelo meio da natureza, com buracos, escarpas, bichos, paus e quanto mais desafiante melhor. São capazes de andar horas em condições destas, mas atenção, se pedirem a uma criança para andar horas numa cidade, com pessoas, trânsito e confusão, a resposta provavelmente será outra. Vão fartar-se e ficar impacientes muito mais rapidamente.

Museus

Claro que aqui depende um pouco do gosto de cada criança, mas, no geral, um museu de história natural vai naturalmente funcionar melhor do que um museu de pintura clássica. Aqui funcionará melhor tudo o que tiver mais relacionado com a natureza, ou seja, diferente.

Animais

Sim, há crianças que não gostam de animais. Mas falamos da maioria e essas adoram, pelo que qualquer viagem que envolva contacto com animais diferentes será certamente uma jornada de sucesso junto dos mais pequenos. Se perguntarem a uma criança o que mais gostou numa viagem, se eles tiverem tido contacto com animais diferentes, a maioria das respostas vai ser que foi disso que mais gostaram.

Aviões

Aqui não vale a pena inventar, se o voo é longo é fundamental ir num avião com sistema de entretenimento (televisão com filmes e jogos individual). A realidade é que ninguém foi feito para estar 12 horas sentado numa cadeira com 40 centímetros de largura a olhar para as paredes. Em voos de longa duração, tentar sempre ir com uma televisão à frente, ou então levar os iPads e afins.

Praia

A não ser que não gostem, o que também é raro, é sempre a solução mais fácil para viajar com crianças. A areia e o mar são um dos melhores brinquedos que a natureza nos deu.

Alimentação

É uma das maiores preocupações dos pais, principalmente quando viajam para lugares exóticos. Pois bem, nunca ouvimos falar de nenhuma criança que tenha morrido à fome a viajar. Há sempre alguma coisa que eles vão querer comer, nem que seja arroz branco, que é uma comida quase universal. Definitivamente não deve ser uma preocupação.

Saúde

Claro que há sítios e sítios, e alguns podem merecer medidas especiais e eventualmente até desaconselham uma viagem com crianças, mas vemos muitas vezes pais preocupados em ir para a Tailândia, Indonésia ou Vietname, e não vemos a mesma preocupação em países como Brasil, São Tomé ou Moçambique. Será que é da proximidade? Da língua? É que há países muito visitados por famílias portuguesas com muito mais riscos para a saúde do que outros vistos como, eventualmente, perigosos.

Segurança

É uma questão muito similar à da saúde e hoje em dia estamos seguros onde?

Artigo publicado na revista Kids Marketeer nº3 de Março de 2018.